Quinta-feira, 5 de março de 2026 - 08h02

A
ideia matriz dessa construção textual não tem um corpus acadêmico ou
academicista, pois é muito mais militante e voluntarioso. Por isso, acessar o
mundo tanto é um aporte epistemológico (entendimento, conhecimento) quanto é
político, pragmático, como via de transformação aprofundada, radical.
Por
sua vez, neste texto traremos um sentido mais diverso, inusual, de
acessibilidade. Do mais tradicional e óbvio, que é acessar meios, locais,
situações que deveriam ser franqueadas, mas que são impedidas por obstáculos,
ofendículos (barreiras hostis) e relações preconceituosas e discriminatórias,
até a ideia de que precisamos, com regime de urgência, acessar o conhecimento,
a educação básica e a mais elaborada, os recursos e os meios de promoção
individual e social.
O
texto é basicamente um recorte do pensamento autoral, com lastros em vivências[1] que foram aqui
racionalizadas e generalizadas, e, por isso, não há referências bibliográficas.
É mais um ensaio do que um artigo no sentido acadêmico, é mais vivencial do que
burocrático. Para efeito didático, está dividido em partes mais curtas, que se
concatenam ao longo da exposição. Procuramos imprimir os argumentos seguindo os
sentidos abstratos, sociais, aos mais específicos, do mais geral ao particular.
As exposições nos subitens variam, intercambiam-se entre uma crítica mais ácida
ou mais irônica, do tom mais agudo ao cronista, do mais abstrato ao
concreto-pensado.
CONSCIÊNCIA EM TRÂNSITO
O
que transita é o que já está em movimento, é o que transita entre aqui, ali e
acolá. O que leva a pensar na acessibilidade como uma via, um canal, um
conjunto de meios que permitem ou facilitam o acesso e, assim, não obstruem o
movimento.
Basicamente,
trata-se do estar para ser e, posteriormente, do estar aqui para também ser
ali.
E
onde está a acessibilidade nisto?
Está
em tudo, e podemos ver o básico primeiro: as classes dominantes que olham
somente para si, para dentro do poder que lhes concede cada vez mais
privilégios, podem acessar o que bem entenderem. Não lhes pertence (salvo
exceções) a mobilidade decrescente na hierarquia social e econômica: o ditado
popular diz que “caem ganhando, para cima”. Obviamente, as classes dominantes
acessam o poder que lhes renova e assegura todos os privilégios; além disso,
podem mover uma montanha para assegurar seus direitos.
Somos
nós, os expurgados socialmente, economicamente, que não acessamos poderes,
espaços, conteúdos, institucionalidades, serviços, condições elementares à
moção da dignidade humana. Quem acessa o poder, acessa tudo o que lhe garanta
ainda melhores condições de acessibilidade.
No
Brasil, o combo de racismo, misoginia, elitismo, capacitismo é institucional,
replicante, multiplicado, e assim se molda toda a luta política em torno da
luta de classes; contudo, é este um bom começo para quem se nutre do Direito à
consciência.
É
desse modo que a consciência de classe se põe ali fora, entretanto, para estar
ali, é preciso estar aqui (dentro), conscientemente. E assim, a acessibilidade
é feita com conhecimento, lógica, prospecção, reflexão. A primeira ação, por
derradeiro, começa em si – para, então, estar ali. O que é óbvio, pois algo
somente pode vir a ser (ali) quando se sabe como é estar por aqui.
Sem
o acesso ao conhecimento, não iremos com a consciência a lugar nenhum. Em tese,
esse é o papel da educação, não como uma margem limitante do rio, mas,
sobretudo, como o fluxo, uma correnteza que leva adiante, que faz mover, que
desagua no que precisa ser feito, modificado e, desse modo, levando consigo as
raízes do que impede o acesso de milhares, milhões de pessoas.
CONSCIÊNCIA SOCIAL E DE CLASSE
O
título trata, sem dúvida, da consciência de classe.
