Terça-feira, 16 de junho de 2026 - 08h05

A
temperatura aqui em Porto Velho durante o meio do ano sempre foi alta e dizíamos
até, no caso, que o mês de agosto era o mês do desgosto, coincidentemente entre
junho e agosto eram os meses de mais sinistros. Vários são os relatos envolvendo
a região do pátio da Estrada de Ferro, tido como certo naquela época, e de
quebra, vez por outras, na cidade de Porto Velho.
Nossa
casa ficava dentro da área da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ao lado ao lado
da primeira sede do Banco do Brasil, pertinho da Feira. Era uma enorme casa de
madeira, com telhado de duas quedas sendo a que ficava voltado para o rio
madeira cobrindo a cozinha e os dois quartos e, a outra, voltado para a Avenida
Farquhar, cobrindo a copa e sala, de forma alongada, quase o dobro da outra,
com cobertura de zinco, o mesmo material dos galpões e armazéns da ferrovia.
Era uma
casa enorme, com janelas grandes de um parapeito de aproximadamente uns 10
centímetros voltadas para o Rio Madeira. Ali eu sentava e fica horas do dia
vendo o vai e vem das locomotivas, o movimento das pessoas que trabalhavam por lá
e apreciando a bela vista de tudo ali.
Éramos privilegiados, com o rio bem ali e a ferrovia tão
próxima, com uma linha de serviço a poucos metros, abaixo de uma pequena
elevação de dois a três metros de altura. Quando as máquinas passavam por ali, nós
víamos os domos e a chaminé. Claro que não era de se estranhar que as
locomotivas parassem ali, a beira de tantas árvores frutíferas que tínhamos, e
que os maquinistas pedissem “um cafezinho”. O atendimento era infalível, até
porque todos eram conhecidos do papai e da mamãe.
Um dos irmãos
era viciado em papagaio. Nessa época havia um senhor que era conhecido na
cidade como o “rei do papagaio”, o “Pelé do Papagaio”, que era o seu Nézio. Eu
não apreciava muito essa brincadeira mais sabia aproveitar a brisa duma manhã
para não deixava de ser o “Nézio” com minha curica.
Não
lembro ao certo que dia da semana estávamos, porém era bem nítido o movimento
de pessoas na feira que ficava a poucos metros, no pátio da estrada de ferro,
ainda mais que o papai havia ido trabalhar, o que podemos dizer que era um dia
de semana. Logo cedo pela manhã, meu irmão fominha de papagaio pediu para a
mamãe ficar em cima de casa, do telhado empinar papagaio. Com o consentimento da
mamãe, pegamos a escada e facilmente subimos de cima de casa. Ali era uma
maravilha, telhado de zinco, mesmo material dos armazéns, material duro, parecia
ferro, bastante resistente, a gente podia até correr sobre ele.
Na qualidade
do caçula da família, não podia perder essa oportunidade de também ir com meu
irmão para o telhado da casa. A vista era uma maravilha, me debruçava na
cumeeira e ficava apreciando todo aquele cenário da ferrovia e do Rio.
A minha
esquerda, a Casa de Enxofre, a Oficina e um pouco a frente à Estação. A minha
frente os Armazéns, o Serviço de Navegação do Madeira e, entre eles, o Rio
Madeira, que não estava tão seco. A direita, o local de serviço dos vagões de
combustíveis, com um barranco alto, por onde se bombeava o produto para os
caminhões e de lá distribuírem aos postos de gasolina. Por ali o cheiro de
gasolina sempre foi muito forte trazido pelo vento, no entanto como era uma
área de pouco movimento de pessoas nada nos preocupava. Era muito combustível
derramado ali que escorria por uma pequena vala, passando por baixo dos trilhos
indo até o rio entre o SNG e o Armazém 1, onde o papai trabalhava.
O
trabalho de serviço de pátio da ferrovia não era fácil. O carregamento dos
vagões contêineres na integração do Plano Inclinado com a ferrovia era muito
grande, pois tinham que estar prontos às 6 horas do dia seguinte para partir
rumo a Guajará Mirim.
As máquinas
eu conhecia todas, pelo barulho dos pistões ou pelo apito. A minha intimidade
com elas era grande e todas sabia seu número e nome, claro que tinha a minha
preferida que era a Máquina 4 - Marechal Rondon, a “poderosa!”
