Porto Velho (RO) quinta-feira, 30 de junho de 2022
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Energia e Meio Ambiente - Internacional

Santo Antônio inova para evitar custos ambientais



 
Amarrados a um andaime em torres de concreto bem acima do rio cor de lama, trabalhadores vestidos dos pés à cabeça com proteção contra o sol e pernilongos estão construindo a primeira grande barragem na Amazônia em décadas.

Santo Antônio é um marco do retorno do Brasil à construção de hidrelétricas na Amazônia depois que projetos nos anos 80 deixaram um rastro de desastres.

A usina no Rio Madeira é o primeiro passo no plano do Brasil de ampliar a oferta de eletricidade na marcha do país para o mundo desenvolvido. Para isso, duas dúzias de novas hidrelétricas podem dar novo perfil a rios gigantes numa das áreas ecologicamente mais sensíveis do globo.

Ainda assim, poucos já ouviram falar do projeto de US$ 8 bilhões, e é isso que os construtores queriam. Eles fizeram planos para evitar as polêmicas que no passado retardaram projetos de barragens durante anos e multiplicaram seus custos.

Os construtores gastaram cerca de US$ 600 milhões para evitar problemas com autoridades, grupos ambientalistas e tribos de índios antes que eles surgissem. Eles treinaram milhares de moradores da floresta para criar grupos locais de mão de obra; construíram casas modernas para famílias que serão remanejadas; criaram uma estrutura high-tech por onde os peixes podem contornar a barragem; e para atender uma demanda local, fizeram um açougue para jacarés.

A maior inovação foi estender os limites da tecnologia de turbinas para reduzir a área que será inundada. Os construtores contrataram turbinas especiais que não requerem a pressão d"água de uma represa enorme por trás delas para gerar eletricidade.

O modelo de negócios também é novo, pelo menos para o Brasil. Em vez de o governo contratar empreiteiras que só constroem a usina para estatais operarem, os próprios construtores pagam pela construção e depois podem vender a eletricidade durante décadas. O negócio dá incentivos para que excesso de custos e atrasos - as pragas do estilo antigo de fazer usinas - sejam evitados.

Até agora, a estratégia está funcionando. Embora a usina de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, que usa um projeto mais antigo tenha provocado um protesto organizado pelo cineasta de Hollywood James Cameron, Santo Antônio está acelerando em direção ao seu término praticamente fora dos olhares do público. Ela está a caminho de produzir energia um ano antes do prazo inicial, que era em 2012.

A aparência mais verde de Santo Antônio põe ambientalistas num dilemma. Por um lado, representa uma importante vitória para eles. Quando as primeiras represas na Amazônia foram construídas décadas atrás, a preocupação dos engenheiros era como plantas e animais iam afetar o funcionamento da usina, não o contrário.

Mas embora Santo Antônio seja menos invasiva do que as usinas do passado, sua marca pode se provar enorme. Isso porque o projeto, ao apresentar um modelo de sucesso na construção de grandes barragens na Amazônia, torna mais provável que a vasta floresta tropical acabe abrigando uma extensa rede de hidrelétricas e uma consequente onda de desenvolvimento industrial.

"Eu entendo as vantagens de redução da área represada e de tentar limitar o impacto, mas minha maior preocupação é se o Brasil precisa construir grandes barragens na Amazônia, em primeiro lugar", diz Roland Widmer, um ativista da divisão paulista do grupo ambientalista Amigos da Terra - Amazônia Brasileira.

O tom mais verde da barragem não se deve a nenhum pendor ambientalista especial da parte dos construtores. Ele reflete um cálculo sobre os imprevisíveis custos extras que podem ser causados por processos ambientais, protestos indígenas e reações políticas.

"No final, tudo são negócios", disse Gabriel Azevedo, um ex-executivo do Banco Mundial e da organização conservacionista World Wildlife Fund que ocupa o cargo de diretor de sustentabilidade da divisão de energia da maior construtora do país, a Odebrecht SA. Entre os projetos da empresa, de capital fechado, está um túnel de 20 quilômetros através dos Andes para levar água da Amazônia para o Peru. Ela está na obra com a Andrade Gutierrez SA, também de capital fechado.

O plano do Brasil prevê uma rede de usinas em três grandes afluentes do Amazonas, que não vai ser represado. A Santo Antônio está no Madeira, ele próprio um dos maiores rios do planeta. Algumas usinas serão nas partes peruana e boliviana da selva.

Ao todo, o Brasil quer construir até 24 usinas na Amazônia nos próximos 10 anos, a um custo em torno de US$ 100 bilhões. Num país que já obtém 80% de sua eletricidade com hidrelétricas, elas estão no centro de um plano para aumentar a capacidade geradora em 60% até 2019, para uma economia que está crescendo a taxas bem altas.

As barragens representam mais do que eletricidade. Elas são projetadas para criar canais que abrem para o tráfego de barcaças algumas corredeiras antes intransponíveis, ajudando produtores de soja e madeira a levar seus produtos ao mercado.

Opositores da barragem dizem que o Brasil deveria considerar alternativas como melhorar as usinas existentes em outras regiões, antes de invadir uma área biologicamente tão rica e tão importante para o clima global quanto a Floresta Amazônica. Eles dizem que os potenciais impactos do plano do Brasil - que inclui novas estradas, minas, fazendas e desflorestamento - ainda não foram estudados o bastante.

Defensores da usina, entre eles a candidata líder nas pesquisas Dilma Rousseff, retrucam que o Brasil seria tolo se não usasse a Amazônia, porque hidroeletricidade é mais barata e mais limpa do que opções como carvão, e a maioria dos rios ainda não represados está na floresta tropical.

