Porto Velho (RO) sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
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A violência nossa de cada dia


A violência nossa de cada dia - Gente de Opinião 

Professor Nazareno*

Com pouco mais de duzentos milhões de habitantes, o país da próxima Copa do Mundo de futebol tem uma das sociedades mais violentas do planeta. Pior do que qualquer guerra da humanidade, aqui, em tempos de paz, são mortos anualmente mais de 50 mil cidadãos. São quase 140 homicídios por dia. A carnificina não escolhe lugar nem região: das grandes cidades e metrópoles do centro sul do país até os mais longínquos e remotos recantos de regiões mais atrasadas, conviver com a brutalidade já virou rotina para todos nós. Mais do que em qualquer outro país, no Brasil matam-se mais negros, mais pobres, mais mulheres, mais homossexuais, mais policiais, enfim, não há quem escape do horror. Infelizmente todo dia estamos sujeitos a sair de casa e não mais voltar. Instalou-se no país inteiro uma espécie de “salve-se quem puder”.

Engana-se, porém, quem ainda acredita que essa onda de violência que varre o país há décadas é fruto apenas de ações individuais. A delicadíssima questão das drogas, as leis muito flexíveis, o Estado corrupto e a inoperância do Poder Público associados à incompetência dos órgãos de segurança estão por trás do horror. Aqui, nunca esteve tão em voga a máxima de Jean-Jacques Rousseau de que “o homem nasce puro, mas a sociedade o corrompe”. O Brasil tem hoje cerca de 540 mil indivíduos encarcerados, mas só há vagas para pouco mais de 350 mil. Abarrotado, o sistema carcerário poderia ser bem pior, pois para cada um que está preso, há pelo menos uns quatro em liberdade praticando crimes diariamente nas ruas. Hipócrita, nosso país não construiu escolas e teve vergonha de construir presídios, contrariando assim o célebre Rui Barbosa.

Porém, a nossa sociedade, já acostumada com a guerra diária, incentiva mais ainda a barbárie. “Bandido bom é bandido morto”, ouve-se com frequência este absurdo. Bandido bom é bandido preso, julgado e condenado pelo Poder Público, sem direitos a regalias nem indultos. Isso sim seria civilidade. Violência só gera mais violência. É preciso ter inteligência para perceber que só com educação de qualidade e com justiça social poderemos enfrentar o caos. Aplaudir a morte de bandidos sem propor algo concreto para enfrentar a crise só nos torna tão criminosos quanto eles. Os incontáveis indultos a que eles têm direito preenchem uma lógica macabra: precisa-se abrir mais vagas no já sobrecarregado sistema prisional para que outros condenados cumpram também suas penas. Sem vagas há muito tempo, o sistema está em colapso.

Além do mais, grande parte da sociedade brasileira age na contramão da História e é contra a política de direitos humanos, aceita no mundo civilizado. Triste, vejo jornalistas, professores e até advogados se insurgirem contra os defensores dessa diretriz. Sem ela, a carnificina só aumentaria e colocava o Estado brasileiro mais uma vez como vilão. Segundo o IBGE, mais de 90 por cento dos nossos presos ou são analfabetos ou têm menos de quatro anos de estudo enquanto um por cento apenas tem ensino superior. No Brasil, o crime só é organizado porque o Estado é desorganizado e frouxo. Nossas leis são elitistas e geralmente só punem “os pequenos”. Precisamos melhorar nossas escolas e investir no futuro dos nossos cidadãos, mas é muito difícil fazer isto, pois a sociedade não cobra, não quer. Na próxima Copa, o nosso Holocausto vai assombrar o mundo já que este problema não pode ser remediado: ou se investe em educação de qualidade ou nada funcionará. E isto leva tempo. Muito tempo.

*É Professor em Porto Velho.
 

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