Segunda-feira, 19 de janeiro de 2026 - 15h43

“A paz não pode ser mantida pela força; só pode ser alcançada pela
compreensão" (Atribuído a Albert
Einstein***, físico teórico alemão, um dos maiores gênios da ciência)
Nesses
tempos tenebrosos que vivemos, o ideal humanitário de construir o estado de
bem-estar social foi vencido pelo estado de guerra. Na assembleia geral da ONU
(23/09/2025) o presidente Lula declarou que “na América Latina e Caribe,
vivemos um momento de crescente polarização e instabilidade, e manter a região
como zona de paz é nossa prioridade”. Menos de quatro meses depois, alcançar essa
prioridade parece uma meta impossível. Além da criminosa invasão da Venezuela e
sequestro de seu presidente, o governo Donald Trump ameaça invadir o México, a
Colômbia e a Groenlândia, anunciando conflitos mundiais que podem neutralizar
também o ideal da América do Sul, livre de armas nucleares.
A
militarização imperial dos EUA se reflete no Brasil, impulsionando
questionamentos sobre a capacidade militar de defesa, a necessidade de se
debater a política de segurança nacional e até fabricar bomba atômica – como
força de dissuasão – para ajudar numa possível ameaça externa contra a
soberania do país.
Durante
anos, assistimos à deterioração gradual, até o colapso, dos mecanismos de
controle sobre as armas nucleares e de sua proliferação. Diante do atual enfraquecimento
dos organismos internacionais, em especial da ONU, do Tratado de não
Proliferação de Armas Nucleares (TNP), acordos bilaterais e até da OTAN, países que já têm armamento nuclear – e outros que ainda não possuem – investem numa
corrida armamentista de desastrosa consequência e mesmo de riscos de uma guerra
que afetaria a existência da Terra.
Durante
a Guerra Fria, a doutrina da "Destruição Mútua Assegurada" (MAD)
sugeria que a dissuasão nuclear, contraditoriamente, ajudaria a prevenir uma
guerra em larga escala entre os EUA e a União Soviética, ao garantir que ambos
os lados seriam aniquilados em um conflito baseado no medo mútuo, promovendo
assim uma frágil estabilidade. A dissuasão nuclear poderia beneficiar
diretamente os países que já têm arsenal atômico (como EUA, Rússia, Reino
Unido, Coréia do Norte, Paquistão, Israel, Índia, França e China). Para eles, a
dissuasão funcionaria como um "guarda-chuva" de segurança, garantindo
que outras potências (nucleares ou não) não os ataquem diretamente por medo de
uma retaliação devastadora.
Segundo os
defensores da teoria da Guerra Fria, que perdura ainda neste século, a
dissuasão serviria como estratégia militar e política dos que possuem armas
nucleares para proteger seus países, seus interesses, intimidando seus
adversários, e assim prevenindo ataques diretos ao seu território. A ideia dos
belicistas é que a ameaça da retaliação pelo agredido, que detém armamento
nuclear, tornaria a agressão inaceitável pela destruição que poderia causar.
Todos
sabem que a defesa nacional, especialmente contra inimigos externos, é muito
mais complexa e não se resolverá apenas dotando o país de arsenal atômico, como
se a guerra por armas convencionais estivesse ultrapassada. O debate não pode
focar prioritariamente na indústria bélica, como se dispor de bomba atômica fosse capaz
de garantir capacidade para amedrontar o suposto inimigo externo.
Também
é sabido que o capítulo da política de segurança nacional carece de revisão,
tal como o da política nuclear brasileira, ambos marcados pela falta de
transparência e compartilhamento de conhecimentos dos especialistas civis e
militares com a sociedade civil. Este debate é mais que necessário,
principalmente neste ano de eleição majoritária, em que já está anunciada a
interferência dos EUA, com a moderna “guerra híbrida”, que combina táticas
militares, ataques cibernéticos, desinformação, mentiras, falsas propagandas e
eleva a guerra atômica para um plano secundário.
Agora, vozes
da esquerda brasileira se levantam em defesa da bomba atômica tupiniquim. Da
extrema direita o recado é claro: se submeter, tornar vassalo e ficar debaixo
do guarda-chuva americano, transformando o Brasil,
numa república “bananeira”, sem soberania. Não é surpresa nenhuma que estes
setores da esquerda se expressem e defendam a dissuasão nuclear. Foram eles
mesmo que –
no primeiro governo Lula no século passado, tendo à frente como ministro de Ciência e Tecnologia (atual MCTI),
o pernambucano Eduardo Campos (2004-2005) –
reativaram o Programa Nuclear Brasileiro, de triste história e controversos
atos, sendo, que é, até hoje, um dos maiores sumidouros
de dinheiro público.
