Sexta-feira, 13 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Cultura

Escritores Uberabenses


 

Guido Bilharinho

O escritor José Humberto Silva Henriques é o maior e provavelmente o mais consistente, inventivo e multiforme fenômeno literário já surgido no Brasil, com atualmente (outubro/2015), mais de 270 (duzentas e setenta) obras escritas nos gêneros romance (o mais cultivado), conto, novela literária, textos, poemas, visuais, ensaios estéticos, peças de teatro e, também, o ensaio poéticoAraguaia de 2010. Todas de alta qualidade e, algumas, grandes obras-primas, como o romance Pernaiada.

Escritores Uberabenses - Gente de Opinião

Araguaia, o grande rio que, unindo-se ao Tocantins, desagua no Amazonas, é o tema do ensaio poético de Silva Henriques.

“O rio mais bonito do mundo”, como proclama, é revolvido desde as entranhas à beleza incontida do esplendor de sua portentosa massa líquida, desprezada, no entanto, toda descrição geográfica e meramente física, com entronização em seu lugar da beleza das palavras que o traduzem e o resumem em sua natureza, pertinência e constância, partilhando e compartilhando seu corpo aquático com a flora e a fauna que medram em seu interior, bordas, orlas e ares.

Tanto um (o rio) quanto outro (tudo o mais) não são mimetizados em prosaísmo naturalístico que se compraz em incursões meramente descritivas.

O que se trabalha nesse ensaio é o cerne que o constitui e as manifestações de vida que propicia no interior de seu leito e às suas margens, que ele conforma e confirma à sua imagem e semelhança.

O rio, a água, onipresenças, alicerces e fundamentos da monumental catedral gótica vocabular e nomenclatural da fauna e da flora, cujos espécimes vivem e vicejam às suas margens, tão viscerais quanto a massa d’água e que, ao mesmo tempo que a cercam por ela são formadas, conformando-se e se indispensabilizando uma à outra.

A epopeia fluvial de Henriques se perfaz em riqueza imaginativa e léxica, em pessoal e intransferível criação poética. Sobre o real existente, o rio e seus flancos, a fauna e a flora que criam e sustentam, constrói-se outra realidade, a da percepção e criação intelectual, que os valorizam, expõem e decifram.

Araguaia, de Silva Henriques, é invenção e decifração. Nada do que fala e expõe é descritivo e prosaico. Invenção e decifração, suma e súmula.

Nele, no rio, deslizam as águas e vivem e sobrevivem espécies variadas. Desde esse ensaio, sobrepairam sobre essas águas e seus habitantes, agregados e marginais a palavra e a percepção poética, extraídas dessa e motivadas por essa realidade natural.

Inventiva, reveladora e compreensiva, a palavra de Silva Henriques percorre e discerne o rio e o qualifica e conceitua.

Desde então, desde que passou a existir, esse poema-rio, tão líquido, flexível, móbil e coleante quanto o caudal que contempla, canta e proclama, integrou-se à paisagem, não se podendo mais, pois, usufruir-se e inteirar-se do rio quem não se inteirar e usufruir do poema.

Não é simples vestimenta que o cobre e o acompanha, mas sua própria pele, a ele aderida sem possibilidade de retirada e descarte.

Pode-se ver e navegar o rio, nele pescar e mergulhar, mas nunca conhecê-lo e interpretá-lo sem o Araguaia de Silva Henriques, que não é outro Araguaia, mas, o próprio, observado, entendido e desvendado.

Nele, no poema, as palavras, como as águas, não se esgotam, não se esvaem, correndo sempre, contínua e persistentemente amolgadas à sua mais íntima natureza e consistência. Para sempre.

A beleza eterna do rio propicia a beleza eterna da arte, por obra e graça da intervenção e da invenção humana.

(do   livro   Literatura   e   Estudos

Históricos em Uberaba, no prelo)

_______________

Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de literatura (poesia, ficção e crítica), cinema (história e crítica), história do Brasil e regional.

Gente de OpiniãoSexta-feira, 13 de março de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Rondônia participa de debate nacional sobre fortalecimento das políticas culturais no Brasil

Rondônia participa de debate nacional sobre fortalecimento das políticas culturais no Brasil

O governo de Rondônia por meio da Secretaria da Juventude, Cultura, Esporte e Lazer de Rondônia (Sejucel) participa da 1ª Reunião Ordinária Anual do

Apresentação de “e daí?” de Viriato Moura no buraco do candiru

Apresentação de “e daí?” de Viriato Moura no buraco do candiru

O cenário artístico de Rondônia sempre teve em Viriato Moura uma de suas figuras mais multifacetadas. Médico por profissão e artista por vocação, su

II Mostra de Cinema dos Invisíveis circula com exibição de filmes gratuitos em bairros da capital e comunidades ribeirinhas

II Mostra de Cinema dos Invisíveis circula com exibição de filmes gratuitos em bairros da capital e comunidades ribeirinhas

Filmes produzidos na Amazônia serão destaque da Mostra de Cinema dos Invisíveis, que será realizada no período de 12 a 20 de março em Porto Velho e

Destino da Pele e Beira: exibição de curtas propõe reflexão sobre racismo, espiritualidade e diversidade

Destino da Pele e Beira: exibição de curtas propõe reflexão sobre racismo, espiritualidade e diversidade

O primeiro cenário é a cidade fronteiriça de Guajará-Mirim, território marcado pelo encontro de culturas, pela força da fé e por histórias que atrav

Gente de Opinião Sexta-feira, 13 de março de 2026 | Porto Velho (RO)