Terça-feira, 13 de janeiro de 2026 - 12h11

Substituição de soberanias em
favor dos contraentes geopolíticos USA e União Soviética
O debate público e historiográfico tende a enquadrar o regime de Salazar
quase exclusivamente numa oposição binária entre “fascismo” e “democracia” ...
Ao reduzir o salazarismo a uma etiqueta ideológica, perde-se a
possibilidade de o analisar na sua totalidade histórica...
O efeito mais duradouro e, em certo sentido, mais trágico para a
sociedade portuguesa foi o facto de a rivalidade entre o imperialismo americano
e o imperialismo soviético ter sido internalizada no discurso político nacional
após o 25 de Abril de 1974...
Assim Portugal foi condicionado nas últimas cinco décadas a uma cultura
política ideológica enviesada e intolerante com a consequente perda de uma via
própria e de uma desejável maturidade na análise política...
O povo português libertou-se de um regime autoritário, mas não se
libertou das lógicas ideológicas imperiais que continuaram a moldar o discurso
político interno, apenas sob novas cores conotadas agora por um autoritarismo
moralista e ideológico.
A metáfora do cravo é elucidativa: ao identificar a liberdade
exclusivamente com o cravo vermelho (símbolo de ideais revolucionários), não
reconheceu a riqueza multicolor da liberdade, feita de diversidade de
interpretações, de memória crítica e de caminhos alternativos que não se
esgotam numa única narrativa vencedora.
O texto de Rui Ramos (1) que me motivou a fazer esta análise, tem o
mérito de desmontar a redução simplista do Estado Novo a um “fascismo
português” ...
No entanto, essa leitura permanece essencialmente interna ao espaço
ideológico europeu, deixando em segundo plano um factor decisivo: a questão
imperial e a posição estratégica de Portugal num mundo em recomposição.
O Império como chave de
leitura central
Para Salazar, o império não foi um adorno ideológico nem um resíduo do
passado, mas o fundamento material da soberania portuguesa. Num contexto em que
as grandes potências emergentes, Estados Unidos e União Soviética, estruturavam
a ordem mundial em torno de esferas de influência, Portugal surgia como uma
anomalia: um pequeno país europeu com uma presença territorial
transcontinental, estrategicamente localizada em África, no Atlântico e no
Índico, o que impedia por si uma distribuição do território na política de
confrontação entre os dois polos geopolíticos.
A resistência de Salazar à descolonização não pode ser compreendida
apenas como conservadorismo ou cegueira ideológica, como apregoam ideologias
partidárias. Ela inscreve-se numa percepção, discutível (vista da perspectiva
geopolítica de hoje talvez profética), mas coerente, de que o fim do império
português não conduziria à autodeterminação real dos povos coloniais, mas antes
à substituição de uma soberania fraca por dependências fortes, fossem elas soviéticas
ou norte-americanas...
Neste sentido, o salazarismo revela-se menos como um regime ideológico
fechado e mais como uma estratégia defensiva de sobrevivência estatal, ancorada
numa leitura profundamente desconfiada da ordem internacional emergente. Por
isso embora Portugal tenha feito parte dos países fundadores da NATO, Salazar
não se sentia bem com os parceiros porque como estadista sabia os interesses
que os movia.
Autoritarismo como
instrumento, não como fim
O autoritarismo salazarista foi, assim, minimalista e defensivo,
orientado para a contenção da instabilidade social, da politização excessiva,
da ingerência externa (União Soviética e USA) mais do que para a transformação
revolucionária da sociedade. Não procurou criar um “homem novo”, nem um Estado
total, mas antes congelar a história num ponto considerado seguro...
A Neutralidade estratégica e o
jogo duplo das potências
Salazar cooperou com os Aliados sem se submeter politicamente a eles,
acolheu refugiados sem abrir o sistema, cedeu bases nos Açores sem abdicar do
império. A mesma inteligência política faz falta em Bruxelas nos dias de hoje.
Hoje, na EU, temos administradores políticos e aplicadores de diretrizes e
agendas globais a que falta legitimação democrática, mas não temos estadistas nem
personalidades relevantes (mas disto falarão os nossos vindouros)!...
Após 1945, as mesmas potências que haviam tolerado e em certos momentos
valorizado, a estabilidade autoritária portuguesa passaram a pressionar a
descolonização. Esta viragem não foi motivada por um súbito despertar moral,
mas por uma reconfiguração de interesses imperiais, agora exercidos sob formas
económicas, militares e culturais mais sofisticadas.