O Brasil
domina a tecnologia do ciclo do combustível nuclear, mas não fabrica armas,
pois além do veto explícito na Constituição de 1988, também é signatário do TNP, assinado em 1998, que tem sido descumprido,
por exemplo, por Israel, sem que nenhuma medida inibidora tenha sido adotada. O
que preocupa a todos os pacifistas, é que, segundo a World Nuclear Association,
o Brasil é uma das 13 nações capazes de enriquecer o minério, e assim obter o
urânio físsil. Para fabricar a bomba atômica tupiniquim seria necessário mudar
a Constituição de 1988 e abandonar o TNP, além de aumentar o número de
centrífugas na fábrica de Combustível Nuclear da Indústrias Nucleares do Brasil
(INB), localizada em Resende (RJ).
A dissuasão,
como estratégia para manter a paz é uma ilusão, não mantém ninguém seguro. É
uma ameaça para todos nós. Em vez de evitar conflitos, a disponibilidade de armas
nucleares incentiva seu uso, é um convite ao armamentismo atômico, pois ao
invés de dissuadir um primeiro ataque, pode convidar a um primeiro ataque. As
armas nucleares criam desconfiança e desviam recursos financeiros que poderiam
ser aplicados, por exemplo, em acabar com a fome e outras mazelas que atingem
nossa população, além de resolver inúmeros problemas que nos torna um dos
países mais desiguais no mundo.
Devido ao
imenso poder destrutivo destas armas, caso sejam usadas, não se poderia
alcançar uma vitória no sentido tradicional, na medida em que esta seria
baseada na busca por desarmar o inimigo e impor condições e exigências
políticas. O que não poderia, ao menos teoricamente, ocorrer contra um inimigo
totalmente destruído. Neste sentido, seria impossível (ao menos teoricamente) a
ocupação militar do território do adversário que seria atacado pesadamente com
armas nucleares, devido à contaminação radiológica.
A gravidade
da ameaça nuclear pesa sobre toda a humanidade, e não só devido às armas nucleares,
mas também ao fato de as usinas nucleares produzirem elementos radioativos que
podem ser utilizados para a fabricação das “bombas sujas”. Contra ameaças
contemporâneas, como o terrorismo, que não segue a mesma lógica de retaliação
entre Estados, a dissuasão se torna ainda menos eficaz. Caso o Brasil enveredar
por este caminho de fabricar armas nucleares e expandir a nuclearização em seu
território com mais usinas atômicas, mudaria todo o panorama da América Latina.
Com certeza provocaria uma corrida nuclear regional.
Reacender a
lógica perversa da Guerra Fria, serve aos interesses do complexo
militar-industrial, com a multiplicação de atores
nucleares, e apontaria para um mundo mais perigoso, em que os arsenais se
expandem em meio às incertezas e temores. Segundo os relatórios das
organizações como o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de
Estocolmo) e o Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, as 100 maiores
empresas do setor de defesa e armamentos (a maioria delas sediada nos Estados
Unidos: Lockheed Martin, RTX, Northrop Grumman e Boeing) tiveram um faturamento
total com vendas de armas e serviços militares de cerca de US$ 679 bilhões, em
2024. E em relação aos gastos militares mundiais atingiram um recorde histórico
de aproximadamente US$ 2,7 trilhões em 2024, aumento de mais de 7% em relação
ao ano anterior.
Assim,
diante do contexto atual, em que posições belicistas presentes
no país se tornam mais ativas, é fundamental abandonar definitivamente a
ideia da bomba atômica tupiniquim, a construção de novas usinas, descomissionar
as já existentes e deixar o urânio debaixo da terra. Decisão que só valorizaria
o país para os brasileiros, e nossa posição no tabuleiro internacional das
nações pacíficas que rejeitam a destruição, a morte, e prezam pela Vida no
planeta Terra.
A única
garantia de segurança a longo prazo é a eliminação total dessas armas, conforme
pregam e lutam os movimentos que defendem iniciativas de desarmamento.
_________________________
* Heitor
Scalambrini Costa - Físico, graduado na Universidade Estadual de
Campinas-UNICAMP, com mestrado em Ciências e Tecnologia Nuclear na UFPE, e
doutorado na Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França. É
integrante da Articulação Antinuclear Brasileira.
**
Zoraide Vilasboas - Ativista socioambiental,
integrante da Articulação Antinuclear Brasileira
***
Einstein não participou diretamente da criação da bomba atômica, mas foi sua
famosa E=mc2 que revelou o potencial energético do átomo e sua carta ao
presidente Roosevelt, em 1939 alertou sobre o risco da Alemanha nazista
desenvolver a arma, o que levou ao Projeto Manhattan, que resultou no remorso
de Einstein pelas mortes em Hiroshima e Nagasaki e seu ativismo pela paz.
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