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Um dia de cão na ferrovia!


Crédito: S. Alarcão - Gente de Opinião
Crédito: S. Alarcão

A temperatura aqui em Porto Velho durante o meio do ano sempre foi alta e dizíamos até, no caso, que o mês de agosto era o mês do desgosto, coincidentemente entre junho e agosto eram os meses de mais sinistros. Vários são os relatos envolvendo a região do pátio da Estrada de Ferro, tido como certo naquela época, e de quebra, vez por outras, na cidade de Porto Velho.

Nossa casa ficava dentro da área da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, ao lado ao lado da primeira sede do Banco do Brasil, pertinho da Feira. Era uma enorme casa de madeira, com telhado de duas quedas sendo a que ficava voltado para o rio madeira cobrindo a cozinha e os dois quartos e, a outra, voltado para a Avenida Farquhar, cobrindo a copa e sala, de forma alongada, quase o dobro da outra, com cobertura de zinco, o mesmo material dos galpões e armazéns da ferrovia.

Era uma casa enorme, com janelas grandes de um parapeito de aproximadamente uns 10 centímetros voltadas para o Rio Madeira. Ali eu sentava e fica horas do dia vendo o vai e vem das locomotivas, o movimento das pessoas que trabalhavam por lá e apreciando a bela vista de tudo ali.

Éramos privilegiados, com o rio bem ali e a ferrovia tão próxima, com uma linha de serviço a poucos metros, abaixo de uma pequena elevação de dois a três metros de altura. Quando as máquinas passavam por ali, nós víamos os domos e a chaminé. Claro que não era de se estranhar que as locomotivas parassem ali, a beira de tantas árvores frutíferas que tínhamos, e que os maquinistas pedissem “um cafezinho”. O atendimento era infalível, até porque todos eram conhecidos do papai e da mamãe.

Um dos irmãos era viciado em papagaio. Nessa época havia um senhor que era conhecido na cidade como o “rei do papagaio”, o “Pelé do Papagaio”, que era o seu Nézio. Eu não apreciava muito essa brincadeira mais sabia aproveitar a brisa duma manhã para não deixava de ser o “Nézio” com minha curica.

Não lembro ao certo que dia da semana estávamos, porém era bem nítido o movimento de pessoas na feira que ficava a poucos metros, no pátio da estrada de ferro, ainda mais que o papai havia ido trabalhar, o que podemos dizer que era um dia de semana. Logo cedo pela manhã, meu irmão fominha de papagaio pediu para a mamãe ficar em cima de casa, do telhado empinar papagaio. Com o consentimento da mamãe, pegamos a escada e facilmente subimos de cima de casa. Ali era uma maravilha, telhado de zinco, mesmo material dos armazéns, material duro, parecia ferro, bastante resistente, a gente podia até correr sobre ele.

Na qualidade do caçula da família, não podia perder essa oportunidade de também ir com meu irmão para o telhado da casa. A vista era uma maravilha, me debruçava na cumeeira e ficava apreciando todo aquele cenário da ferrovia e do Rio.

A minha esquerda, a Casa de Enxofre, a Oficina e um pouco a frente à Estação. A minha frente os Armazéns, o Serviço de Navegação do Madeira e, entre eles, o Rio Madeira, que não estava tão seco. A direita, o local de serviço dos vagões de combustíveis, com um barranco alto, por onde se bombeava o produto para os caminhões e de lá distribuírem aos postos de gasolina. Por ali o cheiro de gasolina sempre foi muito forte trazido pelo vento, no entanto como era uma área de pouco movimento de pessoas nada nos preocupava. Era muito combustível derramado ali que escorria por uma pequena vala, passando por baixo dos trilhos indo até o rio entre o SNG e o Armazém 1, onde o papai trabalhava.

O trabalho de serviço de pátio da ferrovia não era fácil. O carregamento dos vagões contêineres na integração do Plano Inclinado com a ferrovia era muito grande, pois tinham que estar prontos às 6 horas do dia seguinte para partir rumo a Guajará Mirim.

As máquinas eu conhecia todas, pelo barulho dos pistões ou pelo apito. A minha intimidade com elas era grande e todas sabia seu número e nome, claro que tinha a minha preferida que era a Máquina 4 - Marechal Rondon, a “poderosa!”