Convém também notar que a Noruega possuidora da colónia
Gronelândia foi na altura contra Portugal e o discurso actual em torno da
Gronelândia mostra como o exemplo permanece válido na medida em que o discurso
anticolonial foi frequentemente seletivo e instrumental.
Para uma leitura não
maniqueísta da História
O erro mais persistente nas discussões contemporâneas sobre o
salazarismo não é a crítica moral ao regime, legítima e necessária (como o
seria também ao de hoje), mas a confusão entre julgamento ético e compreensão
histórica...
A História mostra-nos que o século XX não foi determinado pela vitória
da democracia liberal sobre regimes “malignos”, mas por uma competição contínua
entre impérios, em que ideologias funcionaram como linguagem legitimadora de
interesses estratégicos mais profundos.
Nesse quadro, o salazarismo aparece menos como uma aberração fascista e
mais como uma tentativa conservadora, autoritária e defensiva de resistir à
absorção imperial num mundo bipolar...
Talvez o verdadeiro desafio historiográfico do nosso tempo seja este:
libertar a análise do passado das polarizações do presente e dos interesses
ideológicos de esquerda e direita...
A leitura categorial do autoritarismo estatal conservador tem sido feita
e interpretada em favor do autoritarismo moral socialista.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Texto completo e nota em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10610
A TRIBALIZAÇÃO CONTEMPORÂNEA E
A PERDA DA IDENTIDADE PESSOAL
Será possível uma matriz de
orientação onde alguém poderá falar ao humano na qualidade de humano sem o
reduzir a função, massa ou rebanho?
Na continuação do que escrevi no artigo DA GEOPOLÍTICA À METAFÍSICA DO
PODER não estamos apenas perante uma regressão histórica, mas perante uma
mutação antropológica regressiva.
A tribalização do nosso tempo não guarda a essência da tribo arcaica. É
fenómeno mais grave ainda, a ponto de consciências atentas e sensíveis se
sentirem como viajantes numa estação cultural derradeira. Esta nova agregação
tribal carece de cosmologia integrada, não brota da observação paciente do
mundo natural, chegando, em seu desvio, a negá-lo, como atesta a sua marcante
ausência de feminilidade. E, sobretudo, é estéril: não gera a seiva profunda da
sabedoria simbólica...
A sociedade tribal que estamos a forjar não é feita de clãs orgânicos,
mas de arquipélagos funcionais, artificiais, regidos por algoritmos frios.
Tome-se como exemplo certas expressões do fenómeno woke: erguem uma identidade
que é pura superfície, sem interioridade colectiva autêntica. É uma militância
sem comunhão, uma bandeira sem transcendência, uma tribo de código
reducionista, não de sangue, terra ou mito.
Os indivíduos ganham visibilidade em grupos, mas perdem a sua ipseidade
(1) e isto é decisivo. Sem singularidade e essência individual própria não há
responsabilidade, não há consciência moral e não há liberdade verdadeira... E
quando este eixo se perde, regressamos não à tribo natural, mas à horda administrada.
Modernidades múltiplas de pluralidade sem fundamento
A ideia de “modernidades múltiplas ou de interculturalismos” poderia ser
fecunda se assentasse numa verdade comum (Logos), isto é, numa referência à
natureza, e à tradição, numa ética do real e numa conceção do humano como
medida (à imagem do protótipo Jesus Cristo).
Em vez disto observamos pluralidade sem verdade, diversidade sem
critério e diferença sem orientação...
O verdadeiro “choque” não é entre civilizações, mas entre visões do
humano como ser-com-sentido versus entidade moldável...
O papel do poder expressa-se em decompor para governar
A decomposição em via especialmente na civilização ocidental não é
ingénua ao ser mais agressiva no ocidente...
O poder contemporâneo fomenta fragmentação, grupos reativos e
espiritualidades neutralizadas, pervertendo o espiritual como pedagogia de
submissão em vez de libertação.... Aqui entra a perversão do espiritual como
pedagogia de submissão: não para libertar, mas para pacificar.
A questão decisiva: a Igreja católica percebeu o tempo?
É uma questão séria, mas justa: parece que o catolicismo não está a
compreender o momento histórico que realmente está a acontecer, ao tratar a
crise apenas como uma questão social. Historicamente, a Igreja foi a primeira instituição
verdadeiramente global; foi a primeira a afirmar a dignidade universal da
pessoa e foi a primeira a colocar limites éticos ao poder.
Hoje a Igreja católica vive uma tensão interna profunda que se poderia
explicar com o seu desvio excessivamente pedagógico (oportuno para a época de
civilizar os povos bárbaros na europa) mas com a negligência da missão mística
e ontológica...
