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Silvio Persivo

Talvez ser inculto não seja tão ruim


Talvez ser inculto não seja tão ruim - Gente de Opinião

Hoje me pego pensando que, algumas vezes, já fui culto. E ser culto não é, embora para muitos pareça ser, ler muito livros, e, neste particular, desde muito cedo, fui um leitor voraz, mas sim, possuir uma cultura sólida, o que não tem nada a haver com bacharelesca. E sim com a visão de mundo. Entendo, na maior parte da vida entendi, que ser culto é ser capaz de compreender seu mundo, e, malgrado a sua complexidade, ter parâmetros que possibilitem uma visão integrada, uma visão de mundo que possa ser orientadora de nossos passos. É verdade que se trata de uma definição ampla que pode abarcar tanto um religioso, quanto um marxista ou até mesmo quem é sábio por natureza, capaz de ver na simplicidade e no prazer dos dias um sentido. Aliás, falo em culto quando deveria dizer que já fui uma pessoa culta, uma pessoa que tem cultura, que é instruída, civilizada ou informada, que tem conhecimento sobre vários assuntos e consegue organizá-los para a vida, por ter compreendido como deve viver. E, como sou uma pessoa do século passado, nascido exatamente na metade do século passado, sou de uma geração que viu o mundo passar de uma realidade aparentemente semiestática para o relativismo atual, a fragmentação do mundo ou, como é tratado por muitos, o atual mal estar da civilização. Em algumas coisas vivi atrasado mesmo. Devo confessar que quando fui participar da geração do sexo, das drogas e do Rocn’N’Roll cheguei um pouco atrasado. No começo, hoje reconheço, ter sido um pouco elitista, influenciado por meu pai que via na moda de usar o idioma inglês e de imitar seus costumes, um fator de desagregação social e de decadência dos costumes. Assim via os Beatles com certa relutância, como uma banda de musicalidade, porém barulhenta e com umas letras inocentes e meio bobocas. Estava errado é certo. E logo vi em Roberto Carlos a inovação que representava com suas camisas de gola russa, que adorei, e os cabelos longos. O mundo mudou celeremente a partir dos cabeludos de Liverpool. E minha visão passou da literatura para a política. Até tentar aprender alemão tentei para ler Marx no original e só consegui me apaixonar pela professora de alemão. E era muito careta. Queria ter consciência tanto que foi a cerveja, a primeira droga que usei depois do primeiro porre de cachaça no trote de faculdade de Economia. Isto é sim uma rememoração sobre meu passado e as mudanças. Com base no fato de que faz tempo que não me sinto uma pessoa de cultura. Não é porque tenho que aprender com jovens coisas sobre computadores ou celulares. E sim porque, embora em algumas áreas tenha uma visão muito clara do que vai acontecer, ou seja, saiba separar a informação dos ruídos, não consigo mais, como em algumas vezes, no passado, ter um sentido, ter, apesar do meu otimismo, uma visão coerente das coisas, do futuro. Talvez também o mundo tenha sido sempre assim e não conseguisse enxergar. Talvez...O que me consola não é que existam muito mais pessoas que nem esta visão conseguem ter, todavia sim que isto não tem a menor importância. Constato apenas que sou um sobrevivente e, como tal, devo ser o mais feliz possível. Talvez este seja o real sentido da vida. 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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