Porto Velho (RO) segunda-feira, 26 de agosto de 2019
×
Gente de Opinião

Opinião

Pão francês para inglês ver


Bruno Peron

Nós brasileiros oramos muito: para que não caia a energia elétrica ou não se inunde nosso bairro, para que a violência diminua nas cidades, e para que o Brasil vença a Copa. Ultimamente temos orado para que o “pão nosso de cada dia” seja um vaticínio realista. Mas frequentemente oramos da boca para fora. Esperamos que não nos tirem o direito básico de nos alimentarmos; maior ainda é nossa expectativa em se tratando de um alimento basilar como o pão. Esta preocupação se deve a riscos de que isto se torne realidade, e também a provas veementes de que tem ocorrido.

O vilão da vez é o pãozinho (também conhecido como pão francês, filão, cacetinho ou pão careca), que sofreu aumento de até 20% em todo país ao longo de 2013. O preço do quilo do pãozinho já passa de R$ 10,00 em muitas localidades brasileiras. Esta elevação de preços é maior que a inflação no período mencionado porque depende de fatores econômicos externos.

Para entendermos um pouco mais o motivo do aumento dos preços do pãozinho, é necessário recordar que os ingredientes básicos deste produto são água, sal, farinha de trigo e fermento biológico. A farinha de trigo constitui mais de 50% da composição do pãozinho. Acontece que produtores de pãozinho no Brasil (padarias, supermercados, etc.) têm recebido as sacas de farinha de trigo com aumento de preço de mais de 20%. No entanto, muitos produtores de pãozinho têm repassado alta menor aos clientes devido ao temor de perdê-los ou de redução no consumo.

Embora o Sul do Brasil cultive trigo, nosso país importa boa parte de sua farinha de trigo da Argentina, Canadá e Estados Unidos. A alta do dólar teve peso forte na mudança de preços porque a farinha de trigo é cotada nesta moeda. Porém, não só a alta do dólar influiu no aumento de preços do pãozinho, que se alteram desde meses antes de a cotação do dólar subir.

As altas dependem de políticas macroeconômicas do país, das relações comerciais internacionais, da cotação de moedas estrangeiras na compra de matérias-primas e do custo do frete. Por isso, a maioria das situações em que há aumento de preços de mercadorias não encontra seu culpado nos estabelecimentos pequenos e médios que querem lucrar mais e assim sobem seus lucros.

Em consequência, todo aumento considerável de preços tende a gerar mudança de hábitos nos consumidores. Muitos compravam quantidades maiores de pãezinhos que as que consumiriam em seu dia-a-dia; com o aumento do preço, muitos destes mesmos consumidores têm comprado os pães na medida certa de seu consumo, sem que sobrem unidades para outras refeições.

A garantia de alimentação básica (arroz, feijão, pão, leite, etc.) dos brasileiros não deve ficar suscetível a oscilações de moedas que não são nossas ou ao capricho de produtores rurais, que plantam aquilo que mais dá dinheiro. Famílias pobres não poderão esperar que o dólar baixe para que o pãozinho continue entrando em casa. Por isso, é preciso maior planejamento e negociação no Brasil para assegurar as necessidades alimentares essenciais dos brasileiros.

Desta forma, sugiro a formulação de mecanismos que garantam o suprimento de matéria-prima para a alimentação básica no Brasil. Para dar um exemplo, o governo poderia incentivar o plantio de trigo e reduzir a dependência de farinha importada cotada em dólar. Enquanto este cenário não se realiza, vemos que áreas vastas de terras férteis são usadas para o cultivo de produtos para exportação, como café e soja. Como alternativa, em vez de consumir pão francês, logo teremos que inventar um pão tailandês ou sueco que use ingredientes baratos e produzidos no Brasil.

Viajantes brasileiros que retornavam da França no início do século XX traziam inspirações para modernizar o país. Uma delas é a de um pão com casca dourada e miolo branco que viram nas padarias francesas. Eles sugeriram esta ideia a padeiros brasileiros, que logo criaram uma versão abrasileirada do pão francês. Embora pães já existissem no Brasil antes da adoção dos pães franceses, a proposta era de que deveria haver um alimento simples e barato que comporia as mesas de café-da-manhã dos brasileiros. Atualmente esta ideia ficou para inglês ver.

Mais Sobre Opinião

A fogueira das vaidades

A fogueira das vaidades

O que até agora era bravata, “não é insulto, é o jeito dele”

O bom do silêncio

O bom do silêncio

Bolsonaro disse que não adianta exigir dele a postura de estadista, por que não é estadista.

Meu cargo, minha vida

Meu cargo, minha vida

Bolsonaro se revelou um profundo conhecedor da natureza humana

Cada quadrado no seu quadrado

Cada quadrado no seu quadrado

Os argentinos são como são. E não querem nem aceitam conselhos.