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Silvio Persivo

As provocações de Carlos Alberto Brasil Fernandes

Entre a Ciência e a Fé: Provocações Intelectuais do livro A Minha Visão de Mundo


As provocações de Carlos Alberto Brasil Fernandes  - Gente de Opinião

Recebi do amigo Samuel Castiel o livro A Minha Visão de Mundo, do também médico Carlos Alberto Brasil Fernandes. Ao me entregá-lo, limitou-se a dizer que havia colaborado para sua publicação por já conhecer trechos da obra e considerá-los dignos de alcançar o público. Este gesto inicial já carrega uma espécie de aval silencioso-não de quem pretende impor uma leitura, mas de quem reconhece valor na inquietação do pensamento.

A primeira impressão é de enigma. A capa azul, com sutis nuances entre tons de rosa e de laranja, não oferece pistas claras sobre o conteúdo. A contracapa sugere tratar-se de uma obra filosófica de temas diversos, e o breve prefácio apenas reforça esta ideia ao mencionar reflexões pessoais que transitam por diferentes campos do pensamento, marcadas por uma tensão recorrente entre ciência e religião.

Esta tensão, contudo, não se resolve- e talvez nem se pretenda resolver. À medida que se percorrem as páginas, percebe-se que o autor não busca conclusões definitivas. Ao contrário, parece encontrar certo deleite na manutenção da dúvida, como se o próprio ato de questionar fosse mais relevante do que qualquer resposta possível. Há, neste sentido, um método implícito: textos que funcionam como pequenas doses diárias de reflexão, quase como comprimidos intelectuais administrados ao leitor.

Mesmo quando se aventura por temas grandiosos- as origens do universo, o cosmos, o alfa e o ômega-, Carlos Alberto não se prende a ortodoxias. Rejeita a astrologia como ciência, mas reconhece o valor simbólico de mitos e lendas. Esta postura revela um traço importante de sua escrita: mais do que oferecer certezas, ele constrói provocações. Seu vasto repertório intelectual não se converte em dogma, mas em estímulo ao pensamento.

Esta vocação provocativa, quase silenciosa, se evidencia em passagens que instigam o leitor a reconsiderar noções aparentemente consolidadas. Ao afirmar, por exemplo, que em todas as espécies o macho tende a ser mais belo que a fêmea -exceto na espécie humana-, ele não busca uma conclusão científica, mas abre um campo de reflexão. Do mesmo modo, ao tensionar o ateísmo com a ideia de que Deus pode surgir da necessidade humana de dar forma ao desconhecido, não encerra o debate; antes, amplia-o.

Há, ainda, uma dimensão importante em sua abordagem: o reconhecimento dos limites do conhecimento material. Diante das questões últimas- a existência de Deus, a origem de tudo-, o autor sugere que a resposta escapa ao campo da razão empírica. Neste contexto, a fé aparece não como imposição, mas como elemento estruturante das experiências espirituais e religiosas. Ainda assim, ele evita afirmações categóricas, preferindo manter-se no terreno da hipótese e da reflexão.

Mesmo quando tangencia o evolucionismo, não o faz de maneira ortodoxa. Tudo é tratado como parte de um processo- um processo vasto, contínuo e, em grande medida, inexplicável. Esta visão processual do universo reforça a ideia de que a realidade não se oferece pronta à compreensão humana, exigindo constante revisão e abertura.

A erudição do autor é inegável. Seus textos dialogam com correntes e pensadores diversos, do marxismo a Thomas Hobbes, de Ludwig Feuerbach a Georg Wilhelm Friedrich Hegel, passando por Jean-Jacques Rousseau e Friedrich Nietzsche, entre outros. Ainda assim, essa densidade teórica não torna a leitura hermética. Pelo contrário: a linguagem é simples, direta, quase coloquial, o que amplia o alcance da obra sem diluir sua profundidade.

Talvez por isso seja difícil - e até inadequado - tentar sintetizar o livro em uma única interpretação. É um visão que, de certa forma, encara tudo com seriedade, quem sabe fruto da formação do autor, pois o humor que possui quase pede licença por existir. É sutil como-tratando dos assuntos que trata-lembra que o sapateiro não deve ir além das sandálias ou ao examinar as características do diabo para classificá-lo como herbívoro e quase santo. O certo é que sua natureza fragmentária e multifacetada convida a uma leitura desacelerada, em que cada texto pode ser apreciado isoladamente. Há uma espécie de sabedoria na forma como a obra se oferece: não como um sistema fechado, mas como um mosaico de ideias que se completam e se contradizem.

No fim, a maior virtude de A Minha Visão de Mundo reside justamente nesta capacidade de inquietar. É um livro que não se esgota em si mesmo, pois continua a reverberar no pensamento do leitor. Sob a aparência de simplicidade, esconde-se uma escrita crítica, reflexiva e profundamente instigante- uma obra que não pretende ensinar verdades, mas provocar perguntas.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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