Naquele dia, sob sol escaldante, a máquina General Quentin Quevedo, que prestava serviço no pátio, parou na entrada do bananal, logo após o SNM, se vendo apenas a sua frente. O serviço parado, tudo parecia imóvel, exceto meu irmão que vez enquanto saia correndo no telhado aos berros, puxando a linha do papagaio. Ele detinha um grande respeito com o seu Nézio, os quais eram rivais no papagaio. Passado um tempo vejo o maquinista e foguista passando ao lado de casa cortando caminho para irem na feira almoçar, acredito.

Depois um tempo passa um deles descendo o barranco, pegando linha e, tranquilamente caminhando, apreciando seu cigarro, passando próximo aos vagões tanques, uns quatro ou cinco, indo até a máquina, sem se importar que por onde caminhava, estava em meio a resíduos de gasolina. Da locomotiva só se ouvia o barulho característico do duplo spray seguidamente de pressão saindo dos pistões com um breve intervalo e pelo Domo de pressão.

Com a máquina preparada para o serviço, um forte barulho surgiu: ela patinava, saindo de forma abrupta e expelindo intensa pressão pelos pistões. Esse som me surpreendeu, pois não era procedimento comum impor tanta velocidade em um curto espaço de tempo, de maneira anormal, procurando tração no trilho em um dia ensolarado. Partindo assim, a poucos metros ouvimos uma explosão fortíssima. O estrondo foi tão intenso que nos assustamos, gritando: “O que foi isso?”

No trecho da linha passa a pequena vala de água, com enorme resíduo de gasolina que caia dos vagões tanques no chão durante o bombeamento para os caminhões no alto do barranco, partiu um rasto de fogo, na certa uma brasa do cinzeiro da caldeira deva ter caído justamente onde havia gasolina na vala e daí a explosão, se alastrando nas duas direções: dos vagões tanques e rumo ao rio onde estava o banco do 5º BEC, com o fogo se alastrando completamente.

A locomotiva, desgovernada, continuou em velocidade rumo a oficina, porém, por mão divina, entrou no desvio para uma linha paralela que dava acesso ao setor de abastecimento de lenhas, ao lado direito da Garagem, se chocando com pilhas de lenhas.

A sirene que ficava na usina de luz da SAALFT, entrou em aviso com seu barulho incessante avisando que algo sinistro estava acontecendo, repetida vezes, parecia não parar.

O fogo tomou conta dos vagões tanques e o barco do 5º BEC virou uma bola de fogo. A correria de pessoas era desesperadora, muitos procurando proteção outros tentando proteger alguma coisa. Algumas embarcações com seu pessoal desesperados por retirá-las do local próximo ao barco do BEC, outros já procurando meio de puxar o barco em chamas para o meio do rio.

A gritaria era enorme, e todo o pessoal da feira correu para a margem da Avenida Farquhar. Meu irmão rompeu a linha do papagaio enquanto nós, de um lado para o outro no telhado, conseguíamos ver o desespero dos trabalhadores da ferrovia e dos estivadores diante do que estava acontecendo. Na oficina, todos corriam para o local onde a locomotiva havia parado. Muitos da feira vieram para o quintal de casa para observar o incêndio mais de perto.

A mamãe vendo toda aquela gente passando pela janela onde ela ficava costurando vai até a cozinha onde tinha uma porta que dava acesso ao quintal para ver que estava acontecendo, de onde se tinha também uma ótima visão dos vagões tanques já em chama. Ao chegar na porta a mamãe encontra seu Raimundo, guarda da ferrovia, pedindo para todos nós que evacuássemos a casa pois havia eminente de explosão dos vagões tanques.

A mamãe desmaia. Meus irmãos foram ao seu socorro, carregando-a para o carro de alguém conhecido e a levaram para a clínica Amazonas, que ficava na Sete de Setembro. Um caminhão do corpo de bombeiro, que era simplesmente era um caminhão pipa, tentando um atalho para chegar ao local do fogo indo pela linha férrea, ficou preso com suas rodas traseiras travadas no trilho fazendo com que várias pessoas fossem ao seu socorro buscando meios para tirá-lo daquela situação.

Caçambas do 5º BEC traziam areia e derramavam próximo ao SNM e soldados e estivadores com pás iam jogando areia sobre o fogo metro a metro. Na boca do vagão tanque parecia um lançador de chamas.

Depois de muitas horas se passaram, a noite já entrando para o fogo ir sendo domado. A mamãe voltou tarde da noite com o papai muito sujo, e nos, assustados por um dia de muita adrenalina. No incêndio não houve nenhuma vítima fatal, apenas um oficial do 5º BEC teve graves queimaduras.

Um dia terrível na Madeira Mamoré!

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