Porto Velho (RO) quinta-feira, 2 de abril de 2020
×
Gente de Opinião

Meio Ambiente

Ignacy Sachs debaterá Outra Amazônia em São Paulo


   

Gente de Opinião

Marcada para a próxima segunda-feira,em São Paulo,conferência terá como debatedores o economista Ladislau Dowbor e integrantes do Greenpeace, MST e Instituto Ethos -  

A denúncia sistemática da devastação da Amazônia é um meio eficaz para garantir que a floresta seja preservada? Consultor especial da conferência Rio-92, considerado um dos criadores do conceito de desenvolvimento sustentável (ou eco-sociodesenvolvimento), o economista Ignacy Sachs acredita que não. A convite de um conjunto de organizações da sociedade civil, ele ministrará no TUCA, nesta segunda-feira (17/11), conferência em que lança, aos que estudam ou se interessam pelos ecossistemas amazônicos, pelo menos três considerações provocadoras.

Sachs sustenta, primeiro, que para preservar a mata e seus biomas é preciso tocá-los. As abordagens que vêem a Amazônia como um território idílico, a ser protegido da ação humana, são, segundo ele, impotentes. Elas não levam em conta a existência de quase 25 milhões de habitantes, a maioria dos quais submetidos a condições de vida precárias. Enquanto não se oferecer a tal população alternativas sustentáveis, ela será atraída por ocupações como a extração predatória de madeiras ou minérios, a pecuária extensiva, os cultivos invasores e a indústria poluente.

Estamos, então, condenados a ser testemunhas de uma enorme tragédia? Não, responde Sachs. Para ele, a Amazônia, vista hoje como a última vítima da era do petróleo, pode ser, alternativamente, a primeira manifestação das biocivilizações contemporâneas. A crise ambiental que está produzindo o aquecimento do planeta, acredita o economista, abre espaço para o fechamento de um período historicamente determinado. O biomassa foi, durante quase dez mil anos, a energia que impulsionou a ação civilizatória do homo sapiens. Há duzentos anos, o uso dos combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás) permitiu um grande salto – cujas conseqüências, contudo, estão se tornando devastadoras. Descobertas tecnológicas recentes permitem vislumbrar uma nova era de bioenergias: sol, vento, combustíveis vegetais. Nenhuma região oferece condições tão favoráveis para servir de laboratório desta nova era quanto a grande floresta sul-americana – onde água, insolação e terra são abundantes.

Como tornar possível esta virada surpreendente? Sachs vê a crise financeira e econômica em curso como um divisor de águas. Para ele, o fim da crença no poder regulatório dos mercados pode ser, também, a reinvenção da política. Nas últimas décadas, prevaleceram modelos que negam qualquer possibilidade de planejamento, ao deslocar para as empresas, ou os indivíduos, todas as decisões sobre produção e consumo. Para explorar uma reserva de nióbio em São Gabriel da Cachoeira (AM), basta bancar os investimentos necessários. Para comprar um veículo 4x4, a única condição é pagar o valor estabelecido pelo fabricante.

Embora doloroso, o colapso econômico e ambiental desta lógica estimulará as sociedades, pensa Sachs, a reivindicar a o direito – e assumir a responsabilidade – de construir conscientemente seu futuro. Isso significa estabelecer políticas que orientem e balizem a ação dos indivíduos e empresas. A criação extensiva de gado, que é altamente lucrativa – e por isso transformou-se em ponta-de-lança do desmatamento – pode ser desestimulada por meio de impostos dissuasórios. Em contrapartida, estímulos fiscais e de crédito adequados podem impulsionar a produção familiar ou cooperativada de alimentos e/ou biocombustíveis.

Sachs debruçou-se, nos últimos seis meses, num estudo exaustivo da realidade amazônica e dos mecanismos capazes de frear a devastação. O resultado do trabalho – que começou em seu gabinete, no Centro de Estudos sobre Brasil Contemporâneo, da École de Hautes Études en Sciences Sociales, de Paris, e terminou numa propriedade rual da Bretanha – é um paper de dezesseis páginas, intitulado  Amazônia: laboratório das biocivilizações do futuro e publicado no blog Outra Amazônia (http://outraamazonia.wordpress.com).

Denso e pontilhado de citações, mas de leitura sempre fluida e instigante, o documento reflete um pesquisador que, aos 81 anos, parece cada vez mais profundo e erudito – além de ter reforçado sua visão de ciência como meio de conhecer e transformar o mundo. Sachs desdobra a idéia de biocivilização em dois eixos de ação. Ele quer assegurar, o mais rapidamente possível, a garantia do desmantamento zero – uma proposta formulada por ambientalistas e movimentos sociais. Mas em seu texto, esta consigna não aparece como palavra-de-ordem retórica, e sim como objetivo a ser concretamente conquistado. Para fazê-lo, o economista sugere a conversão das áreas devastadas. Embora representem apenas cerca de 20% da floresta original, elas equivalem a uma França e meia, perfazendo 750 mil quilômetros quadrados. Esta área, que hoje funciona como plataforma para ampliar o desmatamento, poderia, segundo o paper, oferecer ocupações sustentáveis e vida digna ao dobro de sua população atual.