E,
no caso brasileiro, é uma consciência que deve olhar para baixo e para dentro,
antes de olhar para cima e para fora. Para dentro de si, de sua configuração de
classe social, e para fora dos limites estreitos delineados nos interesses
limitados e individualizados.
Comumente,
adormecidas pelos cantos de sereia do capitalismo do enriquecimento fácil, da
riqueza rápida, as pessoas olham para cima e para fora: para fora porque não
querem a miséria que se impõe, para cima porque almejam o que os “ricos têm”.
Essa
consciência até sabe onde está, alguns no fundo do poço, só não se entende o
que a colocou ali; isolada, limitada, olha exclusivamente para si, imagina-se
liberta da opressão da miséria – mas, sem os outros.
Esse
efeito limitado de somente olhar para fora (das condições reais) e para cima
(dos campos de poder) é compartilhado com outras classes sociais: a famosa
classe média que quer ser rica, a classe dominante que almeja dominar
infinitamente, as classes pobres que detestam ser pobres.
Aqui
cabe uma sinalização: as classes pobres não detestam, exatamente, a miséria, a
pobreza continuada, detestam o fato de que sejam assujeitadas a essas condições
de negação: o indivíduo lamenta estar ali e não vê que o vizinho está na mesma.
Isto é, trata-se de uma consciência de quem olha somente para si, não existindo
o todo que mantém aquelas condições de negação.
Por
outro lado, quando olhamos para baixo e para dentro, estamos procurando, além
de nós mesmos, outros que sejam semelhantes ou que estejam prostrados em
condições análogas. Digamos que “olhamos para dentro da classe social”, para a
classe social em suas infinitas condições, limitações e possibilidades, e,
quando “olhamos para baixo”, passamos a clarear o entendimento acerca das
estruturas e das condições do poder.
Assim,
especificamente no caso brasileiro, o Direito à consciência social é
incisivamente dirigido pela consciência de classe que é forjada por uma luta de
classes racial. A expressão “racial” é péssima, porque parte da limitação
(negação) que há no entendimento de que a Humanidade é dividida em raças – na
essência, qualquer limitação trazida pelo “racial” é irracional, porque não há
raças humanas. Só há uma espécie. Porém, pior do que isso, é esse o gatilho
empregado na continuidade do racismo e das proposições de eugenia. Em outras
palavras, também é assim que se faz perdurar a luta de classes racista.
No
conjunto, esse olhar para cima e para fora, sem, contudo, ver-se adequadamente
– porque não se veem uns aos outros –, além de um imenso e interminável individualismo,
egocentrismo, ainda revela a lógica neocolonial e neoliberal que “opera as
consciências por dentro”.
Numa
frase, essa lógica seria assim resumida: A pior opressão é aquela em que,
sutilmente, o indivíduo se presenteia (banqueteia-se) com a sua Abdução social.
DIREITO À CONSCIÊNCIA
Há
valores que se interligam por terem pontos em comum e para manterem um sentido
pleno – a eficácia de que tanto nos queixamos, por não vermos “surtir efeito”:
a diretriz, como em tudo, está na dignidade humana. Esse é o prisma, o valor
que invade o princípio e o torna um fundamento, e tem essa condição porque, uma
vez condicionado, sem esse fundamento (de ser fundamental a todo ser humano),
não há sentido que se preserve e nem se anime.
Como
valores que movimentam consciências e ações (práticas, portanto), a
acessibilidade se espelha na inclusão e na permanência. Entende-se que, “sem
acessar não há como estar e, sem estar, ninguém é; afinal, logicamente, não se
pode ser sem estar”.
É
esse o empuxo básico, para que, estando, ou seja, sendo incluído, haja
permanência – em outras palavras, a acessibilidade inaugura as condições
elementares para que se esteja, com consciência e a ação de que não haja
exclusão.
Essa
é a cosmovisão (visão de mundo ampla, mas também angular, aguda) que propõe a
inclusão sem a comum contrapartida da exclusão. Neste sentido, entre a
consciência e a ação, forma-se uma teoria que propõe sua prática – toda teoria
já congrega a ação, a prática, ou, do contrário, é mera ideologia, as tais “narrativas”
que se desligam dos fatos e, muitas vezes, abonam atos que (na prática) negam a
inclusão.
