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Silvio Persivo

Carnaval no Norte e os desafios da economia criativa regional


Carnaval no Norte e os desafios da economia criativa regional - Gente de Opinião

Cidades do Norte do Brasil, como Belém, Manaus e Porto Velho, têm experimentado, nos últimos anos, uma transformação significativa em seus carnavais. Com a “Banda do Vai Quem Quer” de Porto Velho, como exemplo, e outros blocos tradicionais, essas festas vêm atraindo crescente número de turistas nacionais e internacionais, impulsionadas pela ampliação da malha aérea e pela valorização das experiências culturais e gastronômicas únicas da região amazônica. Os investimentos em infraestrutura e segurança têm permitido que as festas ampliem seu alcance, contribuindo para a geração de renda e empregos. No entanto, por trás dos números positivos e do crescimento turístico, persiste uma queixa recorrente: o carnaval do Norte e a economia criativa regional não recebem o mesmo apoio que as festas consolidadas do Sudeste e Nordeste do país.

Os blocos tradicionais e grupos culturais da região amazônica enfrentam um paradoxo: enquanto suas festas ganham visibilidade nacional e internacional, os organizadores relatam dificuldades crescentes para viabilizar os desfiles. As principais reclamações incluem a falta de apoio institucional consistente, exigências burocráticas excessivas e, em alguns casos, o uso político das festas por autoridades que veem no carnaval apenas uma plataforma para promoção pessoal, sem compromisso real com o desenvolvimento da cultura local. Esta contradição revela uma questão estrutural: a economia criativa do Norte permanece subfinanciada e subvalorizada em comparação com outras regiões do país, apesar de seu inegável potencial econômico e cultural. O resultado é um cenário onde o sucesso público das festas não se traduz em sustentabilidade para os produtores culturais que as constroem.

Para reverter esse quadro e consolidar o carnaval do Norte como patrimônio cultural sustentável, algumas medidas podem ser implementadas:

1)     A criação de fundos permanentes para a cultura regional. Os fundos permanentes garantem previsibilidade aos produtores culturais, permitindo planejamento de longo prazo. Esses fundos devem ter critérios técnicos de distribuição, com participação de conselhos culturais representativos, evitando a distribuição política dos recursos;

2)     Desburocratização dos processos de licenciamento. A criação de balcões únicos para obtenção de licenças, alvarás e autorizações pode reduzir significativamente o tempo e o custo para organização dos blocos. Processos digitais e prazos claros também contribuem para maior transparência e eficiência administrativa;

3)     Programas de capacitação e profissionalização. Investir na formação de gestores culturais, técnicos de produção e empreendedores criativos fortalece toda a cadeia produtiva do carnaval:

4)     Editais com antecedência e continuidade. A publicação de editais de fomento com pelo menos seis meses de antecedência permite que os grupos se preparem adequadamente. Além disso, editais plurianuais oferecem segurança para projetos de maior fôlego e estimulam o desenvolvimento artístico consistente;

5)      Criação de espaços permanentes para ensaios e produção. A disponibilização de galpões culturais, centros de criação e espaços de ensaio gratuitos ou subsidiados reduz drasticamente os custos operacionais dos blocos e grupos;  

6)     Estruturação de programas de turismo cultural integrado. Articular o carnaval com outras manifestações culturais e atrativos regionais (gastronomia amazônica, turismo de natureza, festivais de música) pode ampliar o impacto econômico e descentralizar os benefícios para além do período carnavalesco.

Algumas cidades brasileiras demonstram como o apoio efetivo ao carnaval pode gerar resultados positivos para toda a comunidade. São exemplos, Salvador (BA), Recife e Olinda (PE), São Paulo (SP) e, mais recentemente,  Belo Horizonte (MG) e Florianópolis (SC).  São bons exemplos e é preciso entender que o carnaval do Norte possui características únicas que merecem ser preservadas e potencializadas. Para isto, é fundamental que as políticas públicas reconheçam essas especificidades e haja apoio para fortalecer as raízes culturais locais e valorização dos mestres da cultura popular.  Porém, um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento sustentável do carnaval do Norte tem sido a instrumentalização política das festas. Quando autoridades utilizam os recursos culturais primariamente para autopromoção, cria-se um ciclo vicioso de dependência e instabilidade. A cultura não deve ser refém de ciclos eleitorais ou interesses políticos momentâneos. Cabe aos gestores públicos do Norte do país escolher: repetir modelos ultrapassados de apropriação política da cultura ou construir, em parceria com os verdadeiros protagonistas da festa, um carnaval que seja, de fato, patrimônio de todos e motor de desenvolvimento regional sustentável. A Amazônia tem muito a ensinar ao Brasil sobre diversidade, resistência e criatividade. Está na hora de seu carnaval receber o reconhecimento e o apoio que merece.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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