Quarta-feira, 4 de março de 2026 - 08h37

O
varejo pet brasileiro precisa encarar uma verdade desconfortável de que
depender majoritariamente da venda de ração deixou de ser um modelo
sustentável, e isso não se trata de pessimismo, mas de leitura estratégica. O
próprio tamanho do setor ajuda a explicar o problema. Segundo a Associação
Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), em
conjunto com o Instituto Pet Brasil, o mercado pet brasileiro estava projetado
para faturar cerca de R$ 77,2 bilhões em 2025, mantendo uma trajetória
consistente de crescimento. O paradoxo é que, quanto maior o mercado, mais
brutal se torna a competição nos segmentos comoditizados, sendo que nenhum é
hoje tão comoditizado quanto a ração.
Ainda
segundo dados da Abinpet, o segmento de alimentos industrializados para pets
responde por aproximadamente 54% de todo o faturamento do setor, movimentando
mais de R$ 40 bilhões por ano. À primeira vista, isso parece um convite para
concentrar esforços exatamente nessa categoria, mas, na prática, é uma
armadilha. Quanto maior e mais relevante a categoria, maior o interesse de
atacarejos, grandes redes e marketplaces em transformá-la em produto de
atração, usado como isca de preço para ganhar escala e tráfego.
Esse
movimento desloca a ração do campo do valor para o campo da comparação pura,
fazendo com que o tutor deixe de avaliar atendimento, conhecimento técnico ou
vínculo, passando a comparar essencialmente números. E, nessa arena, estruturas
gigantes, com poder de compra, logística própria e políticas agressivas de
subsídio, sempre levarão vantagem sobre o pet shop independente.
A desintermediação já está em curso
A
mudança de comportamento do consumidor não é teórica. De acordo com projeções
da Câmara Setorial de Animais de Estimação do Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento, os canais digitais já representam cerca de 8% do
faturamento total do setor pet e seguem em trajetória de crescimento. Ao mesmo
tempo, o mesmo relatório aponta que pet shops de pequeno e médio porte ainda
concentram aproximadamente 48% dos canais de acesso aos produtos e serviços pet
no país.
Esse
dado revela duas coisas importantes: a primeira é que a loja física continua
relevante; a segunda é que essa relevância não está garantida pela venda de
produtos, mas pelo papel que a loja ocupa na vida do tutor. Quem usa o ponto
físico apenas como mini-distribuidor concorre diretamente com plataformas muito
mais eficientes.
Produto não fideliza, solução fideliza
Existe
um equívoco comum de que a fidelidade nasce da recorrência da compra. Não
nasce, ela nasce da percepção de valor. Ração gera frequência, mas não gera
vínculo; serviços geram vínculo, orientação gera vínculo e experiência gera
vínculo.
O
próprio crescimento do setor está cada vez mais associado à chamada
“humanização dos pets”, fenômeno reconhecido pela Abinpet como um dos
principais motores de expansão do mercado. Em outras palavras, os tutores
gastam mais não apenas para alimentar, mas para cuidar melhor, prevenir
doenças, melhorar a qualidade de vida e prolongar o bem-estar dos animais, o
que favorece serviços, acompanhamento, personalização e relacionamento, e não
prateleiras.
O argumento do “sempre foi assim”
Pensar
que o pet shop sempre viveu de ração e sempre viverá é um tipo de raciocínio
que ignora a história recente de diversos setores. Bancos viveram de agência.
Locadoras viveram de DVD. Livrarias viveram de balcão. Todos tinham razões
aparentemente sólidas, mas todos perderam relevância quando confundiram hábito
passado com garantia futura.
A
verdade é simples: competir por preço em categoria comoditizada é estratégia de
curto prazo. No médio e longo prazo, ela corrói margem, limita investimento e
enfraquece a marca. O pet shop que quer existir daqui a cinco ou dez anos
precisa assumir outra identidade. Precisa ser ponto de cuidado, de orientação e
de relacionamento, além de estruturar serviços, programas de fidelização,
acompanhamento do histórico do pet, experiências presenciais, parcerias com
profissionais e ações que construam comunidade.
Produto
continuará sendo importante. Mas como parte de uma solução, não como o centro
dela. Pet shop que vive só de ração não está apenas com margem apertada. Está
com o modelo errado. E modelo errado, mais cedo ou mais tarde, cobra a conta.
*Ricardo de Oliveira é
especialista em negócios pet e fundador da Fórmula Pet Shop, empresa referência
em capacitação e consultoria estratégica para pet shops em todo o Brasil. Com
mais de 10 anos de atuação no setor, Ricardo já acompanhou a inauguração de
mais de 70 pet shops, orientando desde a escolha do ponto comercial até o mix
de produtos, layout e estratégias de marketing. À frente da Fórmula, já
capacitou mais de 8.700 empreendedores por meio de mentorias, treinamentos e
consultorias, se consolidando como uma das principais vozes na
profissionalização do varejo pet nacional. Sua experiência prática e visão de
negócio ajudam empreendedores a saírem do amadorismo e construírem empresas
lucrativas e sustentáveis.
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