Em
termos de acessibilidade, nessa cosmovisão (a teoria de quem vê) ou há inclusão
ou há exclusão – as duas não andam na mesma equação. Porém, é impositivo que
observemos a lógica: sem acessar, ninguém é incluído. Sem a acessibilidade
vigora apenas a exclusão.
A
mesma construção pode/deve ser verificada na economia, na política, nas
relações sociais, na educação, na cultura, no próprio envolvimento e na participação
consciente (propositiva) “por dentro” do Processo Civilizatório: o que abriga e
obriga a direção para a ação do sujeito ativo e não meramente contemplativo.
Resumidamente,
o Direito à consciência se pauta (direcionando-se ativamente) pelo pressuposto
da acessibilidade, sendo guiado pela dignidade humana, e com vistas aos
espaços, ambientes, lógicas e estruturas que moldam a nossa sociedade.
Na
economia, por exemplo, essa teoria se fortifica com a luta política pela
Justiça Social, quando, eficazmente, a propriedade privada se reveste de função
social; na política, a acessibilidade é manifesta com a renovação política, com
o ingresso dos jovens na arte do “fazer-se política”, pois, além de tudo, essa
acessibilidade promove a rotação dos poderes com o devido combate à
mistificação reinante no culto à personalidade.
Juridicamente,
a acessibilidade está inserida desde o “acesso (prático, efetivo) à justiça”,
quanto está no entendimento e no reconhecimento correto (ético) do “Significado
das leis” – é este conjunto que inibe a formação de seres imorais (e, obviamente,
antissociais).
Socialmente,
o fundamento da acessibilidade visa atacar a desigualdade social e a própria
transformação (deformação) das diferenças em desigualdades; na cultura, a
acessibilidade, por óbvio, leva, sobretudo, o povo pobre, negro e oprimido para
dentro do teatro, do “palco de operações” – mas, propõem-se muito mais, ao
garantir a acessibilidade, a inserção efetiva, estamos dizendo que a arte e a
cultura são patrimônio da Humanidade: é como acessar o interior da cultura como
atores da história.
Por
fim, há que se afirmar a prevalência da consciência que tenha a educação
participativa, inclusiva e de boa qualidade – com acesso aos conteúdos já
assegurados pela construção humana do conhecimento. Enfim, não é difícil vermos
o quanto a acessibilidade é crítica – por definição.
É
o “acesso” à educação envolvida com o “fazer-se política”, envolta no
conhecimento científico, ético, filosófico, que se revela eficaz à consciência
do Direito, da sociabilidade diversa e expansiva, diretiva da solidariedade
econômica (Justiça Social), da inclusão cultural.
Isso
é práxis, aquela cosmovisão capaz (ciente de sua responsabilidade e
permanentemente consciente) de que não existe teoria sem prática – e nem o
inverso faz sentido, quando se resume à repetição do mesmo. Também é por meio
desse fluxo que a autonomia individual se transmuta (converte-se,
dialeticamente) em emancipação social.
DIREITO
À CONSCIÊNCIA (SOCIAL)
O que seria essa consciência social, com a qual muitos debatem e que as pessoas tanto falam?
Tomemos
um exemplo muito elementar: estudantes que entrem 15 minutos atrasados e saiam
20 minutos antes do final das aulas e atividades, todos os dias, todas as
semanas, em todos os períodos. Multiplique-se essa rotina por cinco anos.
Enquanto
estudantes ficam até depois das aulas, quanto tempo e oportunidades essa pessoa
furtou de si, ao se negar o acesso ao conhecimento? Será que não tem nenhuma
noção do que está fazendo consigo?
Será
que o indivíduo, estudante ou não, furtando-se à votação, sistematicamente, não
tem noção do que faz a si e ao município, Estado ou país? Claro que sabem,
todos eles, sabem bem o que fazem ou deixam de fazer.
Então,
é possível pensarmos que toda consciência seja social ou não se trata de
consciência, mas sim de era informação, desinformação e até de deformação.
