Porto Velho (RO) segunda-feira, 27 de junho de 2022
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Sandra Castiel

Mariza Castiel: saudade de tudo


Mariza Castiel - Gente de Opinião
Mariza Castiel

Na última semana, familiares e amigos acompanharam minha irmã, Mariza Castiel, à derradeira morada. Marisa era a sexta na ordem decrescente das sete filhas de Marise e Rapahael Castiel; irmã de Léa, Ana Maria, Helena, Sônia, Sandra e Enid. Marisa era viúva de Claudio, mãe de Marise e Raphaela, avó de Ana Maria, Lucas e Manoela, bisavó de Aurora, sogra de Everaldo e Etiane, além dos cunhados e de uma legião de sobrinhos, para os quais era a tia preferida.

Mariza era de longe a mais carismática, a mais popular, a mais alegre, a mais espirituosa e cheia de vitalidade das sete filhas.

Para Mariza, a vida era uma festa permanente. Muito engraçada, costumava imitar as irmãs e a infinidade de pessoas com as quais convivia; não tinha como não deixar os problemas de lado e entregar-se aos encantos daquela personalidade incrível que também carregava na alma forte empatia com os mais pobres.

A situação de pobreza de pessoas que viviam em barracos, mães sozinhas sem condições de alimentar os filhos, por exemplo, abalavam o coração de Marisa de forma profunda. Diante de um panorama de miséria, ela não chorava; sua reação era conversar com aquelas pessoas, conhecer todos os integrantes da família, contar piadas, fazê-los rir e tornar-se uma amiga querida dessas pessoas, para a vida inteira, pois dava um jeito de voltar ao lugar levando alimentos, lençóis, redes e brinquedos usados, objetos diversos, enfim, pequenas coisas que tornariam menos difíceis os momentos dessas famílias. Quem a conheceu de perto sabe que tal atitude diante da pobreza era completamente verdadeira e provocava reações desse tipo em minha irmã.

Morava eu então no Rio de Janeiro, fazia cursos e estudos na área da Educação, e, de vez em quando, vinha a Porto Velho para ver minha mãe, irmãs e demais familiares.

Numa dessas estadias, Mariza, bastante entusiasmada, convidou-me a visitar uma creche que conseguira erguer em parceria com Padre Bento, para atender as crianças de determinado lugar que viviam em situação de pobreza. Falou-me sobre a dificuldade de erguer a casa que seria a creche, sobre a luta para conseguirem um local, coisas assim; mas enfim ela e Pe. Bento estavam na luta.

A ideia da creche surgiu quando Mariza resolveu entrar em um dos barracos erguidos em volta de um bueiro. Ali deparou-se com uma criança sozinha, presa a uma corrente, deitada em uma rede. Conversou com a vizinhança e ficou sabendo que a mãe daquele menino frágil e desnutrido (à época com cinco anos) prendia-o daquela maneira em casa, quando ia ao trabalho, a fim de livrá-lo dos traficantes do lugar; estes usavam crianças pequenas para entregar drogas na comunidade. O menino em pauta chamava-se Jones e sua vida inspirou minha irmã a erguer uma creche naquela comunidade, para que as mães (solteiras em grande maioria) pudessem trabalhar, e as crianças fossem alimentadas e cuidadas. Assim teria começado a luta de Mariza e Pe. Bento, uma grande batalha.

A Visita

Entrei no velho carro de minha irmã Mariza e dirigimo-nos para a tão sonhada creche, que, segundo ela, estava em pleno funcionamento. No caminho, notei que nos embrenhávamos por ruas (ou seriam caminhos?) onde o mato era bastante crescido. A topografia do lugar era acidentada, e Mariza parou o carro num local mais alto. Dali avistei o tal bueiro, rodeado por vários e minúsculos barracos.

Descemos do veículo e ela caminhou à minha frente em meio ao capim alto e ao chão de barro. Olhei pra frente e avistei o que era na verdade um barraco maiorzinho, erguido com pedaços de madeira; notei que havia uma janela também de pedaços de madeira; na parede, um cartaz onde se lia: CRECHE MEU PEQUENO JONES.

No interior do espaço, observei que as paredes estavam repletas de cartazes com figuras recortadas de bichinhos e flores, frases em letra manuscrita pela própria diretora e professora da creche; reconheci a letra de minha irmã Mariza em todos os cartazes; um deles trazia uma frase que ouvíamos de nossa mãe (maior educadora que conhecemos): “O professor é como a vela; consome-se iluminando.”

Eu já estava bastante impactada com o ambiente de pobreza do ambiente. No espaço principal, havia duas mesinhas velhas e bancos de caixote onde estavam sentadas várias crianças, desenhando em folhas rasgadas de caderno.

Em dado momento, minha irmã tocou um sino e chamou-me para a janela. Mal pude acreditar no que via. Dos precários barracos em volta do bueiro saíam dezenas de pequeninas crianças, meninos e meninas que corriam em direção à creche: algumas usavam apenas um short velho, outras vinham completamente nuas.

Ela os recebeu com alegria e entusiasmo, não havia onde sentar, sentaram-se em pequenos círculos no chão. Do segundo cômodo da creche, na verdade um cubículo com um fogão e um filtro de barro, surge, carregando pratos de alumínio e colheres, uma senhora adorável, voluntária que preparava a sopa.

Famintas, aquelas crianças perguntavam se podiam repetir. Diante daquele quadro, eu tentava disfarçar as lágrimas, mas ela percebeu minha emoção e disse em tom de brincadeira: _ Está chorando, né?

O que aconteceu depois todos devem saber, a creche cresceu, foi acampada pelo município e minha irmã dedicou a maior parte de sua vida àquele sonho. A educação do município de Porto Velho foi engrandecida pelo trabalho da professora Mariza Castiel.

Minha irmã Mariza era igual ao nosso pai, uma verdadeira judia cabocla: simples como um copo d’água; seus pratos preferidos eram os regionais, costumava ir pra cozinha e preparar com satisfação vatapá, caranguejo com farofa, coisas assim. As frutas que comia quase diariamente eram pupunhas e tucumãs acompanhadas de seu copo de café puro.

Falei pouco sobre Mariza. Muito mais há a falar, diante da riqueza de sua personalidade, diante de sua vitalidade, de sua risada inconfundível, das várias pessoas que ajudou ao longo da vida, dos momentos em família.

Minha irmã Mariza, sentirei saudade de tudo! A vida de suas irmãs e filhas não será a mesma sem sua presença. Até algum dia, amada irmã!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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