Porto Velho (RO) domingo, 29 de março de 2020
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Meio Ambiente

'Avô' de peixe-boi com 45 mil anos


Paleontólogo acha 'avô' de peixe-boi da Amazônia, com 45 mil anos
 
Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo 

Mamífero pode ter passado por evolução-relâmpago ao adentrar rios amazônicos. Anatomia de fóssil indica forma intermediária entre bichos fluviais e os marinhos.

O peixe-boi que hoje vive nos rios da Amazônia é um bicho plácido, chegando mesmo a ser lerdo. Mas fósseis recém-descobertos de um ancestral desse mamífero aquático sugerem que ele passou por um surto evolutivo um bocado apressadinho para se adaptar ao ambiente amazônico. Para ser mais exato, a espécie atual do bicho teria surgido há menos de 45 mil anos -- quase nada para a evolução.

 A proposta é do paleontólogo Mario Alberto Cozzuol, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que deve batizar formalmente em breve uma nova espécie fóssil de peixe-boi. Por enquanto, a única certeza é que ela também será incluído no gênero Trichechus, o mesmo que abrange o peixe-boi da Amazônia (ou T. inunguis, para os íntimos) e o peixe-boi-marinho (T. manatus). O nome completo da espécie só será revelado quando da publicação de um artigo científico a respeito. Os novos fósseis foram achados num garimpo do município de Nova Mamoré, em Rondônia -- curiosamente, um lugar aonde a espécie moderna não chega, por causa da presença de corredeiras.

"Parece que os animais ficaram presos no oeste da Amazônia, com uma população muito pequena, num momento em que as florestas estavam encolhendo na região por causa da mudança climática", explicou Cozzuol ao G1. "Com esse processo, a especiação [formação de novas espécies] foi muito rápida", diz ele. A idéia, grosso modo, é que o surgimento de uma pequena população isolada criou condições para que as características idiossincráticas desse grupinho se acentuassem e se fixassem. Trata-se de um processo que os biólogos chamam de efeito fundador.

Nascido para mastigar

Por enquanto, Cozzuol só recuperou restos dos maxilares e do palato (o popular céu da boca) da espécie extinta. Pode parecer pouco, mas esses pedaços de anatomia são muito informativos quando os falecidos são mamíferos, permitindo uma identificação precisa. Foram os dentes que deram ao paleontólogo da UFMG a chave para identificar o bicho como uma espécie intermediária entre o peixe-boi da bacia do Amazonas e o peixe-boi-marinho atual.

Cozzuol explica: "O peixe-boi amazônico tem dez dentes, enquanto o marinho tem seis. O de rio possui dentes menores e em maior número porque ele come plantas mais abrasivas [ou seja, que desgastam mais os dentes], como gramíneas, ao contrário do marinho. Os peixes-boi possuem um sistema de substituição dos dentes que se desgastam: dentes novos vêm crescendo na parte de trás da boca e empurrando os gastos para fora. Os dentes menores do peixe-boi amazônico facilitam justamente essa substituição, porque demoram menos tempo para serem gerados pelo organismo".

 Ora, o tamanho dos dentes da nova espécie fóssil de Trichechus é avantajado, como se vê na espécie marinha, enquanto outras características dentárias já se aproximam mais da forma de rio atual -- sem falar, é claro, em ainda outros detalhes anatômicos que são exclusivos do bicho.

Surpresas

Apesar dos dados anatômicos aparentemente claros, não é surpreendente que uma nova espécie tenha "nascido" tão rápido? Afinal de contas, a nossa própria espécie, que também é um relativo "bebê" em termos evolutivos, já existe há uns bons 150 mil anos. "A data que nós obtivemos [de troncos de árvores associados aos fósseis de peixe-boi] está no limite do método de carbono-14, mas foi confirmada por testes mais refinados e confiáveis, então creio que ela é defensável", afirma Cozzuol. 

 O geneticista Fabrício Rodrigues dos Santos, colega de Cozzuol na UFMG, estudou a "árvore genealógica" dos peixes-boi por meio do DNA. Os dados genéticos, por meio do chamado relógio molecular (uma data que tenta estimar a data de origem de uma espécie ou linhagem por meio da quantidade de alterações no DNA), apontam uma origem aparentemente mais antiga para os bichos amazônicos -- o ancestral comum deles teria vivido há mais de 100 mil anos, diz Santos.

"Existem duas versões para a origem do gênero Trichechus. Uma diz que ele saiu da Amazônia mais de 600 mil anos atrás, dando origem ao peixe-boi-marinho da América e da África", explica Santos. "A segunda diz que o Trichechus entrou na Amazônia muito recentemente e, isolado, originou a espécie amazônica de hoje." Se a primeira idéia estiver correta, o novo fóssil seria um "primo", e não um ancestral do bicho amazônico moderno.

Cozzuol, porém, aposta na segunda hipótese. "A impressão dos dados de relógio molecular de que há uma origem mais antiga da espécie vem justamente do efeito fundador [que levaria os pesquisadores a concluir que o bicho é muito distinto de seus parentes e, portanto, tem uma origem mais antiga]", diz o paleontólogo. Tanto é assim, afirma ele, que ainda hoje é possível encontrar híbridos das espécies marinha e fluvial na foz do Amazonas -- o que indicaria a separação relativamente recente.

Fonte: G1

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