Quinta-feira, 15 de janeiro de 2026 - 13h13

Iniciamos
2026 com novidades marcantes. A prisão do presidente da Venezuela, Nicolás
Maduro — ditador que fraudou o pleito após obter apenas um terço dos votos —
gerou imediata reação mundial.
Militarmente,
os EUA realizaram operação excepcional ao invadir um bunker vigiado por
militares venezuelanos e cubanos para prender e extraditar Maduro. O ex-ditador
está sendo julgado por crimes que incluem genocídio, assassinato, perseguição a
opositores, fraude eleitoral e corrupção sistêmica.
Sob
a ótica do direito internacional, a invasão de uma nação soberana é
injustificável; contudo, a questão exige uma análise sob dois aspectos.
Primeiramente,
deve-se considerar que a violação do princípio da inadmissibilidade da
aquisição de territórios pela força — consolidado em resoluções da ONU desde
1970 — não é inédita. Precedentes na Europa, no Caribe, no Oriente Médio e na
Ásia demonstram que tal norma tem sido reiteradamente ignorada. O que se
observa, rigorosamente, é que o Direito Internacional carece de mecanismos
coercitivos, evidenciando a incapacidade da ONU em impor a observância de suas
próprias regras.
O
segundo aspecto é que, desde a declaração de guerra do Japão em Pearl Harbor,
não há mais declarações de guerra oficiais.
A
Rússia não se diz em guerra com a Ucrânia, mas age hoje com total autonomia e
faz o que quer. Vimos a presença do presidente brasileiro em Moscou durante o
desfile militar de 9 de maio — uma exibição do poder bélico que tem destruído a
Ucrânia. Ao endossar tacitamente a anexação de 20% da Ucrânia, o governo
brasileiro reafirma uma afinidade diplomática com regimes autoritários,
evidenciando sua preferência por ditaduras como as da Venezuela, Cuba e Rússia.
Em
última análise, as normas da ONU — que aspirávamos ver respeitadas — são
sistematicamente ignoradas pelos países mais fortes, prevalecendo, no cenário
internacional, o “direito à força” sobre a “força do direito”. Foi assim que o
ditador Maduro, acusado de narcotráfico e genocídio, sustentou-se no Poder. Seu
regime encarcerou, perseguiu e vitimou o povo venezuelano, culminando na
audácia de celebrar uma vitória eleitoral inexistente perante uma derrota
evidente. Fato é que estamos diante de um ditador afastado.
Este
panorama evidencia que o projeto da ONU iniciado em 1945 está longe do ideal da
paz mundial que fundamentou sua criação; em vez disso, o que testemunhamos
desde o fim da Segunda Guerra é a perpetuação de guerras e conflitos regionais.
Estamos distantes, portanto, do ideal kantiano da Paz Perpétua.
Permanecemos
em um sistema onde a prevalência do mais forte sobre o mais fraco continua
sendo regra absoluta, apesar das normas internacionais. Nesse cenário, a figura
de Nicolás Maduro se destaca de forma negativa: ele não foi apenas um ditador
que suprimiu liberdades, mas um populista retórico e um líder cujo governo foi
marcado pela corrupção sistêmica.
O
legado de Nicolás Maduro tem o signo da perseguição política e da violência do
Estado, crimes pelos quais ele deverá responder perante a justiça
internacional. As evidências que sustentam as acusações dos Estados Unidos são
bastante robustas.
Enquanto
isso, o Brasil está longe de ser exemplar. Atualmente, o País atravessa um
período difícil na relação entre os Três Poderes. No campo econômico, o cenário
é de alerta máximo, com as contas públicas e finanças em estado crítico.
Enfrentamos um déficit público crescente e uma trajetória de endividamento
preocupante.
Continuamos
gastando e aumentando a tributação e, neste ano de 2026, todos vão sentir. O
resultado dessa gastança é o aumento da dívida pública e dos tributos e, ao
mesmo tempo, a manutenção de juros elevados para que a inflação não volte.
