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Crônica

As Elizes da Vida


As Elizes da Vida - Gente de Opinião

Esta semana os noticiários da TV e as mídias sociais voltaram a falar de Elize Matsunaga, que, por ciúme, atirou no marido e o esquartejou, enquanto vivo, para depois acondicioná-lo em sacos plásticos e escondê-lo no ermo de uma estrada rural. Por dias ela usou a polícia na busca pelo marido desaparecido. Quem poderia suspeitar de uma loirinha meiga e bonita (nos padrões da beleza ocidental). E se fosse uma negra? Com certeza, nem apareceria na mídia. O caso Elize vai virar série na Netflix.

Quando a tragédia não estreia, mas aparece em todas as janelas da imprensa multicor, agrega interrogações das mais variadas especialidades, desperta o interesse de todas as idades, atrai os sentimentos e os porquês de todas as classes, exatamente porque é absurdamente humana, a grande novidade aqui é a evolução das mulheres: antes só os homens matavam violentamente “por amor”, salvo raríssimos casos registrados pela história.

Aos 19 de maio de 2022, exatos dez anos após o esquartejamento do marido, ao deixar a prisão para cumprir o resto da pena em casa, Elize divulgou que havia escrito um livro à mão, enquanto esteve presa, intitulado “Piquenique no inferno”. Segundo Elize, a obra apresentará sua versão dos fatos à sua filha, hoje com 11 anos de idade e vivendo sob os cuidados da família burguesa dos matsunagas. Não tenho dúvidas de que o livro mencionado será um bestseller.

Durante muitos dias, em maio de 2012, o rádio, a televisão, os jornais e as revistas exploraram o caso que abalou a sociedade paulista: uma loirinha de rosto angelical matou e esquartejou o marido nissei, milionário!!! O romance que ela viveu está no imaginário da grande maioria das adolescentes mundiais, esteve nos contos de fada, na estória do príncipe encantado. A vontade de concretizar sonhos e apressar a esperança arrasta a maioria das mais bonitas, simples e despreparadas emocionalmente, para a prostituição, tornando-as conhecidas como garotas de programa, com visibilidade em várias janelas da internet.

A doce Elize esteve na “galeria do amor”, até o dia em que encontrou o japa que lhe deu uma moldura de princesa; o nome Matsunaga a teletransportou para um castelo da zona oeste de São Paulo: um apartamento/cobertura de mais de 500m2.

Elize e Marcos viveram o amor sexual, uma paixão oriunda das vistas encantadas, produzidas nas janelas sexuais do corpo. O material determinava o espiritual: ela sentia-se deusa do amor, como extensão das curvas perfeitas de seu corpo jovem. E se achava dona da vida, dona do objeto Marcos Matsunaga, não aceitou dividi-lo, nem suportou o destino escolhido por ele, em momento de alucinação, de machismo, de poligamia: “Vou te mandar de volta para o lixo de onde você veio”.

Nem a uma deusa é facultado amar e manter-se sábia, Elize deve ter esquartejado o marido lembrando-se da forma como conseguiu toma-lo da primeira mulher, pena que não ouviu os sussurros de Shakespeare, grande entendido em tragédias: “Deleites violentos têm fins violentos. Morrem no meio do seu triunfo, como o fogo e a pólvora que se consomem logo que se beijam”.

Casos como o de Elize e Marcos, mais do que nunca, demonstram as várias vistas da janela do amor: enquanto sincera afeição humana, é recíproco, promove o bem, desnuda a felicidade, entretanto, se controlado pelo ciúme, pelo desejo, pelo egoísmo e pela vaidade, transforma-se em sentimento mesquinho, meramente sexual, vira paixão! Na paixão, a pessoa amada vira objeto de apetite, onde o gozo momentâneo é vulgarmente material, onde a saciedade obscurece o amor, onde o sentimento de posse turva todas as vistas agradáveis, descambando, quase sempre, para a janela da violência, com suas respectivas vistas selvagens. 

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