Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Silvio Persivo

O sinal de alerta ao País do faz de conta



Silvio Persivo(*)

Na semana passada foi notícia em toda a imprensa o resultado do Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos, que se trata de um ranking organizado pela  Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é aplicado a 470 mil alunos de 15 anos, oriundos de 65 países industrializados, incluindo países emergentes, que é, sistematicamente, feito de três em três anos para comparar os níveis e os investimentos em educação nos diversos países. Infelizmente, como é do conhecimento geral, o Brasil, neste século XXI, tem se notabilizado por não sair das últimas posições. Por mais que se tente despistar o vexame, a realidade é que estamos em 55.º lugar em leitura e compreensão de texto; em 58.º na matemática e 59.º em ciências, e, no cômputo geral, em 55º lugar.

Não é surpresa para ninguém este resultado. Efetivamente a educação somente tem sido prioridade no discurso político e está longe de ser na prática, no dia à dia. Em relação à educação, em todos os campos, há muita retórica e pouca mudança. A grande realidade é que os professores, além de mal pagos, estão completamente desamparados em escolas normalmente em nada (e muitas vezes em condições muito piores) do que as  do século passado. Cobra-se do professor que resolva os problemas da educação quando ele, como os alunos, acabam sendo as maiores vítimas de um sistema que os condena a serem olhados como coitadinhos, como mera massa de manobra, e de pancada, para a inércia que torna o sistema educacional o setor mais atrasado de nossa realidade.

Há uma completa pasmaceira, que é coberta por planos e promessas falaciosas, como a de investir 10% do PIB na educação. Investir mais dinheiro na educação do jeito que está é o mesmo que insistir em tratar o doente dando mais de um remédio que não funciona. A questão real não é dinheiro, embora o dinheiro possa ajudar, mas, sim de instrumentos, de gestão, de determinação de mudar, de fato, a educação no País. Um exemplo fantástico disto é o de que, enquanto as universidades federais e seus cursos aumentam o número de alunos em condições precárias, se gastam milhões na criação de novas universidade e escolas técnicas, em geral em edificações, por razões bastante plausíveis politicamente, mas, que não resolvem nada em termos educacionais.

Somos um país no qual se cobra dos professores a produtividade dos professores norte-americanos, que ganham 20% a mais do que a média de todos os salários do país, enquanto os pobres professores brasileiros ganham 20% a menos. Como a carreira não é atraente será que os melhores a procurarão? E, muitos, sem o menor preparo, desprestigiados e desanimados, ainda enfrentam na sala de aulas jovens que vivem no tempo da internet, dos vídeos, dos audiovisuais e dos games, com cuspe e giz. Como resultado será que é de estranhar que 5,3 milhões de brasileiros, entre 18 e 25 anos, não estudam nem trabalham? Será que espanta saber que 23% dos jovens da faixa etária avaliados pelo Pisa não estão sequer na escola e que 70% deles são mulheres, pessoas que, em tempos passados, seriam as sementes de grandes professoras? É tempo de  olhar os resultados do Pisa como o que eles são: o fracasso do modelo político brasileiro. Um sinal de alerta de que é preciso acabar com o País de faz de contas e construir o Brasil real e  começar por cuidar, de fato, da educação.

(*) É Doutor em Desenvolvimento Sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia-NAEA/UFPª.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 21 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Não subestime os mais velhos: eles são você amanhã, se sobreviver

Não subestime os mais velhos: eles são você amanhã, se sobreviver

O envelhecimento, tal como o conhecíamos, está passando por uma profunda transformação. Durante décadas, completar 60 anos significava, quase autom

O “samba do crioulo doido” de 2026: crise no país e fé no próprio taco

O “samba do crioulo doido” de 2026: crise no país e fé no próprio taco

O Brasil ingressa em 2026 vivendo uma contradição que desafia os manuais da economia tradicional, mas traduz com precisão a psicologia social do paí

Reflexões transitórias de fim de ano

Reflexões transitórias de fim de ano

Sim, minha querida, estou preso em mim mesmo. Nunca poderei deixar de ser eu mesmo. O mundo, o meu amor por você somente pode existir se meu “eu” ex

Split Payment: o Grande Desafio para os Negócios em 2026

Split Payment: o Grande Desafio para os Negócios em 2026

A partir do próximo ano, o Brasil, por força da reforma tributária, irá começar a implantar o split payment, um mecanismo que modifica a forma como

Gente de Opinião Quarta-feira, 21 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)