Sábado, 3 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Meio Ambiente

Estiagem deixa casas 'flutuantes' no chão em Manaus (AM)


    Estiagem deixa casas 'flutuantes' no chão em Manaus (AM) - Gente de Opinião

Gente de Opinião
Cheira a queimado, há fumo no ar e pequenas labaredas na mata. Para a nova colheita, a maioria dos agricultores da Amazónia lança fogo ao terreno para que o "roçado" volte a ser fértil. Planta- -se mandioca, que este ano está com uma "praga" de minhocas devido à seca. A floresta, nas margens dos rios amazónicos, está árida e desgastada da exposição ao sol. A pouca humidade anda a preocupar os ambientalistas que falam em "grandes mudanças" no ecossistema da Amazónia. O dono da chamada canoa de Saruê, Nelson Dalva, é um bom exemplo do que eles querem dizer. Enquanto atravessa o rio Ariaú, afluente do rio Negro, no estado do Amazonas, Brasil, peixes pequenos começam a saltar para dentro da canoa, em voos desordenados. Ele apressa-se a devolvê--los ao seu habitat. "Mesmo quem não sabe pescar, nesta época de seca, consegue apanhar peixe facilmente. Há muito!", diz. Por outro lado, admite, "há cardumes a morrer". A rabeta (pequeno motor) quase encalha num banco de areia. As hélices rangem furiosas. A canoa segue à deriva até encontrar um nível de navegabilidade. Nas margens, a lama seca encobre-as e as raízes das árvores estão descobertas. Alguns troncos estão queimados pelo sol. Nos galhos das árvores há rastos de vegetação seca, que as cheias deixaram em Junho. As enchentes desalojaram centenas de famílias e trouxeram uma crise de abastecimento a Manaus, a metrópole que parece "engolida" pela selva. Agora a seca rasga a Amazónia fluvial. Estão 37 graus. O corpo não pára de suar, como se quisesse mostrar que tem mais poros que aqueles que conhecemos. A garganta parece ter cactos a arranhar. E a tontura é companheira assídua. Não há chuva há cinco meses. "Nesta altura do ano, era suposto já estar a chover; e está este calor infernal", diz Saruê. "A natureza está desequilibrada." O nível da água está "demasiado baixo". Fala-se em seca "histórica". Os mais velhos contam que "só nos anos 60" houve um cenário semelhante. Ouve-se falar que há famílias ribeirinhas com falta de água". Onde andam os fartos rios da Amazónia que dependem das chuvas para se encherem de farta correnteza? No arquipélago fluvial das Anavilhanas, inabitado, a água desceu mais de 20 metros. Os canais fluviais, chamados de igarapés, estão secos. Em Iranduba, no outro lado da margem de Manaus, as cheias encobriram parte do mercado durante dois meses. Agora, a água desceu. As casas flutuantes, comuns nesta região, devido à grande alteração no nível das águas, assentam em terra firme. Na aldeia de Murutinga, a sul de Manaus, onde mora a comunidade indígena descendente dos Mura, o nível da água desceu 20 metros. Todos falam que "já devia ter subido". "E este rio, o que se passa?", questiona o Braga, que vive ali há 42 anos. "Quem o viu em Junho não o reconheceria. A paisagem é outra." Nessa altura, a água chegou até ao posto médico, no alto da aldeia e as enfermeiras encostavam o barco à porta de entrada. A casa fica, agora, no alto de uma falésia, como se alguém tivesse sugado toda a água e deixado um charco para disfarçar. Para o ecologista Carlos Durigán, presidente da Fundação Vitória Amazónica, a situação na região é "preocupante". "A Amazónia é responsável pelo equilíbrio do clima mundial e está a sofrer muito com as mudanças climáticas", diz. "Esta seca é a prova disso."

(Foto: Vanessa Rodrigues)
(Fonte: De olho no tempo, com informações Público.pt)

Gente de OpiniãoSábado, 3 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

“Vou estudar debaixo da árvore que plantei”: criança traduz o propósito do plantio que mira um Carnaval de carbono neutro

“Vou estudar debaixo da árvore que plantei”: criança traduz o propósito do plantio que mira um Carnaval de carbono neutro

A Ecoporé, instituição com 37 anos de história em Rondônia, e o Bloco Pirarucu do Madeira uniram forças em uma ação que redefine a relação entre as

De Rejeito a Recurso: Estudo sobre a Viabilidade do Condensado de Ar-Condicionado em Água Reutilizável

De Rejeito a Recurso: Estudo sobre a Viabilidade do Condensado de Ar-Condicionado em Água Reutilizável

Pesquisadores de Porto Velho-RO apresentam solução inovadora para reaproveitar água de ar-condicionado em prédios públicos, promovendo sustentabilid

Projeto ambiental do governo de RO resulta na soltura de 228 mil filhotes de tartaruga-da-Amazônia no Parque Estadual Corumbiara

Projeto ambiental do governo de RO resulta na soltura de 228 mil filhotes de tartaruga-da-Amazônia no Parque Estadual Corumbiara

Com o objetivo de fortalecer a preservação das espécies nativas da região amazônica e garantir a biodiversidade, 228 mil filhotes de tartarugas-da A

Soltura de Quelônios no vale do Guaporé

Soltura de Quelônios no vale do Guaporé

Há cerca de 39 anos atrás um Quilombola, nascido no Vale do Guaporé, preocupado com o possível extermínio dos Quelônios (Tracajás, Tartarugas e outr

Gente de Opinião Sábado, 3 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)