Porto Velho (RO) domingo, 27 de setembro de 2020
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Crônica

A MAGIA


Ilustração: Viriato Moura - Gente de Opinião
Ilustração: Viriato Moura

Magia, magos, mágicos, são nomes por demais abrangentes, vão do simples ao complexo, do místico ao mítico, num piscar de olhos, como se todos os instantes da vida estivessem interligados por um ato de magia, branca ou negra, instigante ou enigmática, misteriosamente misteriosa. Natural como o desabrochar de uma flor, a candura de um uirapuru, o despencar barulhento das águas de uma cascata. E falsa como os ilusionistas, treinados pelo surreal a dar vez ao sobrenatural, criando novas verdades, despertando curiosidades em simples olhos racionais, despreparados para entender os vários segmentos da magia. E Eva obrigou a serpente a comer a maçã...

Vale ressaltar que a magia antiga era complicada, possuía uma linguagem cheia de símbolos, rituais e cálculos. Hoje o que sobrou em instituições e organizações secretas é insignificante. O fenômeno mágico começava na cabeça do mago. Como todo Ser criador, ele era uma pessoa complexa, uma criatura em geral ousada e até mesmo temerária. Durante a Inquisição muitos magos conhecidos foram decapitados ou queimados, pela Igreja Católica.

No ambiente rural o mágico/benzedor ou benzedeira acaba com quebranto, cura bicheira de gado, verrugas de criança e outras doenças, restritas ao meio de quem jamais ousou contestar o sobrenatural, nem duvidar. A um imenso conjunto de fenômenos e práticas que o ser humano pode produzir, mas que não podem ser explicados pela autossugestão, pela simplicidade do olhar encantado, nem por quaisquer leis da ciência e da psicologia oficiais, dá-se o nome genérico de magia. Já vi mágico fazendo criança por ovos, cuspir moedas, retirar lenços do ouvido, coelho e pombo da cartola, pronunciando uma frase famosa: na vida tudo é relativo!

Na cidade de Itumirim-BA, havia um prefeito muito vaidoso que foi apresentado, pela filha menor, ao livro As Aventuras de Pinóquio, do italiano Carlo Collodi: como era comum às famílias de lastro, ela exigia do pai a leitura de pequenos trechos, antes de dormir. Certo dia, o prefeito cismou que seu nariz estava crescendo além da conta. Ele terminava de fazer um discurso e corria pro espelho. Verdade, estava crescendo, e agora? Ele não esperou a alcunha nem o olhar repreensivo da filha, mandou buscar o benzedor da cidade, e a reza não surtiu efeito, trouxe um cirurgião plástico da capital, e encomendou a cirurgia, queria cortar a metade do nariz. Cortar cortou, mas não adiantou, o nariz começou a crescer em sentido inverso, deu a volta no cérebro e brotou no cocuruto da careca, feito chocalho de cascavel: ele respirava forte e a ponta do nariz produzia o som de um guizo, abrindo o sorriso da filha. Nem chapéu, o nariz respeitou! Só parou de crescer, depois que a foice justiceira fungou no cangote dele. O apelido temido foi grafitado na lápide, pra tristeza da família: ladrão!

A magia se sujeita a muitas definições: “é uma arte especial, baseada na existência de forças naturais, pouco ou mal conhecidas, e ordinariamente fora do alcance do poder do homem. Conhecer essas forças, canalizá-las, orientá-las e, até certo ponto, utilizá-las, é o objetivo da magia”;  “é, antes de tudo, a arte divina que consiste em travar contato com a alma universal e, através dela, dominar as forças espirituais invisíveis no espaço e na substância;” Sê bom e serás ruim e vice-versa.

De onde vim, qual o sentido da vida, pra onde vou? Para conquistar conhecimento, o pensamento evoluiu com o homem, criando diversos métodos de trabalho e desenvolvendo inúmeras posturas para manipular o desconhecido e dele extrair respostas. Só sei que ele era enorme e tinha um olho só, na testa, e a boca era na barriga, atendia pelo nome de Mapinguari. No dia em que ele se amostrou, estava todo lambuzado de açaí e fedia a peixe.

A prática da magia é, sem dúvida, tão antiga quanto o próprio homem. Há quem diga que ela é precursora da religião, mas estudos mais profundos mostram ser mais provável que ambas tenham sempre existido, uma ao lado da outra. Magia e religião acreditam em um poder transcendental, a grande diferença está nas atitudes de cada uma: a magia preocupa-se em comandar, controlar e compelir esse poder para a satisfação dos seus próprios objetivos; a religião, por outro lado, preocupa-se em adorar esse poder, suplicando a sua ajuda e aceitando, resignadamente, aquilo que ele dá. Nada mais mágico do que o mundo natural, nem mais demoníaco que o mundo dos desejos. Não existe parte do homem que não seja parte dos deuses ou dos demônios, nossos velhos conhecidos: o bem e o mal! Eu guardo em mim um deus, um louco e um demônio!

Magia é hoje uma palavra problemática, dona de vários sentidos. Existe a magia do teatro, do cinema, da plateia, do designer de roupas, da arte, da ficção literária, do prestidigitador que tira coelhos da cartola ou dos truques de alta tecnologia de Copperfield a Mr. X. Todavia para que qualquer ação mágica tenha bom êxito é preciso usar a imaginação. O poder da imaginação é o verdadeiro “pulo do gato” da magia. A Xuxa jura que viu duendes em seu quintal, eu já convivi com um filho do boto, na Unir. E existe o mágico de picadeiro, único capaz de pintar um sorriso cintilante numa face emburrada, viajando da infância à velhice, feito um cometa em cuja cauda lê-se: temporário como a alegria!

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