Sábado, 18 de outubro de 2025 - 08h05

O que não se vende, da gente pobre, é o fio de
esperança.
Para Carolina de Jesus não se expurga a fome, a
angústia de ver os filhos passando todas as necessidades. Porém, mesmo naquele
quarto despejado, e jamais desejado, não se vende e nem se perde a alegria de
estar viva.
Ali, um dia de fome é assim – e traz uma conta
muito dura:
●
“Fiz a comida. Achei bonito a
gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo
vendo a comida ferver. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa
para eles.
●
Vejam só. Até o feijão nos esqueceu.
Não está ao alcance dos infelizes que estão no quarto de despejo. Quem não nos
desprezou foi o fubá. Mas as crianças não gostam de fubá.
●
O céu é belo, digno de contemplar
porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves
perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para
despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando
contentamento. A noite surgem as estrelas cintilantes para adornar o céu azul.
Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever. Só uma coisa nos
entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que
existe.
●
A Thereza irmã da Meyri bebeu
soda...Tem dois filhos, um de 4 anos e outro de 9 meses”[1].
Quando se lê isso com o coração na boca, o que não se vende é o lugar do Outro, da Outra. É o sentimento comum a quem consegue ver as pessoas comuns, aquelas que comumente passam pelas piores necessidades da vida.
[1] CAROLINA
Maria de Jesus. Quarto de despejo: diário de uma favelada. São Paulo: Ática,
2014, p. 43.
Quarta-feira, 4 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
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