Salvo exceções que confirmam a regra, mesmo o indivíduo mais indolente,
apático, indiferente, malicioso diante dos fatos, das condições e situações, dos
problemas sociais, está ciente, tem alguma “ciência”, no popular, tem “noção”
do que faz ou deixa de fazer.
Pode
ser que esse indivíduo não tenha profundidade alguma em qualquer análise
social, contudo, tem uma mínima noção de si e do que tem à sua volta. Pode,
nesse caso, não acessar níveis razoáveis de interpretação, análise, reflexão,
pode, inclusive, ser incapaz de uma autocrítica, pode ser impossibilitado de
acessar traços elementares do conhecimento científico, ético, filosófico e
político, porém, está minimamente ciente do que quer para si (e para nós –
ainda que não saiba soletrar “Nós”), e mesmo que o seu intuito seja apenas
ficar indiferente e viver encostado nos outros.
É
óbvio que esse indivíduo jamais fará alguma análise sociológica, mas sempre
será/estará consciente do quanto está sendo antissocial. Esse indivíduo não
sabe dizer o que é Interação Social – até porque não comunga com isso –,
todavia, está ciente (inclusive zeloso) da interação que mantém com a desídia,
irresponsabilidade, desleixo, e até recebimento, comunicação e comunhão com as
origens e os propagadores dos males sociais.
Neste
sentido, concluindo esta premissa, não associamos consciência à análise
sociológica. A análise social, por mais rasteira, simplificada ou quase nula
(distorcida), está presente em cada indivíduo (também chamado de “ser social” –
e mesmo que não seja em nada sociável).
Já
a análise sociológica, entretanto, e sem que fiquemos listados às
epistemologias, Teorias Sociais, e por mais rudimentar, inicial que seja, a
análise sociológica está presente – por força do estreito vínculo mantido com o
objeto, que é a Interação Social – em todos os seres sociais ativos,
especialmente naqueles que produzem, expandem, escalam a sociabilidade –
interativa, expansiva, integrada, humanizada.
Pode-se
chamar isso de sabedoria popular, conhecimento prático (ainda que parcelado,
particularizado), derivado da experienciação da vida social, ou simplesmente do
núcleo forte do Bom Senso que orbita o senso comum.
A
acessibilidade aqui, portanto, refere-se ao verbo acessar: trata-se de acessar
níveis mais responsáveis, profundos e amplos, quanto ao conhecimento, à
cultura, ao que efetivamente é importante em termos de relações sociais.
Trata-se
de invocar o verbo, pô-lo em ação, movimentando-se, movendo-se o acesso à
consciência que se faz todos os dias, um pouco a cada experiencia, um pouco
mais a cada leitura e reflexão honesta, comprometida, com os reais anseios e
esforços de humanização.
ACESSAR O CONHECIMENTO
Neste
breve texto estamos num caminho, em um ritmo, nós trilhamos o sentido de que
acessar o conhecimento implica em desapegar da ignorância, do preconceito, da
discriminação e da defesa de toda e de qualquer forma de desigualdade. E isso
não se faz assim porque é politicamente correto, como se diz, isso se coloca obrigação
da consciência na certeza da Justiça Histórica – é claro que tem que ser feita,
e é, todos os dias. É bastante simples de entender que na história nada está
feito, a não ser o passado da injustiça que sempre volta para uma visita (ou
permanência).
Porém,
numa linha do assim chamado “politicamente correto”, mais voltado ao
vocabulário do que à realidade concreta, tem muitos desvios. Vejamos um caso
que provoca muito: reconheço que a história antirracista é secular, porém, não
sei se o apego à ideia de “raças” é benéfico. Por duas razões penso que não:
geneticamente, não há raças humanas, somos uma única espécie; a ideia marcada
na raça é, precisamente, o que move o racismo. Essa expressão (racismo), por
sua vez, é a mais racista que pode haver – infelizmente, por falta de outra
melhor, será mantida. Mas, raça não, meu conhecimento me impede de falar em
“raças humanas”.