O Brasil tem sonhado com uma rede de usinas na Amazônia desde os tempos da Transamazônica e das tentativas frustradas do governo militar de fazer assentamentos na região. O que torna a construção de usinas tão interessante para construtoras agora é o prospecto de vender eletricidade.

Conforme o modelo adotado no fim dos anos 90, as contrutoras ganham concessões de 30 anos para operar as represas. Construindo com o próprio dinheiro - ainda que com financiamento subsidiado - elas têm incentivo para fazer o trabalho de forma rápida e eficiente. Quanto mais rápido elas terminarem, mais rápido poderão começar a vender energia.

Uma outra barragem, a de Jirau, está sendo construída no mesmo rio, em Rondônia; contratos para outras duas foram concedidos em agosto, e existe um leilão para outras previsto para dezembro.

Vista à distância, Santo Antônio parece uma cidade de concreto e andaimes despontando ao longo do rio. Grandes caminhões parecem brinquedos perto do gigantesco projeto, e no horizonte, um toldo verde de selva se espalha por quilômetros.

O trabalho não para, a noite iluminada por fortes holofotes presos a andaimes e guindastes. Todos os meses, os trabalhadores despejam o concreto suficiente para construir um prédio de cem andares. Eles também consomem 12.000 frascos de repelentes de pernilongos por mês.

O local foi identificado por José Bonifácio Pinto, um engenheiro da Odebrecht que começou a explorar a vasta região do Madeira anos atrás. A favor do local, contou a escassez de tribos indígenas, o que significa menos disputas, e a proximidade a uma cidade de porte médio, Porto Velho, que poderia ser a base para trabalhos como a produção de cimento.

O maior impacto ambiental de uma barragem acontece quando a área que fica atrás dela é inundada, matando plantas e animais e desalojando pessoas. Na Amazônia, este efeito é ampliado, já que os animais selvagens podem ser raros ou não catalogados. E como a região é muito plana, mesmo uma barragem pequena inunda uma grande área.
 

As grandes barragens da era militar inundaram áreas amplas com águas rasas pantanosas. A vegetação ensopada produziu metano, um potente gás do efeito estufa. Os insetos se multiplicaram nas águas estagnadas, forçando a população local que vivia à beira do rio a fugir para dentro da selva, onde ela se afundou numa pobreza ainda maior.

Para reduzir o alagamento de Santo Antônio, os seus construtores decidiram usar "turbinas bulbo", que produzem eletricidade a partir do fluxo natural do rio, em vez de exigir água em alta pressão.

As turbinas do tipo bulbo existentes eram pequenas e não conseguiam produzir muita energia. Para obter versões mais poderosas, as construtoras contrataram a francesa Alstom e a germano-austríaca Voith Hydro, que desenvolveram as turbinas que parecem gordos torpedos de três andares de altura.

Usando essas turbinas, Santo Antônio vai alagar uma área de cerca de cerca de 250 quilômetros quadrados, muito da qual já é inundada naturalmente em anos de cheia, em vez dos cerca de 3.000 quilômetros quadrados, que uma barragem tradicional inundaria.

Mas ela vai gerar apenas um quarto da energia que uma barragem tradicional com uma grande reserva poderia fazer. Então, o Brasil precisa construir mais barragens para conseguir a mesma quantidade de energia.

Esse é a opção que Pinto, da Odebrecht, diz não ser totalmente apreciada. "O Brasil só pode acompanhar a demanda de energia se construírmos barragens desta forma, e nunca realmente ir além disso", diz ele. "Mas essa discussão é impossível nos dias de hoje."

Mesmo reduzindo o alagamento, a represa vai deslocar 1.400 famílias. O Movimento de Afetados por Represas tentou iniciar protestos, mas a maioria deles fracassou.

Uma razão é que para abrigar os que serão afetados, em sua maioria moradores de barracos de madeira, as contrutoras estão levantando comunidades à beira do rio com ruas iluminadas, calçadas e casas modestas idênticas. Algumas famílias que não vivem na área que será alagada estão tentando mudar para lá, na esperança de ganhar uma dessas casas.

Encontrar mão de obra trouxe alguns desafios. Porto Velho poderia fornecer 30% dos 12.000 trabalhadores necessários. Isso implicaria o influxo de milhares de migrantes, o que poderia causar problemas sociais.

Então, os contrutores lançaram um grande programa de treinamento, que até o momento já treinou 20.000 pessoas. Hoje, em torno de 80% dos trabalhadores da represa são locais.

Uma delas é Arlicen Batista Gomes, de 30 anos. Mãe de sete filhos, ela estava vivendo com dificuldade com uma renda mensal de cerca de R$ 200, do trabalho de faxineira, quando viu o anúncio do treinamento gratuito. Agora, ela é uma carpinteira e ganha cerca de R$ 1.200. "Esta é a primeira oportunidade real que eu tive de fazer algo na vida", diz ela.

As empreiteiras também criaram escolas e centros de saúde. Técnicos de saúde visitam os assentamentos em motocicletas, em busca de casos de malária. Cientistas foram contratados para monitorar o lodo, que pode afetar a agricultura depois que a represa tiver sido construída.

Os críticos duvidam que essas inovações venham a ser replicadas em todas as outras represas que o Brasil planeja para a Amazônia. Alguns projetos que prometeram manter os mesmos padrões já estão falhando.

Rio acima, a francesa GDF Suez SA e a Camargo Correa SA estão construindo uma outra barragem de baixo impacto, a de Jirau. Nos fins de semana, os empregados do projeto estão lotando a pacata cidade vizinha de Jaci Paraná, transformando-a em uma violento centro de prostituição. A Suez diz que tem um plano abrangente para reduzir os efeitos do projeto e já tomou medidas para melhorar a situação.

Fonte: John Lyons - Valor Econômico
 

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