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Estudante da UFSCar descobre nova espécie de ave na Amazônia

Descoberta da sururina-da-serra foi feita no Parque Nacional da Serra do Divisor em 2021 e confirmada em 2024


Sururina-da-serra (Foto: Luis Morais) - Gente de Opinião
Sururina-da-serra (Foto: Luis Morais)

Um canto incomum ouvido na Serra do Divisor, no estado do Acre, na fronteira com o Peru, levou o biólogo e ilustrador Fernando Igor de Godoy, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais (PPGERN) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), à descoberta de uma nova espécie de ave. É a sururina-da-serra.

Durante um trabalho de campo em 2021, Godoy gravou uma vocalização longa, aguda e metálica que não correspondia a nenhuma espécie conhecida. O registro deu início a uma investigação que culminou na descrição científica da sururina-da-serra (Tinamus resonans), nova integrante da família dos inhambus, com plumagem, comportamento e canto únicos.

A confirmação visual só veio três anos depois, em 2024, quando o biólogo Luis Morais conseguiu fotografar o animal. A partir daí, uma expedição coletou os dados necessários para a descrição científica publicada recentemente na revista Zootaxa. O artigo, com acesso livre, pode ser consultado em https://mapress.com/zt/article/view/zootaxa.5725.2.6. 

Características

A sururina-da-serra tem porte médio, pesando cerca de 340 gramas. Tem plumagem alaranjada na parte inferior, marrom na superior e uma máscara marcante na cabeça. Vive no chão da floresta, como outros tinamídeos, mas seu comportamento ainda é pouco conhecido, descreve o pesquisador. "A ave é terrícola, voa só quando necessário poucas alturas no chão da mata, mas geralmente só caminha".

A espécie ocorre apenas em uma estreita faixa montanhosa do Parque Nacional da Serra do Divisor, entre 310 e 435 metros de altitude, o que a torna especialmente vulnerável a mudanças ambientais e projetos de infraestrutura. "Estima-se que existam cerca de 2.100 indivíduos, todos restritos à região. A descoberta, realizada com apoio de comunidades locais e confirmada por pesquisadores após registros fotográficos e em vídeo, destaca a importância da pesquisa científica e do conhecimento de campo para revelar a biodiversidade ainda desconhecida da Amazônia", destaca Godoy.

Segundo o pesquisador da UFSCar, a ave não se parecia com nenhuma outra espécie conhecida da família Tinamidae, e sua vocalização também era única, fortalecendo a certeza de que se tratava de uma descoberta rara. "Os tinamídeos são bastante característicos, pois apresentam as asas reduzidas, um corpo arredondado e são terrícolas. O grande diferencial dessa espécie é a plumagem, a cabeça com cores contrastantes alaranjadas de ardósia, que não se parece com nenhuma outra espécie da família". 

Pesquisador e ilustrador

Godoy ingressou no doutorado do PPGERN/UFSCar em outubro do ano passado sob orientação do professor Augusto João Piratelli, do Departamento de Ciências Ambientais (DCA-So) do Campus Sorocaba da UFSCar. A descoberta não tem relação com sua pesquisa no Programa. "Eu fiz a descoberta antes de entrar no doutorado, após a conclusão do Mestrado, também no Programa, e estava em uma viagem pelo Serviço Florestal Americano e pelo ICMBio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]". 

Ele também é ilustrador científico, com foco na fauna. "Eu gosto de ilustrar cenas que já observei na natureza. Nunca copio, mas por questão de fidelidade de proporções e cores, eu sempre consulto diversas fotos", detalha Godoy, que costuma ilustrar à mão com tinta guache. "Minhas ilustrações têm caráter científico e muitas pessoas me procuram para incluí-las em artigos científicos, materiais de divulgação, apresentações. Eu também tento utilizá-las bastante na educação ambiental". Confira a ilustração da sururina-da-serra feita por ele. O portfólio completo está em www.ornitologiaearte.com.

Etapas da investigação

"Eu já trabalhei como ornitólogo em diversos locais da Amazônia e ao ilustrar as aves da Serra do Divisor me convidaram para ir lá conversar com a comunidade. Então já no primeiro dia ouvi o canto e vi que se tratava de uma espécie totalmente diferente. Eu gravei e mandei para vários pesquisadores, mas muitos achavam que era apenas uma variação, ou até um híbrido. Poucos me deram atenção, como é o caso do meu colega Ricardo, que foi lá e fez novas gravações", relembra Fernando. "Em 2024 o Luis Morais, que faz doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi lá e conseguiu ver a ave e concluir que de fato era uma espécie nova, pois a fotografou. Então, ele promoveu uma expedição no ano passado para ir lá coletar e descrever a nova espécie".

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