ACESSIBILIDADE
Tem
um livro de crônicas mais antigo que fala tudo que penso para iniciar um
projeto novo, bacana, com pessoas do bem e sérias quanto aos assuntos sérios.
De Otto Lara Rezende, intitula-se “Um bom dia para nascer”. Todas crônicas
maravilhosas que sempre saudaram a vida.
E
hoje penso que é um Bom dia para nascer uma ideia que nos fortifique, fortaleça
nossa humanidade, esse bem-querer que começa no básico: aquele bom dia, o
obrigado, a gentileza com idosos, mulheres, crianças, pessoas com dificuldades,
pessoas com alguma deficiência.
Hoje,
então, é um ótimo dia para nos reunirmos em torno de uma ideia que é muito
maior do que qualquer um/a de nós aqui. É a ideia da acessibilidade.
Primeiro,
construímos o entendimento de que a acessibilidade é a essência, o pontapé de
qualquer proposta ou iniciativa. É com a acessibilidade que haverá inclusão,
participação, permanência, autonomia e emancipação.
“Sem
estar” ninguém irá a lugar algum, entretanto, para estar, é preciso acessar. Se
não posso acessar uma oportunidade, uma repartição pública, uma instância
privada, evidentemente, não teria como estar ali.
Por
isso, hoje e sempre será um Bom dia para nascer uma ideia, um projeto, algumas
metas e pautas construídas para a acessibilidade. E, mais do que isso, para que
haja efetivamente acessibilidade, esse esforço de construção tem que ser
coletivo: um ótimo dia para representarmos o esforço coletivo pela
acessibilidade.
É
assim que se acessa a inteligência social, os espaços, o campo de lutas, o
conhecimento que nos lastreia nessa empreitada. É assim que se acessa o Direito
de ser, o direito nascido do fato básico, da situação elementar, que é o
acessar “para estar”. Dos direitos fundamentais, o direito a acessar para
estar, sem sombra de dúvidas, é o primeiro, posto que anda lado a lado com a
dignidade humana – essa condição que é de todo ser humano.
Essa
é a luta pela acessibilidade a que me proponho, com vocês, a levar adiante.
Vamos
juntos e juntas dar forças a esse coletivo?
O DESENHO UNIVERSAL DA ACESSIBILIDADE
O
desenho universal da acessibilidade (ou que promove a acessibilidade) começa
assim: não é exatamente um passo após o outro; hoje, por exemplo, precisa dar
um pulo. Mas, seguramente, é uma rampa de acesso que permite subir degraus
diante da exclusão. Sem acessibilidade, essa rampa que aniquila a isonomia, as
mínimas condições de se inserir para participar, vale a regra do “do cada um
por si”, vigorando a lógica de que o vencedor da maratona é quem “dá seus
pulos”.
A
acessibilidade garante a inclusão e esta depende, ainda mais, das condições de
permanência. Condições de permanência que, obviamente, devem ser edificadas
(como as muitas rampas de acesso) em conjunto com os meios de inclusão. Do
contrário, com acesso, porém, em condições negativas, negacionistas da
permanência, o caminho de volta, rápido, chama-se exclusão.
Não
há pertencimento sem acessibilidade, só há banimento antes do ingresso. Não há
pertencimento sem inclusão, pois vigora o entrar e prontamente sair: banimento.
Não há acessibilidade e inclusão se impera o banimento (prévio ou posterior).
Não há, portanto, acessibilidade e inclusão sem pertencimento.
Na
ampla lógica social predomina a Lei do mais forte, de quem define quem pode e
quem não pode acessar e permanecer. É a Lei do mais forte que, inclusive
frequentemente, permite que alguns acessem e até permaneçam; no entanto, em
condições indignas – isto é, como um convite para que se autoexcluam. É
importante ter essa clareza porque a dignidade humana está no primeiro e no
último estágio dos valores que permitem acessar a Condição Humana.
Este
é, basicamente, o desenho universal. A acessibilidade não está limitada a uma
rampa de acesso, todavia, sem esta rampa, a acessibilidade não está em lugar
nenhum e, assim, também está excluída a dignidade humana. Aqui há um segundo
fator, primordial e já presumido, não se acessa a Condição Humana sem
acessibilidade, inclusão e permanência (expansão).
