Quarta-feira, 22 de janeiro de 2014 - 15h10
João Baptista Herkenhoff
Pela primeira vez no curso de minha existência, vivi por uma noite a situação de flagelado. Foi uma experiência que me impõe um salto existencial.
Eu voltava de Vitória, onde acompanhei minha mulher para uma consulta médica, e me dirigia a nossa residência na Praia da Costa. No meio do caminho caiu o temporal que deixou milhares de famílias capixabas ao desabrigo.
Quando estávamos diante da alça, cuja transposição nos levaria bem próximo do edifício onde moramos, o táxi que nos conduzia percebeu que não seria possível seguir adiante. O carro ficaria afogado na água, se tentasse vencer a correnteza. Também já estava totalmente interrompida a passagem pela Rua Hugo Musso, a segunda alternativa possível. O taxista subiu até o topo do Morro do Marinho, onde estaríamos a salvo das águas. Disse que deixaria o carro estacionado ali e seguiria a pé para sua casa, no meio da lama. Deixou-nos a ver navios, como se diz na linguagem popular. Eu me vi na situação de flagelado: ao relento, sem ter onde reclinar a cabeça. Pensei nos milhares, em situação infinitamente pior: não num desabrigo eventual, que podia ser contornado com um pouco de paciência, mas num desabrigo total. Meu filho, residente na Praia do Canto, disse que iria a nosso encalço. Nós lhe pedimos que não se lançasse a tão temerária jornada, uma vez que não poderia transpor a correnteza.
Quando estávamos aparentemente entregues a nossa própria sorte, eis que se aproxima um casal que não conhecíamos e também não nos conhecia: Miguel Motta Neto e Valquíria Motta. Esse casal nos convidou para que nos dirigíssemos à casa deles, que ficava ali bem perto. Fomos então recebidos por Dona Mara, Mãe do Miguel, e ficamos conhecendo o filhinho do casal – Gabriel, que tem a mesma idade de nossa netinha Lis. Dona Mara nos ofereceu um café com broas feitas em casa.
Estávamos a projetar como seria nossa ida em direção ao edifício onde moramos, na Avenida Antônio Gil Veloso. Seria preciso esperar que o nível das águas baixasse. Foi aí que Miguel e Valquíria atalharam nosso pensamento: não iríamos para nossa residência, dormiríamos na casa deles.
Felizes sob a proteção daquele lar, antevimos que o assoalho de madeira seria mais confortável que o leito que nos fosse oferecido num castelo.
E eis que Valquíria, Miguel e Dona Mara nos propõem um absurdo: eles todos se ajeitariam no chão e nós dormiríamos na confortável cama do quarto do casal. Tentamos sem êxito dizer não.
E a noite que supúnhamos seria de flagelado tornou-se uma celebração de Fraternidade. O salto existencial que mencionei no início deste artigo consiste no desafio de tentarmos ser para outros tão irmãos quanto foram para nós Miguel, Valquíria e Dona Mara.
João Baptista Herkenhoff é Juiz de Direito aposentado (ES), professor e escritor. E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br / CV Lattes: http://lattes.cnpq.br/2197242784380520
Quarta-feira, 7 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
A Realidade Cínica do Sistema Internacional
DIREITO INTERNACIONAL: UM ESPAÇO DE CONTESTAÇÃO JURÍDICA DESIGUALPara nos debatermos sobre o Direito Internacional é preciso muito sangue frio, po

De maduro ao apodrecimento no cárcere
Viva a democracia! A população sofrida, humilhada e explorada da Venezuela pode respirar aliviada. Os mais de 8 mil venezuelanos que abandonaram seu

Professora aposentada, com larga tradição no universo educacional de Rondônia, Úrsula Depeiza Maloney ocupou diversos cargos públicos, todos na área

Deus deu ao homem atributos que o colocam em um patamar infinitamente superior aos outros animais. Só o homem supera os limites do instinto e pode m
Quarta-feira, 7 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)