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Carta-Aberta aos candidatos à Presidência da República portuguesa


António da Cunha Duarte Justo - Gente de Opinião
António da Cunha Duarte Justo

Aos onze Candidatos que aspiram representar a Nação:

Escrevo esta carta não apenas em meu nome, mas na qualidade de porta-voz de milhões de portugueses cujas vozes raramente ecoam nos corredores do poder. Dirijo-me a vós com a esperança de quem ainda acredita que a democracia pode ser mais do que um exercício formal, e que os governantes podem verdadeiramente servir o seu povo.

Quando Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente, escrevi-lhe expondo estas mesmas preocupações. A carta ficou sem resposta, como tantas outras vozes que se erguem e se perdem no vazio. Dirijo-me agora a vós, candidatos, com a esperança de que pelo menos um demonstre que a democracia portuguesa ainda ouve o seu povo. Respondei a estas questões. Mostrai que sois diferentes.

Há questões fundamentais que exigem respostas claras e compromissos firmes. Não peço promessas vazias, mas coragem política para enfrentar aquilo que durante décadas tem permanecido intocável por conveniência ou cobardia.

A Questão Constitucional que ninguém ousa discutir

Quem entre vós se atreve a propor a eliminação do preâmbulo da Constituição da passagem que aponta como objetivo do Estado o "rumo ao socialismo"?

Esta não é uma questão meramente técnica ou simbólica. Numa democracia verdadeiramente plural, o Estado não pode estar constitucionalmente comprometido com uma única ideologia política. Este anacronismo, herdado de um momento revolucionário específico da nossa história, colide frontalmente com o princípio da neutralidade do Estado e com a liberdade política que deve caracterizar uma sociedade democrática.

Durante décadas, todos os partidos do chamado "arco do poder" mantiveram um silêncio cúmplice sobre esta anomalia. Porquê? Que interesses se escondem por detrás desta recusa em abrir o debate? Uma Constituição deve unir todos os portugueses, não consagrar a visão de mundo de apenas uma parte deles.

A nossa história recente foi quase toda narrada a partir de um único enquadramento ideológico, que impôs limites ao pensamento e ao debate público. Exijo, em nome dos portugueses que desejam uma democracia madura, que este tema seja finalmente discutido sem tabus e sem chantagens morais.

O Povo esquecido

Enquanto nos pedem que sigamos, sem discussão interna, as decisões das potências europeias e os seus interesses geopolíticos e económicos, incluindo o financiamento de conflitos distantes, o povo português sofre em silêncio:

- 1,4 milhões de reformados sobrevivem com pensões iguais ou inferiores a 500 euros mensais. São pessoas que trabalharam uma vida inteira, que construíram este país, e que agora são abandonadas à miséria e à indignidade.

- 14.476 portugueses vivem nas ruas ou em condições precárias, entre os quais 1.686 casais sem teto e 263 famílias sem casa. Estas não são estatísticas abstratas. São seres humanos, compatriotas nossos, que perderam tudo enquanto os recursos da nação são desviados para prioridades alheias ao bem-estar do povo.

Como é possível que um Estado que se proclama social permita tamanha injustiça? Como podemos falar de solidariedade europeia quando não somos capazes de cuidar dos nossos próprios cidadãos?

A pergunta que exige resposta

Quem entre vós se compromete, como tarefa principal, a defender o bem comum e a felicidade do povo português?

Quem terá a coragem de dizer "basta" à subserviência automática perante interesses que não são os nossos? Quem colocará as necessidades concretas dos portugueses acima dos jogos de poder internacional?

Não vos peço que sejais inimigos da Europa ou do mundo. Peço apenas que sejais, antes de tudo, defensores de Portugal e dos portugueses. Que tenhais a dignidade de afirmar que, antes de contribuir para guerras ou para os orçamentos de burocracias distantes, temos a obrigação moral de garantir que nenhum idoso morre de frio ou de fome, que nenhuma família dorme na rua, que nenhum trabalhador é condenado à pobreza depois de uma vida de esforço.

Um apelo à coragem

Esta carta é um desafio. Um desafio para que pelo menos um de vós se erga acima do conformismo político e diga as verdades que outros calam. Para que alguém tenha a honestidade de reconhecer que a nossa democracia tem limites artificiais que precisam de ser ultrapassados.

O povo português merece governantes que o respeitem, que o ouçam, que defendam os seus interesses com a mesma determinação com que defendem os interesses de Bruxelas ou de Washington. Merece líderes que não tenham medo de abrir debates incómodos, de questionar consensos falsos, de colocar a justiça social acima da conveniência partidária.

Pergunto-vos, candidatos (1): tereis essa coragem?

Ou continuaremos a assistir ao espetáculo de campanhas vazias, repletas de sorrisos e promessas, mas desprovidas da substância e da ousadia necessárias para transformar verdadeiramente a vida dos portugueses?

O país espera. O povo aguarda. E a história julgará não apenas as vossas palavras, mas sobretudo o vosso silêncio.

António da Cunha Duarte Justo
Cidadão português, jornalista e defensor de uma democracia mais justa e verdadeira

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10618

 

ASTRONOMIA ELEITORAL DA DIÁSPORA

Não é de novos astros e programas
que precisa a astronomia política da emigração,
mas da antiga gravidade da vergonha
e do peso terrestre, da responsabilidade.

O emigrante não olha o céu por ingenuidade.
Olha por saudade.
E a saudade, como se sabe,
é um telescópio defeituoso:
aproxima o passado
e desfoca o presente.