PESSOA COM DEFICIÊNCIA
Eu
tenho deficiência física, na perna esquerda, e estou nesse imenso rol que chamam
de PCD – pessoa com deficiência. É mais um apelido. E como todo apelido não diz
nada sobre você, aliás, apelidos relatam somente o mau gosto dos outros. Isso
também me lembra das chamadas nomenclaturas: tentativas de explicações
sintéticas sobre algo que via de regra levam a lugar algum. Começarei por esse
PCD e depois trarei outras “nomenclaturas viciadas” por defeito catastrófico em
sua origem e proposição.
Por
pessoa com deficiência se entende um mar de gente – para mim infinito, como
veremos –, da mais simples deficiência física às deficiências mentais e físicas
das mais complexas e praticamente insolvíveis.
Antigamente,
chamava-se de “portadores de necessidades especiais” e, lá no passado, eu mesmo
escrevi que todo mundo porta algo; poderia ser portador de registro de
nascimento (muita gente, na infinita miséria, sequer tem sinal público de sua
existência) ou portador de alguma boa (ou má) intenção.
Ocorre
que hoje me parece o mais óbvio, uma vez que, se todo mundo pode ser portador
de alguma necessidade (por exemplo, milhares e milhões que não comem quatro
refeições diárias), eu, com deficiência física, tenho uma necessidade especial
que outras pessoas não têm – ou têm e fingem não ter. Tenho necessidade, por
exemplo, de ter rampas de acesso ou elevadores – ao contrário das escadas que
ainda encontro nas dependências do serviço público.
Pois
bem, resolveram que essa terminologia não era boa e mudaram para PCD. Neste
caso, particularmente, gostaria de saber qual pessoa não tem deficiência,
alguma deficiência!? Gostaria de conhecer, porque um ser assim perfeito,
majestoso, um anjo na Terra, é uma causa nobre. Não há ninguém assim: até o
dedinho da mão esquerda será diferente, maior ou menor, do que o da mão direita
(para as pessoas que têm mãos “normais”).
Outro
caso emblemático (talvez o mais estapafúrdio) é daquelas “pessoas absolutamente
desabrigadas de dignidade humana” – essa nomenclatura seria o meu
politicamente, sociologicamente, correto. Esse caso, no entanto, tem uma
bizarrice latente, um desvio moral observado na cultura de época e, que, em
seguida, na nossa época, revoltando-se, tornou-se absolutamente hipócrita.
Lá
nos cafundós da história, essa pessoa que chamei de “absolutamente desabrigada
de dignidade humana” (porque não tem nem um cobertor) era “definida” pela
cultura reinante como “indigente”. O termo já diz tudo (“indi-gente”), e não
seria preciso detalhar muito o que se passava na cabeça das outras pessoas
daquela época, afinal, nos bastaria pensar que, por “indigente” intui-se que se
trata de alguém que não é gente. Assim, se não é gente, era (ou é) “algo” – um
estorvo para as castas, classes e “mentes normais” daquele tempo.
Depois,
as “pessoas absolutamente desabrigadas de dignidade humana” foram apelidadas de
mendigos, pedintes, moradores de rua, moradores em situação de rua e, no meio
disso tudo, esse politicamente correto (na ortografia apenas) chamou-os de
“moradores de área livre”. Aqui me parece que a hipocrisia chegou no seu auge.
Definitivamente, não sei se há algo mais perverso do que isso.
Concluindo,
de volta ao topo, penso que a pior deficiência é a moral.
Diante,
mediante esse quadro que atormenta a lógica mais elementar, é preciso
transgredir as ofensas, os obstáculos, os ofendículos e as “barreiras de
classe” que nos aprisionam no passado perturbado do país e de nossa cultura e
sociedade.
ENSINANDO A TRANSGREDIR
Em
meios inóspitos, excludentes, violentos, transgressores da dignidade humana, é
preciso transgredir.