Temos
o Congresso Nacional — o Poder mais forte da República por
representar o povo e ser o único capaz de julgar tanto o Presidente quanto os
Ministros do Supremo — que, infelizmente, está utilizando um volume
inacreditável de emendas no interesse individual (em causa própria dos parlamentares),
e não do Brasil e dos brasileiros.
Embora
o Executivo afirme que o desemprego caiu no Brasil, o jornalista Alexandre
Garcia pondera que a permanência de sete milhões de famílias no Bolsa Família
há uma década indica uma estagnação na busca por emprego.
Ora,
o desemprego é medido pelo número de pessoas que estão procurando ocupação,
algo que quem recebe o Bolsa Família e está garantido pelo programa, em geral,
não faz. Portanto, não se trata de uma queda real no desemprego, mas sim de
pessoas que são sustentadas por aqueles que trabalham e pagam tributos.
Temos
até, como vimos nos jornais, aqueles que utilizam o Bolsa Família para apostar
em bets. Pagamos para que eles joguem nessas plataformas.
Não
que eu seja contra o Programa Bolsa Família, mas deveria haver um controle para
evitar que, durante dez anos, sete milhões de pessoas — segundo Alexandre
Garcia — recebam o benefício sem procurar emprego, obviamente.
Como
têm mostrado os editoriais dos grandes jornais do País, há uma falência
completa das contas públicas brasileiras. Há quem aponte o fim melancólico do
ministro Fernando Haddad por não ter conseguido implementar o arcabouço fiscal
que, de fato, nunca foi efetivado.
Infelizmente,
até mesmo no Judiciário — onde sempre atuei — advogados ilustres de Brasília,
que sempre defenderam clientes importantes, são preteridos por aqueles que
possuem algum grau de parentesco com Ministros, retirando, assim, o trabalho
dos advogados comuns, de acordo com os próprios patronos que militam na capital
federal.
Na
verdade, vivemos hoje um desequilíbrio entre os Poderes: temos um Legislativo
amorfo; um Executivo que gasta o que não tem e além do que arrecada e,
possivelmente, manterá essa trajetória; um Banco Central que tenta, a todo
custo, conter a inflação; e um Judiciário que, como demonstram as pesquisas,
perdeu a credibilidade de outrora.
Vale
destacar que essa situação pela qual passa o Supremo, contrasta drasticamente
com as épocas de Ministros como Moreira Alves, Oscar Corrêa, Sydney Sanches,
Cordeiro Guerra, Ilmar Galvão, Luiz Gallotti e outros magistrados que fizeram a
história do Supremo Tribunal Federal. Eram homens que, ao caminharem pelas
ruas, impunham tal respeito que as pessoas diziam com reverência: “Lá vai um
Ministro do Supremo”.
Hoje,
os ministros do Supremo têm que sair com segurança, pois são injuriados em
lugares públicos. Sempre os admirei e continuo admirando pelos juristas que
são. Contudo, confesso que permaneço divergindo profundamente da forma como o
Tribunal tem interpretado a Constituição e se posicionado no cenário atual.
Quando
meu filho, Ives Gandra da Silva Martins Filho, foi indicado para Ministro do
Tribunal Superior do Trabalho, não aceitei mais questões trabalhistas no
escritório. A única vez em que dei um parecer trabalhista após sua posse no
TST, só o fiz porque a questão já não tramitava mais naquela Corte, mas sim no
Supremo Tribunal Federal. Assim, não havia o risco de meu filho sofrer o
constrangimento de ter que decidir uma questão em que seu pai era o advogado.
Esse é um dos velhos costumes que mantenho ao longo de mais de 60 anos de
advocacia.
É
por essa razão que, neste início de ano, o que eu gostaria é que todos os
Poderes voltassem a ser o que eram no passado: o Legislativo, legislando e
defendendo sua competência; o Executivo, sendo o administrador zeloso das
contas públicas; e o Judiciário, mantendo-se como aquele poder imparcial, capaz
de dar estabilidade à nação diante de ataques às instituições. Todos eles
deveriam retornar à essência do que foram as funções Legislativa, Judiciária e
Executiva na época em que iniciei minha trajetória na advocacia (1957).
Ives
Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades
Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de
Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da
Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das
Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis
(Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova
(Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal),
presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da
Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo
(Iasp).
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