Terça-feira, 3 de junho de 2014 - 10h50
Silvio Persivo (*)
Por mais que as autoridades façam discursos otimistas, o fracasso da política atual de desenvolvimento centrada no consumo, torna-se evidente com a pequenina expansão de 0,2%, no primeiro trimestre, acompanhada de inflação alta e um enorme rombo comercial. Não adianta o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desejar atribuir o baixo crescimento brasileiro a algum problema conjuntural ou a fatores externos. É o ambiente econômico, a indústria em declínio e a baixa produtividade que conduzem ao baixo desempenho dos indicadores de nossa economia.
Isto é visível, por exemplo, na pesquisa divulgada pelo IMD, escola de negócios da Suíça, o Índice de Competitividade Mundial, no qual o Brasil perdeu três posições este ano, estando, agora, em 54º lugar, num universo de 60 países analisados. Em quatro anos, desde o início do mandato de Dilma Roussef foram 16 posições perdidas. Nos anos anteriores, o Brasil caiu pelo avanço dos outros países. Em 2014, todavia, não foi o que aconteceu. Perdemos posições por nossos erros, entre eles o aumento de custos derivados da inflação e a baixa inserção do país no comércio exterior e a perda de participação no mercado internacional. São as políticas econômicas desastradas que geram ruídos e incertezas, fruto das medidas voluntaristas e erráticas do governo. Entre estes nada mais nocivo que a tentativa de intervir na fixação de preços e na taxa de lucros, bem como insistir na política econômica heterodoxa de estimular o consumo, em detrimento dos investimentos. Daí a retração dos investimentos e o desestímulo a novos negócios.
As pesquisas de confiança, já fazem algum tempo, seja de que setor econômico, e também das famílias, já sinalizaram o cansaço com as ações do governo que não dão respostas efetivas aos problemas que nos afligem e se traduzem num quadro que beira ao caótico (protestos, depredações, invasões de prédios públicos e privados, violência, corrupção, entre outras coisas). Tudo isto tem a haver com a falta de perspectivas e reflete o esgotamento das políticas de estímulo ao consumo, em especial das “políticas de transferência de renda” e reajustes reais do salário mínimo, que somente são sustentáveis se capazes de atrair novos investimentos que possam responder ao aumento da demanda. De nada adianta manter o desemprego em patamar baixo se, por outro lado, são gerados ruídos que assustam os agentes econômicos e desestimulam os empresários e até os estimulam a investir no exterior. Como o governo não passa segurança aos investidores, a oferta de bens não aumenta, de forma que somente importando para fazer frente a uma demanda mais alta. Com o consumo excessivo, a poupança interna recuou a 12,7% do PIB, no primeiro trimestre deste ano, e os investimentos para 17,7%, o que demonstra que o crescimento pífio do PIB neste primeiro trimestre não tem perspectivas de melhorar. Com este quadro, aumenta a possibilidade do crescimento deste ano ficar abaixo de 1,6%, podendo até recuar a 1,0% ao fim de 2015. Sem mudanças na política econômica iremos continuar patinando em torno de baixos índices de crescimento. Sem investimento não existe maior capacidade produtiva, nem crescimento da produção. E não há discurso ou milagres que desmintam esta dura realidade.
(*) É Doutor em Desenvolvimento Sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos-NAEA da UFPª.
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