É
preciso transgredir o status quo liderado pela injustiça.
É
preciso transgredir a Casa Grande que impõe a fome.
É
preciso transgredir os muros imorais do racismo, da misoginia, da homofobia, da
xenofobia.
É
preciso transgredir a divisa da palafita que segrega pela miséria.
É
preciso transgredir o capacitismo que se alimenta da meritocracia
neoliberal.
É
preciso transgredir a cancela que chancela mais o pasto do que o humano.
É
preciso transgredir toda ordem que só projeta o progresso dos escolhidos pelo
capital.
É
preciso transgredir todas as mentes opacas, deturpadas, corrompidas.
É
preciso transgredir todos os obstáculos, as normas negativas, os hábitos e as
práticas que excluem, que tornam a dignidade inacessível, quando deveriam
incluir.
É
preciso transgredir, radicalmente, todas as raízes dos piores males sociais,
políticos, econômicos, culturais.
É
preciso transgredir tudo isso, até o dia em que não precisemos mais transgredir
a opressão.
Na
prática, na real, não há acessibilidade porque sequer temos a consciência
mínima do que é certo e do que é errado.
Portanto,
é preciso transgredir, até cansar de ler, todos os sinais de injustiça,
desigualdade, preconceito, discriminação.
Na
última sequência traremos um pequeno mapa conceitual, de algo que sabemos e de
poucas questões que precisamos refazer ou reconstituir, em nosso imaginário,
nas nossas consciências e ações e no entorno, no ambiente social que nos
engloba. Fica, assim, um convite final para que cada um/a de nós se apodere da
melhor forma possível.
CONSCIÊNCIA JURÍDICA
-
Nada tem a ver com o “notório saber jurídico”
(inclusive,
porque está em falta)
É a consciência do “Significado das leis”
-
Por que as leis existem?
Se
somos anjos, por que tantas leis?
Exatamente
porque não somos anjos
O primeiro pecado venal é a subversão do Directum
-
do que é Correto, do que é devido, Ético, Justo
É
a própria aniquilação do Direito
DIRECTUM
Aquilo que aponta para a Ética
-
É a linha reta da consciência
Não
por acaso, Directum é retidão
É a reta razão do DIREITO@viniciocarrilhomartinez
Nesse
texto, vamos interagir com esse mapinha conceitual, mas de outra forma, com
outras palavras.
Antes
de uma conversa sobre consciência jurídica (entre o certo e o errado),
tomaremos de empréstimo uma ideia sobre Cultura Jurídica, um pouco de
conhecimento (mesmo que quase intuitivo) para nos posicionarmos no quadro
geral. Pensemos que todo mundo deveria saber (ao menos ter curiosidade em
saber) o que é Isonomia, Igualdade, Liberdade. Correto?
Sim,
correto. Porém, a maioria das pessoas não sabe.
Neste
sentido inicial, podemos dizer que a maioria das pessoas tem opiniões e cria
seus juízos (muito mais prejuízos, se pensarmos na distorção provocada), e que,
no fundo, isso não passa de pré-conceitos: aquilo que pensamos saber, antes de
conhecermos efetivamente algo ou alguém.
Há
uma simetria entre o pré-conceito de quem referencia pejorativamente o Direito,
a Cultura, a Consciência Jurídica e o preconceito de quem “julga pessoas com
deficiência”; essa similaridade tem um nó bem dado no desconhecimento, na
ignorância, na concepção superficial. Todo ato de preconceito, portanto, deriva
de um pré-conceito, uma ignorância em termos de informação e de conhecimento
adequados, consolidados acerca do que realmente é ou sobre alguém.
Com
isto, estamos dizendo que a Consciência Jurídica (Ética, em si) tem início no
acesso à realidade dos fatos e das pessoas. E ninguém acessa nada de forma
superficial, por vezes grosseiramente; nós só acessamos em essência – na
aparência nós tateamos e muitas vezes deturpamos.
