Porto Velho (RO) sexta-feira, 7 de agosto de 2020
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Sandra Castiel

DIA DO PROFESSOR - Por Sandra Castiel



Bom Dia, amigos! Hoje para mim é um dia especial: Dia do Mestre! Era assim que a sociedade brasileira referia-se ao professor, há algumas décadas; havia um grande respeito da população brasileira para com esta categoria.

Nasci de mãe professora, dessas cuja vida girava em torno do que ela considerava uma grandiosa missão: instruir-se para transmitir conhecimento às crianças e aos jovens. A casa de minha infância era simples, porém um dos cômodos, chamado pela família, solenemente, de "gabinete" (até hoje não entendo o porquê dessa denominação), era repleto de livros. O tal gabinete possuía apenas uma acanhada escrivaninha, porém, cobrindo as paredes, uma biblioteca invejável: clássicos da literatura brasileira, todas as obras de Monteiro Lobato, enciclopédias, dicionários, gramáticas de vários autores, livros de Ciências, História do Brasil e História Geral, Conhecimentos Gerais (sim, havia essa categoria de livros escolares) e muita, muita poesia.

Lembro-me de folhear os poetas românticos, os poetas parnasianos e os poetas da era modernista. Lembro-me também de, pela pouca idade, não compreender direito a poesia barroca de Gregório de Matos, satírica e esplêndida! Parece ontem, volto a ver-me a folhear Os Lusíadas, de Camões, obra que eu, ainda menina, não possuía condições de entender: eram em dois volumes que integravam a biblioteca da casa. E os versos camonianos? "Amor é fogo que arde sem se ver/ É ferida que dói e não se sente/ É um contentamento desconte/ É dor que desatina sem doer!"

Desde muito cedo, apaixonei-me por este universo de letras e livros. Mas tornei-me professora, aos quatorze anos de idade, ainda estudante, claro, conduzida pelas circunstâncias. Chegara a revolução de 1964 e meu pai fora diretamente atingido: servidor público da Prefeitura Municipal de Porto Velho, foi demitido do serviço público e preso por um interventor militar. O crime? Era prefeito de Porto Velho. Ficou onze meses privado da convivência com a família. Naquela situação adversa, minha mãe pôs a trabalhar as cinco filhas, com exceção das duas menores (somos sete irmãs). Assim eu tornei-me professora no Grupo Escolar Barão do Solimões e responsável por uma turma de quarenta e três crianças. Em um turno ia para o colégio estudar, noutro ia dar aulas. Com os alunos, aprendi muito mais do que ensinei. Ao longo da vida, envolvi-me muitíssimo com a profissão.

Hoje, tudo mudou; se antes, as crianças e jovens tratavam o professor com respeito e veneração, agora o agridem, o desafiam e, em alguns casos, partem para a violência física. Os alunos mudaram, os valores da família mudaram, mas toda essa mudança está relacionada às transformações ocorridas no âmbito da Educação e isto se reflete na escola. O que mudou na Educação? Tudo, inclusive a própria formação do professor. Sucedem-se governos, o discurso é o mesmo com relação à educação, mas na prática não se percebe mudança positiva alguma, a não ser para pior. O governo é cego para um problema crucial: os alunos deixam o ensino fundamental e chegam ao ensino médio sem a capacidade de ler verdadeiramente um texto e interpretá-lo! Isto é lamentável. Também desconhecem rudimentos da matemática. E essa situação se prolonga no ensino médio.

Assim, a grande maioria que chega até a faculdade particular, com uma bagagem de conhecimento parca, paga e sai dali profissional diplomado, com curso superior. Faculdades particulares proliferaram no Brasil, a Educação hoje é um grande comércio: todos podem ter acesso, basta pagar! E os governos que ditam as regras no país, quando investem na educação (por pouco que seja), destinam esse investimento ao ensino superior. Ora, se o alicerce do prédio está deteriorado, de que adianta investir no telhado? O prédio vai desabar!

Há que se investir na formação dos professores! Há que se investir no ensino fundamental, para que as crianças pobres, a grande maioria, cheguem ao ensino médio sabendo ler e interpretar um texto, conhecendo fatos importantes da história de seu país, seus dados geográficos, bem como compreendendo a importância da matemática e das ciências.

Quando eu estava na antiga escola primária, os livros de leitura que recebíamos, nós os alunos, traziam mensagens de exaltação à pátria, ao respeito  à educação e aos mestres, a Deus e à família. Hoje, isto tornou-se assunto proibido! Há uma militância que combate essas práticas.  As pessoas têm vergonha de ensinar o hino nacional nas escolas, ensinar os símbolos da pátria! Ora, não vejo nisso repressão e desrespeito para com a criança. Considero desrespeito para com a infância violentar sua inocência, apresentando-lhe livros que propagam ideologia de gênero. Que esperemos a criança se tornar adulta para viver sua sexualidade como bem lhe aprouver. E que respeitemos as escolhas dos adultos.  

Em homenagem aos mestres, deixo-lhes um poema de Olavo Bilac, poema que marcou minha infância e a de tantas outras crianças da época. Mariza Castiel, minha irmã querida, que tanto ama este poema, poema que, na infância, costumávamos recitar juntas, dedico-o a você, no Dia do Mestre, a você cuja vida foi dedicada às crianças de Rondônia.

 Viva os professores do Brasil! Viva os professores de Rondônia!

A PÁTRIA

                                                                                        OLAVO BILAC

 
   Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!

Criança! não verás nenhum país como este!

   Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!

A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.

             Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,

          Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!

      Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

     Vê que grande extensão de matas, onde impera

Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha

         O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com seu suor a fecunda e umedece,

   Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

  Criança! não verás país nenhum como este:

       Imita na grandeza a terra em que nasceste!"

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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