Porto Velho (RO) sexta-feira, 7 de agosto de 2020
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Sandra Castiel

NATAL - Por Sandra Castiel


 
Mais um natal a ser acrescentado às nossas vidas; em meu caso, e no caso de tantas outras pessoas, quantos natais! Os natais de minha infância, quase todos em Porto Velho, estão devidamente registrados nas lembranças: presépios eram imprescindíveis, mesmo nas casas mais humildes, pois significavam a homenagem à sagrada família. Lembro-me dos inúmeros presépios de minha meninice; todos tentavam reproduzir o cenário onde o espírito mais puro que já pisou na terra veio ao mundo: um estábulo! Nascido o menino, ele teria sido envolto em panos e deitado em uma manjedoura, peça rústica criada para alimentar animais; normalmente as manjedouras ficavam no interior dos estábulos. As figuras de Maria e José, feitas de barro e vestidas em cores fortes, ladeavam a pequena manjedoura coberta de palha, para lembrar que aquele local era pobre e improvisado. Havia também outros personagens, figuras estas cujo número estava relacionado ao custo do presépio: pequenos animais, inúmeras ovelhinhas brancas, e até os três reis magos, cada um trazendo nas mãos o respectivo presente: ouro, incenso e mirra.  

Nos natais de minha infância não havia riquezas; não se esquecia, como hoje, o objetivo da celebração. Claro que havia presentes para as crianças, conforme a tradição começada pelos reis magos; mas os presentes em minha casa eram simples; mais simples ainda eram os presentes da vizinhança: a maioria das casas em Porto Velho era de madeira, encravadas no chão, muitas cobertas de palha e algumas cobertas de zinco. Minha família era considerada rica naquele bairro, porque nossa casa era de alvenaria.

Além do presépio, as famílias armavam a árvore de natal, não raramente improvisada com galhos de árvores cobertos de algodão, onde eram penduradas caixas de fósforos forradas com papel de presente.  A ceia era um jantar melhorado e acrescido de algumas castanhas portuguesas ( para os que pudessem comprar) e as chamadas fatias paridas, como a gente do Norte costuma chamar as rabanadas; em Porto Velho, também havia outros alimentos natalinos, como nozes, tâmaras e avelãs.

Na casa de minha família, minha mãe não abria mão de sua árvore de natal comprada há muitos anos; orgulhosa, pendurava bolas natalinas inquebráveis, haja vista o número grande de crianças na casa. Esta decisão fora tomada, porque em um dos natais, quando minha mãe havia acabado de armar a árvore com bolinhas de vidro de todas as cores, figuras de Papai Noel, anjinhos, bengalas, estrelas e tantos outros enfeites, minha irmã Sônia, menina sapeca, entrou na sala, encantou-se com tudo aquilo e, abraçando a árvore de natal, exclamou:- “Que coisa linda!” Assim, presenciamos o momento em que ela e a árvore tombaram ao chão: não sobrou um enfeite sequer. Mas a expectativa da noite girava em torno de um evento ao qual quase toda a população comparecia: a Missa do Galo!

A Catedral de Porto Velho vestia-se de luzes para o natal. Dentro, tudo à  luz de velas, um encanto. O sacerdote usava ornamentos de gala para celebrar a missa, que começava pontualmente a meia-noite. Turíbulos de prata balançavam na mesma cadência, envolvendo o ambiente com a fumaça dos incensos carregados pelos coroinhas (como eram chamados os meninos ajudantes do padre), que, vestidos em uma espécie de túnica ornamentada, encantavam pela beleza! Cânticos de louvor, entoados por todos, e a missa celebrada em latim levavam os fiéis a uma espécie de êxtase: era a interação com o sagrado.

Hoje, ponho-me a pensar no natal e na grandiosidade de seu significado; ponho-me a pensar em como era a humanidade antes de Jesus e no que se tornou. Se hoje, os homens ainda se matam por pequenas coisas e os mais poderosos roubam dos pobres por ganância, imagino a dimensão da crueldade antes da vinda do Cristo. Mesmo assim, Ele veio até nós; seus ensinamentos de paz, amor ao próximo e perdão das ofensas incomodaram tanto que foi torturado, pregado em uma cruz e assassinado. Apesar disso, perto do último suspiro, clamou ao Pai para que nos perdoasse.

Sabemos que há lugares e regiões no mundo que não ouviram falar de Jesus, povos que cultuam outras divindades; porém, o calendário que norteia a humanidade baseia-se em dois momentos significativos: antes de Cristo e depois de Cristo.

Que neste natal pensemos Nele e no legado de Amor que nos deixou, legado este encontrado principalmente no célebre Sermão do Monte, onde enaltece os pobres e humildes e censura os egoístas e poderosos.  Pensemos cuidadosamente nas bem-aventuranças proferidas pelo Mestre: elas contêm o passo-a-passo à evolução moral do espírito humano.

Desejo que, na noite de natal, a Sagrada Família adentre em seu lar, derramando bênçãos de saúde, harmonia e realizações; que semeie em cada coração o sentimento da compaixão pelos que sofrem (humanos e animais), o amor ao próximo e a convicção de que somos todos irmãos, parceiros nesta jornada que é a vida.

Feliz Natal!
 

 

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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