Quarta-feira, 4 de março de 2026 - 11h35

“Aquele
que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante,
mas
aquele que a conhece é diz que é mentira, é um criminoso”
Bertolt
Brecht (dramaturgo, poeta e encenador alemão)
Criada em 2015, outro componente
da “cesta tarifária” são as bandeiras tarifárias, consideradas pela Aneel um
mecanismo que informa mensalmente aos consumidores, o custo real da geração de
energia elétrica, em função da fonte utilizada: hidráulicas ou termelétricas a
combustíveis fósseis, as mais caras e poluentes. As termelétricas fósseis são
acionadas quando os reservatórios das hidrelétricas estão baixos. As variações
no custo de geração acabam impactando o valor pago na conta. A aplicação das
bandeiras tarifárias é avaliada (ou deveria ser) com base no nível dos
reservatórios e das previsões de chuvas, divulgado mensalmente pelo Operador
Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Não deixa de ser um mecanismo
arrecadatório, que antecipa cobranças de custos de geração, acarretando receita
mais rápida para as empresas do setor elétrico (distribuidoras e geradoras).
Situação ocorrida durante 2025
mostrou claramente o uso das bandeiras para uma arrecadação extra para as
distribuidoras, alimentando assim o ecossistema “capitalismo sem risco”. Por
decisões erradas, equivocadas, injustificadas, o setor privado foi favorecido.
Neste ano, a bandeira tarifária vermelha foi acionada por 7 meses, indicando o
uso de fontes de energia de origem fóssil (carvão mineral, derivados de
petróleo e gás natural), mais cara. Todavia, diante de uma hidrologia mediana e
níveis de reservatórios variando aproximadamente entre 40% a 70%, não se justificou
a decisão de acionar as bandeiras, e assim elevar custos, pressionar as
tarifas, gerar inflação, impactando toda economia. Além de aumentar as emissões
de gases de efeito estufa, afetando o clima.
Com o vencimento dos contratos se
aproximando do término, o governo federal por meio do Decreto nº 12.068/2024,
estabeleceu a possível renovação antecipada. Assim novas diretrizes foram
estabelecidas para a renovação das concessões, com metas de desempenho mais
favoráveis ao consumidor, segundo o MME. Ao menos 20 distribuidoras de energia,
com contratos vencendo no período 2025-2031, poderão ter seus contratos
prorrogados por mais 30 anos.
Conforme declarações oficiais as
novas regras adotadas nos contratos foram modernizadas (?) a fim de garantir um
serviço mais alinhado às necessidades da população e do Brasil”. Estas regras
atingiram investimentos, digitalização e melhoria de serviços, prometendo maior
rigor após falhas, com o índice Aneel de Satisfação do Consumidor (IASC)
tornando indicador oficial que deverá influenciar nas decisões de aumento das
tarifas. Entretanto, ao longo dos 25 anos de contratos, a confiabilidade
dos indicadores de qualidade, deixou um rastro de suspeição, gerando desconfiança
sobre a integridade e imparcialidade dos índices.
A promessa é que nos novos
contratos, caso as empresas não cumpram as regras, estarão sujeitas a
penalidades mais severas. Lembrando que as concessões são federais e devem ser
fiscalizadas pelo MME, pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e suas
parceiras nos estados, as agências reguladoras estaduais.
Todavia, com a renovação dos
contratos mesmo com mudanças pontuais das condições regulatórios e contratuais,
o custo da energia tenderá a permanecer elevado ou aumentar ainda mais. Segundo
estudos mais recentes as contas de luz dos consumidores brasileiros devem
registrar em 2026, um reajuste médio duas vezes superior à inflação projetada
para o período. A previsão de aumento médio das tarifas de energia elétrica é
de 7,64%, enquanto a inflação projetada pelo mercado financeiro de 3,99%
(Boletim Focus). Para algumas distribuidoras as previsões é que o reajuste
ultrapasse o triplo da inflação, sendo as maiores elevações previstas para: Neoenergia
Pernambuco (13,12%), CPFL Paulista (12,50%) e Enel Ceará (10,66%).
Com os novos contratos de
renovação utilizando o IPCA nos reajustes, pouco contribuirá para a situação de
altas tarifas. Contraditoriamente ao discurso da modicidade tarifária, o
governo federal, o Congresso Nacional tem adotado políticas para favorecer
fontes de geração mais caras, sujas e perigosas, como as termelétricas a
combustíveis fósseis (carvão mineral, gás natural), e a geração nuclear, cujo
custo da energia pode chegar de 4 a 6 vezes superior à geração com fontes
renováveis (Sol e ventos). Tais escolhas contribuem para o aumento das contas
de luz.
O aumento constante da energia
elétrica impacta não apenas o consumidor final residencial, mas também o setor
produtivo, suas cadeias produtivas aumentando assim o custo dos produtos e
serviços (efeito cascata), significando uma grande influência no processo
inflacionário. Pode-se afirmar que desde a privatização, as tarifas de energia
tiveram um papel importante na inflação do país, além de provocar uma grande
transferência de renda para as grandes corporações.
Ao repensar o processo de
privatização e seus resultados, e colocar o interesse público em primeiro
lugar, chega-se à conclusão que é urgente a estatização do setor elétrico,
iniciando pela distribuição. Nada custaria aos cofres do tesouro nacional, pois
os contratos estariam finalizados, e não haveria nem prorrogação, nem nova
licitação.
____________________
* Professor associado aposentado da Universidade
Federal de Pernambuco, graduado em Física pela Universidade Estadual de
Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na
Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na
Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de Cadarache/Comissariado de
Energia Atômica (CEA)-França.
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