Naquele
dia, sob sol escaldante, a máquina General Quentin Quevedo, que prestava serviço
no pátio, parou na entrada do bananal, logo após o SNM, se vendo apenas a sua
frente. O serviço parado, tudo parecia imóvel, exceto meu irmão que vez enquanto
saia correndo no telhado aos berros, puxando a linha do papagaio. Ele detinha
um grande respeito com o seu Nézio, os quais eram rivais no papagaio. Passado
um tempo vejo o maquinista e foguista passando ao lado de casa cortando caminho
para irem na feira almoçar, acredito.
Depois um
tempo passa um deles descendo o barranco, pegando linha e, tranquilamente
caminhando, apreciando seu cigarro, passando próximo aos vagões tanques, uns
quatro ou cinco, indo até a máquina, sem se importar que por onde caminhava, estava
em meio a resíduos de gasolina. Da locomotiva só se ouvia o barulho
característico do duplo spray seguidamente de pressão saindo dos pistões com um
breve intervalo e pelo Domo de pressão.
Com a máquina preparada para o serviço, um forte barulho
surgiu: ela patinava, saindo de forma abrupta e expelindo intensa pressão pelos
pistões. Esse som me surpreendeu, pois não era procedimento comum impor tanta
velocidade em um curto espaço de tempo, de maneira anormal, procurando tração
no trilho em um dia ensolarado. Partindo assim, a poucos metros ouvimos uma
explosão fortíssima. O estrondo foi tão intenso que nos assustamos, gritando:
“O que foi isso?”
No trecho
da linha passa a pequena vala de água, com enorme resíduo de gasolina que caia
dos vagões tanques no chão durante o bombeamento para os caminhões no alto do
barranco, partiu um rasto de fogo, na certa uma brasa do cinzeiro da caldeira
deva ter caído justamente onde havia gasolina na vala e daí a explosão, se
alastrando nas duas direções: dos vagões tanques e rumo ao rio onde estava o
banco do 5º BEC, com o fogo se alastrando completamente.
A
locomotiva, desgovernada, continuou em velocidade rumo a oficina, porém, por
mão divina, entrou no desvio para uma linha paralela que dava acesso ao setor
de abastecimento de lenhas, ao lado direito da Garagem, se chocando com pilhas
de lenhas.
A sirene
que ficava na usina de luz da
SAALFT, entrou em aviso com seu barulho incessante avisando que algo
sinistro estava acontecendo, repetida vezes, parecia não parar.
O fogo
tomou conta dos vagões tanques e o barco do 5º BEC virou uma bola de fogo. A
correria de pessoas era desesperadora, muitos procurando proteção outros
tentando proteger alguma coisa. Algumas embarcações com seu pessoal
desesperados por retirá-las do local próximo ao barco do BEC, outros já
procurando meio de puxar o barco em chamas para o meio do rio.
A gritaria era enorme, e todo o pessoal da feira correu
para a margem da Avenida Farquhar. Meu irmão rompeu a linha do papagaio
enquanto nós, de um lado para o outro no telhado, conseguíamos ver o desespero
dos trabalhadores da ferrovia e dos estivadores diante do que estava
acontecendo. Na oficina, todos corriam para o local onde a locomotiva havia
parado. Muitos da feira vieram para o quintal de casa para observar o incêndio
mais de perto.
A mamãe
vendo toda aquela gente passando pela janela onde ela ficava costurando vai até
a cozinha onde tinha uma porta que dava acesso ao quintal para ver que estava
acontecendo, de onde se tinha também uma ótima visão dos vagões tanques já em
chama. Ao chegar na porta a mamãe encontra seu Raimundo, guarda da ferrovia, pedindo
para todos nós que evacuássemos a casa pois havia eminente de explosão dos vagões
tanques.
A mamãe
desmaia. Meus irmãos foram ao seu socorro, carregando-a para o carro de alguém
conhecido e a levaram para a clínica Amazonas, que ficava na Sete de Setembro.
Um caminhão do corpo de bombeiro, que era simplesmente era um caminhão pipa,
tentando um atalho para chegar ao local do fogo indo pela linha férrea, ficou
preso com suas rodas traseiras travadas no trilho fazendo com que várias
pessoas fossem ao seu socorro buscando meios para tirá-lo daquela situação.
Caçambas do
5º BEC traziam areia e derramavam próximo ao SNM e soldados e estivadores com
pás iam jogando areia sobre o fogo metro a metro. Na boca do vagão tanque
parecia um lançador de chamas.
Depois de
muitas horas se passaram, a noite já entrando para o fogo ir sendo domado. A mamãe
voltou tarde da noite com o papai muito sujo, e nos, assustados por um dia de
muita adrenalina. No incêndio não houve nenhuma vítima fatal, apenas um oficial
do 5º BEC teve graves queimaduras.
Um dia terrível
na Madeira Mamoré!
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