Terça-feira, 3 de março de 2026 - 08h35

O objetivo geral do texto é delinear alguns fundamentos que não podem ser
questionados e abandonados por quem pensa a Educação de forma emancipadora.
Para uma compreensão geral, dividimos em duas partes que se comunicam e que
refletem o mesmo sentido civilizatório proposto.
Fundamentos da educação para a ciência
Pensar uma Educação que se constitua de forma
emancipadora implica romper com concepções dogmáticas de ensino, historicamente
consolidadas nas salas de aula e naturalizadas como mecanismos de regulação
social e de perpetuação das desigualdades.
Na perspectiva da educação para a ciência, essa
ruptura demanda reconhecer o conhecimento científico para além de uma concepção
tecnicista, compreendendo-o como uma produção humana e historicamente situada, indissociável
dos contextos políticos, sociais e econômicos nos quais é produzido, legitimado
e socialmente apropriado. Não há neutralidade na produção e aplicação da
ciência.
A ciência, nesse sentido, não se apresenta como
uma produção descolada da experiência humana, mas como uma construção social
permeada, atravessada por valores, interesses, disputas e projetos de
sociedade. Reconhecer essa não-neutralidade constitui um fundamento inegociável
da educação científica orientada à compreensão crítica da realidade e à
formação integral do sujeito, enquanto estudante e cidadão. Reduzir o ensino de
ciências à mera transmissão de conteúdos, à lógica da educação bancária
(FREIRE, 2019)[1] ou
ao treinamento técnico significa esvaziar seu potencial formativo e transformador,
convertendo o conhecimento em instrumento de adaptação, e não de emancipação.
É essencial, portanto, que a educação científica
promova a leitura crítica do mundo, articulando conceitos científicos às
experiências concretas dos sujeitos e às problemáticas sociais passadas e
contemporâneas. Nesse processo, os estudantes devem ser reconhecidos como
sujeitos ativos na construção do conhecimento, capazes de questionar,
interpretar e atribuir sentido aos saberes científicos.
Uma educação para a ciência comprometida com a
emancipação afirma o compromisso ético da ciência com a vida, a justiça social
e o bem comum, posicionando-se criticamente diante de usos do conhecimento que
aprofundam desigualdades e exclusões sociais.
Assim, a educação científica consolida-se como
fundamento essencial de um projeto civilizatório orientado pela autonomia
intelectual, pela responsabilidade coletiva e pela transformação social.
Por que ensinar a Filosofia?
A Filosofia consiste na base de todas as
ciências, de modo que todas as ciências bebem de sua lógica a partir da
vinculação de todos os conhecimentos científicos terem nascido dos pensamentos
filosóficos, o que proporciona reflexão sobre a existência e o pertencimento.
A Filosofia contribui para a formação crítica do
sujeito ao promover, desde a educação básica, a problematização de normas,
valores e práticas sociais. Para além da transmissão de conteúdos específicos,
seu ensino desenvolve competências argumentativas e lógico-dedutivas,
favorecendo a análise crítica da realidade e das dinâmicas de poder e opressão.
Desse modo, justifica-se sua obrigatoriedade no ensino médio em razão de sua
relevância formativa, reflexiva e político-social.
Diante do cenário atual na educação pública do
Estado de São Paulo, há um projeto político do neoliberalismo que anula a
autonomia e a emancipação na escola pública. Após a reforma do Ensino Médio
aprovada em 2017, que fragiliza a educação brasileira desde sua base, a
disciplina de Filosofia deixou de ser obrigatória no ensino médio e passou a
integrar apenas como um item dos itinerários formativos em escolas públicas. Em
contrapartida, se contradiz ao ensino privado que não adere à reforma e mantém
o modelo antigo, com foco pré-vestibular. O que acaba favorecendo a
desigualdade no acesso à educação no Brasil.
Assim, a reforma diminui a carga horária comum,
com ênfase em ciências humanas (filosofia, história, artes e sociologia), e
aumenta a carga horária de itinerários formativos, que são matérias interd “educação
financeira”). Entretanto, ocorre uma omissão entre a finalidade e os efeitos
reais do projeto, substituindo-se a filosofia pela educação financeira, isso
equivale a ensinar o aluno a lidar com o pouco que ganha, e jamais questionar o
porquê de ganhar pouco. A exclusão da disciplina de filosofia faz com que os
estudantes deixem de ter acesso a uma formação crítica, como indivíduos de uma
sociedade cindida, conturbada, desigual, como é a brasileira. Neste sentido, o
ensino de filosofia agiria de per si como resistência e construção da práxis
(reflexão e ação).
[1] FREIRE,
Paulo. Pedagogia do oprimido. 91. ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra,
2019.
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