Porto Velho (RO) sexta-feira, 28 de janeiro de 2022
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Por que não vou ao Baile Municipal, de máscara


 

Ariel Argobe (*)

 

Quero, de público, agradecer o gentil convite da Fundação Iaripuna para participar do Baile Municipal de Carnaval. Inúmeras razões, no entanto, impedem-me de participar desse certame cultural que traduz um aspecto importante da alma do povo brasileiro. Elencarei, aqui, apenas alguns argumentos que entendo coerentes o suficiente para impedirem-me de participar desse evento momesco. Antes, porém, faz-se necessário trazer à luz, brevemente, a história dos bailes de máscaras.

Os Bailes de Máscaras, também chamados de Bailes à Fantasia ou 'Bals Masqués', foram os eventos precursores do carnaval moderno no Brasil. Importados pela elite carioca para fazerem frente ao conjunto de brincadeiras conhecido como entrudo, os bailes marcaram a adesão da nova burguesia capitalista à folia e a incorporação ao carnaval brasileiro do luxo e sofisticação característicos das festas de Paris e Veneza, como nos informa Felipe Ferreira, em O livro de ouro do carnaval brasileiro.

Combatido – como inúmeras outras manifestações populares –, o entrudo não chegou até nós. São, no entanto, resquícios dessa brincadeira a pipoca do Carnaval Axé e os blocos de sujo, cujo exemplar mais vivo em Porto Velho não ocorre no Carnaval, mas na virada do ano. Refiro-me ao Mistura Fina. E, no passado, o histórico Bloco da Cobra e o Bloco do Valdemar Cachorro, dentre tantos outros igualmente representativos.

No que diz respeito ao alcance popular, ao acesso democrático e ao repertório musical, claramente norteado para valorizar, salvaguardar e perpetuar as marchinhas de carnaval – um verdadeiro patrimônio cultural nacional – temos um conjunto de históricos cordões carnavalescos. Compõem este leque, a Banda do Vai Quem Quer, e os blocos Galo da Meia-Noite, Rio Kaiari, Pirarucu do Madeira, Coruja, Calixto & Cia, dentre outros.

Não é absurda a possibilidade de vermos desaparecer das ruas e avenidas de Porto Velho todo este patrimônio imaterial. Concepções e posturas preconceituosas de alguns setores oficiais, opções pelos eventos elitistas e excludentes e a histórica falta de compromisso dos nossos gestores públicos para com as manifestações populares são, sem dúvida alguma, uma ameaça à continuidade do nosso carnaval de rua.

O evento intitulado "Baile Municipal 2007: Resgatando a Tradição" expõe claramente o formato da nova-velha concepção de política municipal para a cultura. Trata-se, de onde vejo, de uma ação eventualista, festiva, elitista e excludente, considerando que a proposta contempla apenas seleto público. Exclui o agente cultural, o artesão, o figurinista, o serralheiro, o marceneiro, a costureira, o passista, o ritmista e, enfim, todos aqueles e aquelas que constroem - segundo alguns especialistas - a oitava maravilha do mundo moderno: o popular carnaval brasileiro.

Do baile apregoado como instrumento revitalizador de tradições – e é bom sublinhar que nem tudo que é tradicional é democrático –, até onde conheço a proposta, escapam-lhe três palavrinhas mágicas que norteiam qualquer atitude das administrações posicionadas à esquerda dos discursos e das práticas: inclusão, cidadania e democracia. Por estas e outras razões – inclusive porque se acena com a intenção de realizar um outro evento assemelhado, em local aberto para população de baixa renda e excluída do baile oficial, assentando, desta feita, a ação pública na vala do Apartheid sociocultural – não posso e não devo concordar com esse evento. Não defendo e nem acredito nessa ação como política pública eficaz e com possibilidades de consolidação da democracia cultural. Com todo respeito, declino o convite para participar do Baile Municipal. Como de costume, na sexta-feira, marcarei presença nos ensaios das Escolas de Sambas Asfaltão, Armário Grande, São João Batista e nos Blocos Calixto & Cia e Rio Kaiari, cordões carnavalescos populares e democráticos. E, mantendo a prática, farei penúltima escala no Reggae do Bairro JK e, por derradeiro, uma breve passagem no queridíssimo e animado Paposo. Nesse circuito nos encontramos.

(*) O Autor é artista plástico e carnavalesco, foi o 1º presidente da Iaripuna

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