A sua missão mais profunda não é ensinar comportamentos, mas defender a
estrutura do ser humano enquanto lugar de integração do divino (naturalmente
sem perder de vista os biótopos culturais em que está inserida).
Quando a Igreja abdica de falar do ser e se limita ao agir, não responde
aos sinais dos tempos que sopram especialmente na Europa e apontam para uma
espiritualidade de caracter mais mística. O ponto chave da missão hodierna será
complementar o ser com o estar...
O ser humano é fim em si em estado processual. Não é um fim fechado, mas
um ser em caminho, aberto à divinização...
Pode o catolicismo oferecer uma matriz globalizante alternativa?
Sim, em potência tem tudo o que é preciso desde que não seja teocrática
como é o caso do islão, mas que acentue a ralação humano-divina como se
encontra expressa no protótipo Jesus Cristo. Não deve ser moralista nem
disciplinadora. A nova era exige dela que acentue mais o aspecto antropológico
e ontológico na perspectiva espiritual...
O risco e a oportunidade
A oportunidade da Igreja neste tempo histórico é ser a última garante da
consciência humana num mundo funcionalizado...
Conclusão
Tratar-se-ia de uma transfiguração do papel do catolicismo, menos gestor
de moral, menos pedagogo social, mais guardião do humano como lugar do divino
num confronto entre antropologia cristã e antropologia tecnopolítica.
António da Cunha Duarte Justo
Teólogo e Pedagogo social
Artigo completo em Pegadas do Tempo ©
CANTO DA GERAÇÃO AUSENTE
Cantemos.
Não por glória,
mas por justiça.
Cantemos os que partiram
com a mala pequena
e o coração excessivo.
Os que deixaram a terra
não por desprezo,
mas porque a terra já não os segurava.
Cantemos a geração empurrada
para fora do mapa,
como se o futuro tivesse fronteiras
e o pão escolhesse passaporte.
Partimos.
Partimos jovens,
com diplomas inúteis e mãos dispostas,
com a voz ainda cheia de aldeia,
com a esperança ferida, mas viva.
Partimos porque ficar
era morrer devagar.
E no estrangeiro
fomos pedra,
fomos braço,
fomos silêncio.
Erguemos casas onde não dormimos,
pontes que não atravessámos,
riquezas que não nos pertenceram.
Aprendemos outras línguas
sem nunca perder a nossa dor.
Cantemos os que aceitaram ser “estrangeiros”
todos os dias,
mesmo quando pagavam impostos,
mesmo quando salvavam economias,
mesmo quando faziam funcionar
o que outros não quiseram fazer.
E enquanto o corpo trabalhava fora,
o coração ficava.
Ficava nas mães envelhecidas,
nos pais que esperavam chamadas,
nos filhos criados por fotografias.
Ficava no país que ardia no verão
e chorava no inverno.
E todos os meses,
como um ritual antigo,
enviávamos dinheiro.
Não como gesto de riqueza,
mas como prova de pertença.
Remessas de sacrifício.
Notas manchadas de saudade.
Economia sustentada
por ausentes.
Cantemos agora a ingratidão.
A palavra fria.
O olhar que desconfia.
A frase que fere:
“Vocês já não estão cá.”
Como se a distância apagasse o sangue.
Como se o exílio anulasse a cidadania.
Como se duas semanas de regresso
fossem turismo
e não sobrevivência da alma.
Cantemos a ferida maior:
quando o país que não nos segurou
nos quer agora calados.
Quer-nos úteis,
mas não participantes.
Quer-nos remetentes,
mas não votantes.
Quer-nos portugueses só até ao limite
do incómodo.
Mas nós respondemos,
em uníssono,
em português:
Não deixámos de sofrer.
Não deixámos de pensar.
Não deixámos de pertencer.
Chorámos incêndios à distância
como quem perde a casa duas vezes.
Vivemos crises como quem observa
o próprio coração a ser governado
sem voz.
Somos a geração sacrificada.
A que pagou o preço da permanência alheia.
A que saiu para que outros ficassem.
A que envelhece entre países
sem nunca deixar de ser inteira.
Cantemos, então,
não como lamento estéril,
mas como memória viva.
Porque um país que esquece os seus emigrantes
não perde população,
perde consciência.
E nós, dispersos pelo mundo,
continuamos a cantar.
Com voz firme.
Com dignidade intacta.
Com Portugal inteiro
dentro do peito.
António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=10600
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