Sábado, 21 de março de 2026 - 09h45

Recebi do amigo Samuel Castiel
o livro A Minha Visão de Mundo, do também médico Carlos Alberto Brasil
Fernandes. Ao me entregá-lo, limitou-se a dizer que havia colaborado para sua
publicação por já conhecer trechos da obra e considerá-los dignos de alcançar o
público. Este gesto inicial já carrega uma espécie de aval silencioso-não de
quem pretende impor uma leitura, mas de quem reconhece valor na inquietação do
pensamento.
A primeira impressão é de
enigma. A capa azul, com sutis nuances entre tons de rosa e de laranja, não
oferece pistas claras sobre o conteúdo. A contracapa sugere tratar-se de uma
obra filosófica de temas diversos, e o breve prefácio apenas reforça esta ideia
ao mencionar reflexões pessoais que transitam por diferentes campos do
pensamento, marcadas por uma tensão recorrente entre ciência e religião.
Esta tensão, contudo, não se
resolve- e talvez nem se pretenda resolver. À medida que se percorrem as
páginas, percebe-se que o autor não busca conclusões definitivas. Ao contrário,
parece encontrar certo deleite na manutenção da dúvida, como se o próprio ato
de questionar fosse mais relevante do que qualquer resposta possível. Há, neste
sentido, um método implícito: textos que funcionam como pequenas doses diárias
de reflexão, quase como comprimidos intelectuais administrados ao leitor.
Mesmo quando se aventura por
temas grandiosos- as origens do universo, o cosmos, o alfa e o ômega-, Carlos
Alberto não se prende a ortodoxias. Rejeita a astrologia como ciência, mas
reconhece o valor simbólico de mitos e lendas. Esta postura revela um traço
importante de sua escrita: mais do que oferecer certezas, ele constrói provocações.
Seu vasto repertório intelectual não se converte em dogma, mas em estímulo ao
pensamento.
Esta vocação provocativa,
quase silenciosa, se evidencia em passagens que instigam o leitor a
reconsiderar noções aparentemente consolidadas. Ao afirmar, por exemplo, que em
todas as espécies o macho tende a ser mais belo que a fêmea -exceto na espécie
humana-, ele não busca uma conclusão científica, mas abre um campo de reflexão.
Do mesmo modo, ao tensionar o ateísmo com a ideia de que Deus pode surgir da necessidade
humana de dar forma ao desconhecido, não encerra o debate; antes, amplia-o.
Há, ainda, uma dimensão
importante em sua abordagem: o reconhecimento dos limites do conhecimento
material. Diante das questões últimas- a existência de Deus, a origem de tudo-,
o autor sugere que a resposta escapa ao campo da razão empírica. Neste
contexto, a fé aparece não como imposição, mas como elemento estruturante das
experiências espirituais e religiosas. Ainda assim, ele evita afirmações
categóricas, preferindo manter-se no terreno da hipótese e da reflexão.
Mesmo quando tangencia o
evolucionismo, não o faz de maneira ortodoxa. Tudo é tratado como parte de um
processo- um processo vasto, contínuo e, em grande medida, inexplicável. Esta
visão processual do universo reforça a ideia de que a realidade não se oferece
pronta à compreensão humana, exigindo constante revisão e abertura.
A erudição do autor é
inegável. Seus textos dialogam com correntes e pensadores diversos, do marxismo
a Thomas Hobbes, de Ludwig Feuerbach a Georg Wilhelm Friedrich Hegel, passando
por Jean-Jacques Rousseau e Friedrich Nietzsche, entre outros. Ainda assim,
essa densidade teórica não torna a leitura hermética. Pelo contrário: a
linguagem é simples, direta, quase coloquial, o que amplia o alcance da obra
sem diluir sua profundidade.
Talvez por isso seja difícil -
e até inadequado - tentar sintetizar o livro em uma única interpretação. É um
visão que, de certa forma, encara tudo com seriedade, quem sabe fruto da
formação do autor, pois o humor que possui quase pede licença por existir. É
sutil como-tratando dos assuntos que trata-lembra que o sapateiro não deve ir
além das sandálias ou ao examinar as características do diabo para
classificá-lo como herbívoro e quase santo. O certo é que sua natureza
fragmentária e multifacetada convida a uma leitura desacelerada, em que cada
texto pode ser apreciado isoladamente. Há uma espécie de sabedoria na forma
como a obra se oferece: não como um sistema fechado, mas como um mosaico de
ideias que se completam e se contradizem.
No fim, a maior virtude de A
Minha Visão de Mundo reside justamente nesta capacidade de inquietar. É um
livro que não se esgota em si mesmo, pois continua a reverberar no pensamento
do leitor. Sob a aparência de simplicidade, esconde-se uma escrita crítica,
reflexiva e profundamente instigante- uma obra que não pretende ensinar
verdades, mas provocar perguntas.
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