Embora aposte na biocivilização como saída geral para a Amazônia, Sachs não se contenta em tratar esta perspectiva em termos genéricos. Ele a desdobra num leque de propostas específicas, que revelam conhecimento detalhado da região. Abrangem os setores tradicionais (agricultura, pecuária, mineração, indústria) e os quase inexplorados (turismo ecológico e aqüicultura, entre muitos outros). Passam pelo zoneamento dinâmico da Amazônia (para evitar que a definição de vocações rígidas impeça as regiões de aproveitarem futuros avanços tecnológicos); por uma proposta refinada de política tributária (concebida para penalizar tanto a concentração fundiária quanto a ocupação inadequada da terra); pelo desenho de projetos capazes de viabilizar a pequena propriedade (vale a pena examinar, por exemplo, a hipótese da produção de óleo de dendê em agrovilas de 3 mil pessoas, que além de cultivar a planta teriam acesso a mais dez hectares de terra); pela redefinição da política de proteção das reservas florestais (Sachs não crê na repressão policial como forma essencial de preservá-las, e propõe o envolvimento das próprias populações); pela reorganização do parque industrial de Manaus (cuja prioridade deveria ser o processamento dos recursos da floresta e não a montagem de quinquilharias importadas); por diversas medidas de incentivo à produção científica.

Além de expor uma proposta original e inovadora, o paper que será apresentado dia 17, no TUCA, é um excelente guia de leituras para quem deseja atualizar-se sobre a Amazônia. Para escrever seu novo trabalho, Sachs consultou dezenas de livros, artigos, notícias de jornais e revistas. Todo o material relevante consultado está referido – no texto e em quase oitenta notas de rodapé. As citações fogem do padrão acadêmico: o documento dá destaque especial aos estudos e pontos de vista produzidos pelos movimentos sociais e organizações da sociedade civil.

Este esforço por dialogar – muitas vezes de modo crítico – com atores sociais envolvidos em processos de mudança vai se expressar também na conferência do dia 17. A exposição de Sachs terá, como comentadores, Gilmar Mauro, um dos líderes nacionais do MST; Marcelo Furtado, diretor do Greenpeace; o economista Ladislau Dowbor; e os empresários Ricardo Young (Instituto Ethos) e Guilherme Leal (Natura).

A conferência de Sachs é uma iniciativa da edição brasileira de Le Monde Diplomatique, da Agência Envolverde, do site Mercado Ético e do Fórum Amazônia Sustentável, com apoio da PUC-São Paulo e do Tuca. A entrada é franca é não requer convite nem reserva. Os lugares, porém, são limitados. Convém chegar com alguma antecidência.

Debate com Ignacy Sachs: Segunda-feira, 17/11, às 19h30
Tuca: Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes – Sمo Paulo-SP –  Tel: (11) 3670.8453.


Fonte: Envolverde/Le Monde Diplomatique Brasil

Mais Sobre Meio Ambiente

Acordo de R$ 2,7 milhões na Justiça do Trabalho viabilizará projetos sustentáveis em Presidente Médici/RO

Acordo de R$ 2,7 milhões na Justiça do Trabalho viabilizará projetos sustentáveis em Presidente Médici/RO

Um acordo no valor de R$ 2,7 milhões homologado pela Justiça do Trabalho em Ji-Paraná/RO beneficiará projetos sustentáveis que visam o tratamento e re

Rio Madeira ultrapassa os 15 metros, dois a menos que em 2019, afirma Defesa Civil

Rio Madeira ultrapassa os 15 metros, dois a menos que em 2019, afirma Defesa Civil

O rio Madeira atingiu na segunda-feira (9) a cota de 15,24 metros, um pouco acima da média (15 metros), mas longe de uma enchente como a registrada em

Prefeitura de Porto Velho alinha medidas para a realização do Amazônia + 21

Prefeitura de Porto Velho alinha medidas para a realização do Amazônia + 21

O prefeito Hildon Chaves se reuniu no Prédio do Relógio (sede do poder executivo) na manhã desta segunda-feira (09), acompanhado do secretário adjunto

Policiais Militares do Batalhão Ambiental participam de oficina sobre Crimes Ambientais de Menor Potencial Ofensivo

Policiais Militares do Batalhão Ambiental participam de oficina sobre Crimes Ambientais de Menor Potencial Ofensivo

Sessenta Policiais Militares do Batalhão de Polícia Ambiental, de todo o Estado, participaram na manhã desta sexta-feira (28/2) da Oficina sobre