E
é esse tatear que inibe o outro verbo – a acessibilidade provém do verbo
acessar, e que é um verbo de ação, efetivo, concreto, não como algo a ser
concebido, postulado, mas sim a ser realizado. Quem acessa, portanto, o mundo
do Direito não o faz contemplando, imaginando, supondo, uma vez que, o faz de
forma a requerer o Direito para si e, assim, tornar o Direito um meio de ação.
Trata-se
aqui da famosa Luta pelo Direito, quer lutemos individualmente, quer
enfrentemos o processo historicamente: um caso notório é o da luta antirracista,
pelos direitos civis, na década de 1960 nos EUA. Também pensemos no reconhecido
maio de 1968, sobretudo na França, em luta pela liberdade e paridade.
No
nosso caso, buscamos no Direito os meios de efetivação da acessibilidade, posto
que, como vimos, é a exigência natural, imediata do verbo de ação – acessar
para que o Direito se faça justiça.
O
sistema de cotas, a chamada “discriminação positiva”, as ações afirmativas, as
políticas públicas, as Políticas de Estado (a exemplo do SUS) e outras ações têm
esse prisma: buscar o equilíbrio da balança – e que, historicamente, nunca
existiu no Brasil.
Na
nossa histórica luta, tratamos da transformação da isonomia, essencial por
definição, em equidade: a justiça sendo realizada, de fato. Em parte, ou em conjunto
a isso, o acesso à justiça tem esse princípio.
Ainda
podemos visualizar nisso a Mutação Constitucional e a nossa Constituição de
1988, que acumula vários desses processos de inclusão (as apelidadas “gerações
de direitos”) e que se afirmam contra a “normalização da exceção” e da exclusão,
em oposição à indignidade, contrariamente à degradação do espaço público.
Neste
caso e em quase tudo, por fim, é fácil vermos que se trata da acessibilidade ao
conhecimento, “aos estudos!” (notadamente da história), ao saber qualificado e
à prática daí decorrente – acessar a práxis, sendo sujeito ativo, portanto.
Preferimos
manter a conclusão em aberto, uma vez que entre consciência e ação (ou inação),
nossa práxis pode (de fato ela fala, expressa) melhor do que nossas narrativas,
racionalizações ou superstições sobre esse tema.
ACESSAR VALORES
A
criação desse texto não seguiu um caminho positivista – começo, meio e fim –
mas sim uma combinação de reflexões, consciência analítica acumulada e de
licença poética, o que permitiu mais fluência, ainda que abordando questões
mais complexas. É claro que o refazimento teórico-conceitual cabe a quem o lê
com o intuito de aprofundar os pensamentos e os enlaces aqui apresentados.
Como
se viu, ao longo da leitura, a intuição foi uma ferramenta amplamente
empregada, num tipo de mistura entre liberdade do pensamento, referenciamento
conceitual (ainda que sem citações), reflexões sobre algo da História de Vida,
em constante racionalização e mediante o esforço analítico que separa ilações
de pressupostos. Esse conjunto, em parte expansivo no texto, constitui a visão
de mundo do autor. Porém, não se propôs a construção de uma tese ou sequer
memorial.
Além
disso, é fundamental destacar sempre que possível o intercâmbio continuado,
permanente (como a Educação Permanente), entre valores, princípios e
pressupostos.
É
com esse espírito que encerramos esta aproximação ao tema ampliado da
acessibilidade. E é assim que nós, particularmente, acessamos o mundo.
Quinta-feira, 5 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
Fundamentos civilizatórios da educação emancipadora
O objetivo geral do texto é delinear alguns fundamentos que não podem ser questionados e abandonados por quem pensa a Educação de forma emancip

-- a contradição em carne viva. -- nuances e seduções do reprodutivo Pensamento Escravista.O Brasil não é o país das contradições, é a própria essênci

Fundamentos - Esse texto é um desagravo
Esse texto é um desagravo em virtude dos cortes e dos maltratos recebidos pela Educação e Ciência no Brasil. As caneladas sempre sobram para o lado

Nesse texto procurei sintetizar as respostas que forneci à revista da PUCMG. Não alterei o sentido, nem a estrutura do texto, e adotei esse caminho
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