Segunda-feira, 12 de junho de 2023 - 14h41

O cidadão brasileiro
trabalha 153 dias do ano apenas para pagar tributos. A carga é pesada. Um
trabalhador com remuneração mensal de dois salários-mínimos devolve todo mês
aos governos federal, estadual e municipal, na forma de tributos, no mínimo R$
386,82. Ou seja, 28,27% dos rendimentos desse trabalhador vão,
compulsoriamente, para os cofres públicos. É muita coisa e compromete
sobremaneira o orçamento dos que ganham pouco.
Brasileiros com menor
renda se sacrificam muito para adquirir os produtos da cesta básica,
encarecidos sobretudo pela carga de tributos incidente sobre eles. O imposto
sobre a carne, por exemplo, é de 29%. Sobre o açúcar, de 30,60%. Do preço do
papel higiênico, 32,55% são impostos. Nos serviços públicos, a incidência de
impostos é igualmente pesada: 48,28% sobre a conta de energia, 24,02% sobre a
conta de água e 26,39% sobre juros bancários (um contrassenso, pois quanto mais
altos os juros, maior a arrecadação tributária do governo).
Isso acontece porque
o Brasil adota um sistema tributário regressivo, no qual cerca de 44% de tudo o
que é arrecadado pelos três entes federativos (União, Estados e Municípios)
advêm dos impostos incidentes sobre o consumo.
Tão grave quanto é o
fato de que outros 23% da receita dos impostos são obtidos com a tributação
sobre a renda. Nos países desenvolvidos como Estados Unidos, Japão, Reino
Unido, Canadá e Itália ocorre justamente o contrário: a tributação sobre a
renda é sempre maior que a sobre o consumo.
Além disso, o
trabalhador brasileiro sofre com a defasagem na correção da tabela do Imposto
de Renda e das aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. O justo e o correto
seria o governo corrigir tais tabelas anualmente, com base na inflação
acumulada nos 12 meses anteriores.
Ao não adotar essa
medida, o governo está, na prática, tributando inflação porque as faixas
salariais corrigidas pelos índices inflacionários acabam superando a renda
limite para a isenção do IR. E, sabidamente, tal correção não pode ser
entendida como renda, uma vez que se trata de mera reposição inflacionária. Eis
uma questão duplamente reprovável: os governos não foram capazes de controlar a
inflação e o povo é obrigado a pagar por tal incompetência.
Esses númeross são
suficientes para demonstrar a urgência de o país realizar a reforma tributária.
O governo reconhece que essa reforma é fundamental para o Brasil e divulga que
ela viabilizará o crescimento da economia em, no mínimo, 12% a mais. Planeja-se
a adoção do Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) e a substituição de quatro
tributos por um novo, o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), conforme duas
Propostas de Emenda Constitucional que tramitam no Congresso.
Não há tempo a
perder. Já se vão quase seis meses do novo governo e, em julho, o Congresso
Nacional entrará em recesso. Se quiser de fato avançar na reforma, o governo
terá de acelerar porque 2024 será ano de eleições municipais, o que
rotineiramente prejudica o andamento dos projetos mais importantes no
Parlamento.
Fortalecer a economia
é essencial para o país voltar a crescer. O Brasil, que já foi a 8º economia do
mundo, hoje ocupa apenas a 12ª posição nesse ranking. A questão maior,
entretanto, é que para isso o país precisa repensar o seu sistema de tributação
com olhos mais atentos ao consumidor, notadamente os quase 53 milhões de
brasileiros que vivem em situação de pobreza ou extrema pobreza e que encontram
enormes dificuldades para adquirir os produtos da cesta básica.
É preciso ainda uma
completa revisão na concessão dos benefícios fiscais, que correspondem a 4,30%
do PIB – algo em torno de R$ 453 bilhões/ano da União e mais R$ 50 bilhões/ano
dos estados (0,50% do PIB) – e são mantidos apesar de descumprirem, em larga
medida, a Constituição Federal de 1988 e Leis Complementares.
A irresponsabilidade
na concessão de benefícios fiscais sem regressividade ao longo do tempo e sem
nenhum mecanismo de
avaliação prática e o
sistema tributário em sua concepção atual são os maiores contributos para a
manutenção e agravamento das desigualdades sociais (e também das desigualdades
regionais). Brasileiros com menor renda são os mais penalizados, assim como
aqueles que vivem nas regiões Norte e Nordeste, uma vez que 63% do total dos
gastos tributários beneficiam as duas regiões mais ricas e desenvolvidas do
país (Sudeste e Sul).
O Brasil precisa se
libertar urgentemente dessa camisa de força para retomar o desenvolvimento com
melhor distribuição de renda, corrigindo, com isso, antigas e graves distorções
que sacrificam a maior parcela da população.
*Samuel Hanan é engenheiro com especialização nas áreas de
macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi
vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à
deriva” e “Caminhos para um país sem rumo”. Site: https://samuelhanan.com.br.
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