De quatro em quatro anos,
o céu da emigração enche-se de sinais.
Não são estrelas,
são políticos em combustão emocional,

treinados para cintilar
com brilho alugado
no tempo necessário de promessas recicladas
para acordar a nostalgia
e adormecer a razão.

Chegam carregados de pátria portátil:
um hino dobrado no bolso,
um discurso com cheiro a infância
e um sorriso calibrado
para quem ainda diz “lá na terra”
como se o tempo não tivesse também emigrado.

Entram nas associações
com a perícia de quem conhece o público:
falam de sacrifício
a quem sacrificou a vida inteira,
falam de futuro
a quem vive suspenso do passado,
e falam de respeito
com a ligeireza de quem parte
antes que a palavra pese.

Escoltados ao restaurante antigo:
sabem onde fica a mesa,
quem paga o vinho
e quem ainda acredita no brinde.
Sorriem com dentes de campanha,
riem alto,
o riso é a única obra concluída.

O emigrante escuta.
Não por crença,
por educação emocional.
A saudade ensina a ouvir,
a não interromper,
a sorrir mesmo quando dói.
É aí que a caça ao voto se torna arte:
não pescam ideias,
pescam emoções antigas.

Passadas as eleições,
o céu volta ao normal.
O poder recolhe-se ao cais,
fecha o casaco,
descansa.
A maré baixa
e deixa à vista
as mesmas pedras,
os mesmos atrasos,
a mesma ausência de obras
que não cabem em discursos.

Vira o disco.
Toca o mesmo,
agora sem música.

Há activistas de posto fixo,
sentinelas da esperança alheia,
que lançam cravos ao vento
como se o povo não tivesse jardim
ou como se o vento votasse.
Vivem no luar do partido,
distribuindo palavras
que nunca conheceram o sol.

Há as vozes permanentes,
astronautas de partido,
que orbitam a diáspora
falam de liberdade, democracia
como se fosse propriedade ideológica.
Nos seus media falam da emigração
com a convicção paternal
de quem acha que o povo
precisa sempre de ser lembrado
do que deve sentir.

Vivem da lua partidária,
onde nunca é noite e nunca é dia.
Confundem lealdade com repetição
e chamam consciência política ao eco.

No céu da diáspora
não há constelações:

há meteoros emocionais,
de fogo curto
bons para pedidos rápidos,
e meteoritos antigos,
que ficam a fazer fumo no ar
com a arte antiga do maldizer
para esconder o vazio.

O emigrante apresenta desejos.
Não porque acredite,
mas porque a saudade insiste.
Pede em português antigo,
com verbos no passado
e esperança no condicional.
Não vê que a luz é emprestada
nem que o fogo é curto:
a emoção chegou primeiro.

Dizem que são sinais divinos,
mensagens dos deuses eleitorais.
Mas são deuses preguiçosos, fruto do voto facilitado
que exigem longas peregrinações para votar
e oferecem, em troca,
o direito de continuar esquecido.
Se respeitassem a diáspora,
já teriam encurtado a distância
entre o gesto e a urna.

Pescam votos no mar da saudade,
não no da razão.
E como a rede da mudança
volta sempre vazia,
culpam o povo por não acreditar
no milagre repetido.

Esquecem que o povo,
cansado de rezar a estrelas,
prefere ficar em terra,
a ver passar o fogo-de-artifício
da legislatura.

Em quarenta anos no meio,
aprendi a astronomia real:
as estrelas passam,
o migrante fica.
E o emigrante também nota:
a astronomia difícil:
o passado não volta,
a saudade não governa
e estrelas cadentes
não constroem presente.

Enquanto a política continuar
a explorar a emoção
em vez de respeitar a experiência,
o céu da emigração
continuará cheio de brilho inútil.
Cabe ao emigrante,
rico em inteligência emocional,
usar essa mesma saudade
não como âncora,
mas como memória crítica.

Porque quem viveu longe
já aprendeu o essencial:
nem toda a luz guia,
nem todo o sorriso aquece,
e nem toda a estrela
merece desejo.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10612

 

 

USO DA SEMÂNTICA NA MOLDAGEM DA PERCEPÇÃO PÚBLICA

 

“Património especial” ("Sondervermögen") é o eufemismo político usado para a dívida pública na Alemanha

 

O júri de especialistas da Sociedade da Língua Alemã de Marburgo escolheu o termo «Sondervermögen» (Riqueza Especial) como a "palavra tabu" do ano de 2025. A escolha, que visa destacar vocábulos considerados impróprios ou enganadores, recaiu sobre a designação usada pelo governo para a nova dívida do Estado...

O valor, que ascende a mais de 500 mil milhões de euros para financiar tarefas específicas como a modernização das Forças Armadas ou a transformação energética, contrasta com os 15 mil milhões anuais anteriormente permitidos por lei...

A sentença do júri funciona como um espelho crítico perante a classe política. A escolha da "palavra tabu" alerta para o uso de uma linguagem cada vez mais refinada e eufemística nos corredores do poder, que, ao suavizar conceitos sensíveis, dificulta a averiguação pública e o debate transparente sobre temas que os governantes desejam encobrir...

Já o chanceler Schulz tinha classificado os 100 mil milhões de euros destinados às Forças Armadas como «património especial».

Trata-se de uma forma de embotar o povo; é pena que a lei não tenha efeito em casos de manipulação governamental. As palavras precedem os actos!

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10629

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