Sexta-feira, 23 de janeiro de 2026 - 10h30

O setor nuclear brasileiro tem em sua trajetória um
passado nebuloso, repleto de episódios controversos. Desde o contrabando e
exportação de areias monazíticas do litoral capixaba/baiano/fluminense, passando
pela cabulosa venda de urânio para o Iraque; o encerramento das atividades do
Programa do Tório na UFMG, em 1975; o legado de morte e contaminação provocado
pela Nuclemon (antiga estatal) na extração de minerais radioativos e de terras
raras; o secretismo do Programa Nuclear Paralelo/Clandestino; a tragédia do
Césio-137, em Goiânia; o enorme passivo ambiental no Planalto de Poços de
Caldas/MG e em Caetité/BA; a falta de transparência e de controle social;
escândalos com o recebimento de propinas milionárias pelos gestores do setor;
roubos e sumiços de radiofármacos e de fontes radioativas, até a omissão de
informações cruciais para a população sobre graves ocorrências (por exemplo:
vazamentos de água radioativa) nas usinas nucleares, em Angra dos Reis (RJ).
Esses e outros episódios aprofundaram o crescente
descrédito sobre o desempenho da indústria nuclear, com seus gestores
privilegiados com supersalários. O desgaste sobressaiu, diante da atual crise
financeira e gestão temerária, que acabou levando a uma greve inusitada dos
trabalhadores da Eletronuclear, em 2025.
No caso específico de Angra 3 (construção iniciada
em 1984), o governo não deve avançar na sua conclusão por razões diversas,
reunindo desafios nas áreas tecnológica, econômica, ambiental, social, além dos
riscos associados a esta forma de produzir energia elétrica. Angra 3 é o
resultado do Acordo Nuclear assinado em 1974 com a Alemanha, em plena ditadura
militar, e que previa a construção de 8 usinas, entre outras ações relacionadas
ao ciclo do combustível nuclear. Deste acordo somente Angra 2 foi construída.
Também havia o interesse bélico de construir a
bomba atômica, projeto tocado em sigilo pela ditadura militar, cuja intenção
ficou evidenciado pela negativa, em 1968, quando o Brasil se recusou a assinar
o Tratado de Não Proliferação Nuclear, só o fazendo no final dos anos 90.
Um dos aspectos a ser levado em conta para de vez
interromper a construção de Angra 3 é o custo da energia nuclear muito mais
cara (4 a 6 vezes) que as fontes renováveis. Segundo estudos recentes do BNDES
(não acessível), a conclusão desta usina representaria um gasto de 23,9 bilhões
de reais, com início de operação em 2031, e com custo da energia entre R$ 778 –
R$ 817 por MWh. Este valor seria repassado para todos os consumidores, o que
representaria um adicional na já exorbitante conta de energia. Existe também
uma dúvida, se no cálculo da energia está incluído os custos de armazenamento
dos resíduos (lixo atômico) e do descomissionamento da usina.
Os riscos da energia nuclear incluem o
descarte/armazenamento seguro dos resíduos de alta radioatividade,
que continuam a irradiar por milhares de anos, constituindo um grave legado
para as gerações futuras, já que não existe uma solução definitiva e duradoura
para o armazenamento de tais substâncias. Além da possibilidade
de acidentes nas usinas, com a radiação contaminando solo, ar e água,
exigindo evacuação de grandes contingentes populacionais, causando doenças
graves (câncer, leucemia). Os impactos sociais, com o descarte inadequado do
lixo nuclear, constituem um perigo constante para o meio ambiente e a saúde
humana/animal. Acidentes importantes já ocorreram em usinas nucleoelétricas, o
de Chernobyl (Ucrânia-1986), o de Fukushima (Japão-2011), só para citar os que
tiveram maior publicidade. Além do maior acidente radiológico do mundo em
Goiânia (Brasil-1987), mostraram os perigos da liberação de substâncias
radioativas.
Outra questão relevante é a tecnologia antiga e
ultrapassada de muitos equipamentos essenciais ao funcionamento dessa usina que
já foram adquiridos desde a década de 80 do século passado. A obra, que já dura
45 anos, gasta R$ 1 bilhão por ano (R$ 800 milhões para pagar dívidas ao BNDES
e CEF; R$ 200 milhões em manutenção de equipamentos e caducas estruturas). Os
grandes e graves eventos ocorridos com usinas nucleares introduziram maior
segurança nas usinas construídas posteriormente aos acidentes, todavia não
impedindo que acidentes possam ocorrer. Uma máxima aceita é “não existe risco
zero em engenharia”.
Afirmar que é uma fonte “limpa” é uma grande
inverdade. Como se houvesse na natureza qualquer tipo de energia que não
contamina, libera produtos tóxicos, polui, agride o meio ambiente e as pessoas.
Não existe fonte de energia “limpa”. Só na propaganda mentirosa da
Eletronuclear, repetida à exaustão pelo MME.
A interrupção e construção de usinas nucleares no
país não impedirá a aquisição de conhecimentos estratégicos na área nuclear,
pois é nas universidades e centros de pesquisas que tais estudos são realizados,
e não nas compras “turnkey” dos equipamentos que compõem uma usina nuclear.
Na discussão sobre se o Brasil avança na
nuclearização de seu território com a conclusão de Angra 3, a mediocridade e a
falácia dos argumentos pró nuclear andam à solta. Nada indica que usinas
nucleares sejam necessárias ao país. As fontes renováveis constituem a espinha
dorsal da matriz elétrica, e podem garantir a segurança e sustentabilidade
energética em um contexto em que a diversidade e complementaridade andem
juntas. Para um contingente cada vez maior da sociedade brasileira a energia
nuclear é vista como uma alternativa de alto risco, cara e perigosa, em um país
com extraordinário potencial de fontes renováveis.
Logo, neste ano que inicia, basta coragem ao
governo federal para enfrentar os lobbies e interromper definitivamente a obra
de Angra 3, e, de maneira clara, deixar uma mensagem ao povo brasileiro e ao
mundo de que o Brasil não irá nuclearizar seu território.
“Em
memória do prof. Célio Bermann: gratidão e lembranças”
____________________
*
Publicado no blog: https://taniamalheiros-jornalista.blogspot.com/
**
Professor associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado
em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em
Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco
(DEN/UFPE) e doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix - Centro
de Estudos de Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
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