Sábado, 28 de fevereiro de 2026 - 09h15

“O
segredo da vitória consiste em continuar lutando, mesmo quando a batalha parece
impossível
(De autoria popular ou anônima)
A situação do setor nuclear brasileiro é confirmada pelos
seus dirigentes como crítica e alarmante no início de 2026, com a Eletrobrás
Termonuclear S.A. (Eletronuclear) enfrentando sérios riscos de insolvência
técnica, dependência crônica de aportes da União e possíveis paralisações de
projetos.
O epicentro do problema alardeado se origina em
administrações irresponsáveis, tenebrosas, para dizer o mínimo. Auditoria
(processo: TC 014.889/2018-8) realizada pelo Tribunal de Conta da União – TCU,
fiscalizou o contrato de execução das obras civis da usina Angra 3, celebrado
entre a Eletronuclear e a empresa Construtora Andrade Gutierrez S.A. Foram
apontadas várias irregularidades graves, como superfaturamento, gestão
fraudulenta e pagamentos indevidos no contrato de retomada das obras civis do
empreendimento.
Para descredibilizar mais ainda o setor nuclear, seus
responsáveis em passado recente, estiveram envolvidos em questões nada
republicanas, além de fazerem parte da casta de servidores públicos que recebem
supersalários. Afirmam que o endividamento é devido a paralisação das obras da
usina Angra 3 (início da construção em 1984), que acumula gastos anuais estimados
em 1 bilhão de reais, sendo 80% de dívidas com bancos, e o restante gastos no
armazenamento, manutenção, segurança dos equipamentos da usina já adquiridos.
Declarações recentes divulgadas a favor da usina Angra 3,
integram uma estratégia que tenta influenciar a percepção e aceitação pública
de uma tecnologia cara, suja e perigosa, que o Brasil não precisa. Incensam a
necessidade e importância desta tecnologia para garantir a segurança energética
do país. E assim, justificar a decisão a ser tomada pelos membros do Conselho
Nacional de Política Energética – CNPE (quem define a política energética do
país). O cenário “dramático” está montado, com ameaças de até afetar a
operação de Angra 1 e Angra 2, e assim colocar o setor em uma posição de alto
risco financeiro e operacional. Tal situação tem sido utilizada para pressionar
o governo federal na direção de aprovar a continuidade de Angra 3.
A decisão sobre a usina no atual governo tem sido protelada
por ainda existir um “pingo de juízo”, bom senso e racionalidade em setores do
próprio governo federal. Os titulares do Ministério da Fazenda e do Ministério
de Meio Ambiente e Mudança do Clima, ainda resistem a insanidade de nuclearizar
o país. Diante do cenário que se desenrola a dezenas de anos, é inacreditável
como Angra 3 não foi ainda cancelada, em particular pelos enormes prejuízos
causados ao erário público.
Em uma das reuniões passadas, o CNPE encomendou um estudo
ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES, com o título
“Estudos técnicos-econômicos para retomada de Angra 3”; cujo propósito é
subsidiar a decisão a ser tomada pelos seus membros. Lamentavelmente,
inexplicavelmente a íntegra do estudo atualizado não foi tornado público.
Todavia, informações fragmentadas, trechos das conclusões, foram divulgadas,
apontando que concluir a obra é mais vantajoso economicamente do que
definitivamente desativá-la. A verificar!!!
Questiona-se a falta de transparência nesta, e em tantas
outras situações que envolveram deliberações no setor de energia. Informações
que deveriam estar disponíveis a sociedade, são omitidas, sonegadas, diante de
decisões tomadas de grande importância para o presente e o futuro do país.
A pressão para uma definição favorável a retomada desta
obra, tem o próprio ministro de Minas e Energia (presidente do CNPE), um dos
mais entusiastas da ideia de disseminar reatores nucleares em todo território
nacional, inclusive na Amazônia; além de ser favorável ao uso da energia
atômica para fins bélicos. Conta com aliados poderosos no Congresso Nacional,
nas forças armadas e junto a lobistas do conhecido “negócios do nuclear”.
É impossível defender Angra 3 e os 14.000 MW nucleares,
como propõe o Plano Nacional de Energia PNE - 2055. As razões principais são os
altos custos da eletricidade nuclear que chega a ser 4 a 6 vezes mais caro que
a produzida por fontes renováveis de energia. Outra questão considerada técnica
e ética, diz respeito a inexistência de armazenamento seguro e definitivo para
os elementos químicos altamente radioativos produzidos no interior do reator
nuclear, problema que será herdado pelas gerações futuras. Mesmo com baixa
probabilidade de ocorrência, os riscos de acidentes com vazamento de material
radioativo existem, e quando acontecem são desastrosos para a vida, como
atestam os desastres em Chernobyl e Fukushima. E sem dúvida, a proposta
inconcebível, mas que está na mira de setores da sociedade brasileira o uso
militar, com a construção de armas nucleares de destruição em massa.
Com a saída próxima do governo dos ministros Fernando
Haddad e Marina Silva, começam a ser veiculadas notas nos meios de comunicação
corporativos, que a decisão de continuar as obras da usina já foi tomada,
aguardando apenas a saída dos ministros. Talvez uma forma encontrada de
resguardar suas bibliografias diante da decisão infame, escandalosa de
implantar novas usinas nucleares no território nacional. Não é somente Angra 3,
mas se abre a porteira para que uma dezena de usinas nucleares sejam instaladas
nos próximos anos.
Caso o CNPE aprove a retomada de Angra 3, o país perderá
uma grande oportunidade de se desvencilhar da nucleoeletricidade e de suas
negativas consequências sociais, econômicas, ambientais e geopolíticas. Não
somente interromper de vez a desvairada proposta de retomar o projeto de Angra
3, mas também desativar Angra 1 e Angra 2, e deixar o urânio no seu devido
lugar, debaixo da terra.
“Em memória do prof.
Célio Bermann: gratidão e lembranças”
____________________
* Professor
associado aposentado da Universidade Federal de Pernambuco, graduado em Física
pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), mestrado em Ciências e
Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco (DEN/UFPE) e
doutorado em Energética, na Universidade de Marselha/Aix - Centro de Estudos de
Cadarache/Comissariado de Energia Atômica (CEA)-França.
Sábado, 28 de fevereiro de 2026 | Porto Velho (RO)
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