Porto Velho (RO) segunda-feira, 10 de agosto de 2020
×
Gente de Opinião

Sandra Castiel

A LEI DE DEUS - Sandra Castiel


 

Há poucos dias, liguei para uma velha amiga que mora distante a fim de cumprimentá-la. Curiosamente, seu rosto veio-me à lembrança com frequência nas últimas semanas: É o chamado da amizade, pensei com meus botões. Porém, a voz que me atendeu do outro lado da linha não era a dela. Era uma de suas filhas que, com voz embargada pela emoção, repetia: - Mamãe faleceu... Mamãe faleceu... Bem que tentaram avisar, explicava a filha, porém, houve desencontros, recados não dados etc. O fato é que muitas amigas ainda não haviam tomado conhecimento da morte inesperada, e, assim como eu, dizia a moça, outras amigas seriam surpreendidas pela notícia.

Pus-me a pensar no fato e na fragilidade de todos nós, seres viventes. Pus-me a pensar na vida e na morte. E a concluir que para alguma coisa serviram-me os anos. Daqui de onde estou posso contemplar minha vida inteira, minha infância e juventude, a idade adulta, a maturidade.

Na juventude, quando a gente se apaixona, a presença do parceiro (ou da parceira) em nossa vida nos proporciona um bem-estar tão intenso que pensamos pouco em nossa fragilidade e na finitude de todas as coisas; seguir a vida ao lado de quem amamos certamente nos fortalece. Quando vêm os filhos, tememos por eles e começamos a nos dar conta de que o mundo pode não ser um parque de diversões.

Mas é apenas na maturidade que conseguimos enxergar a vida sem a névoa das paixões e de outras ilusões. A maturidade faz com que nos enxerguemos como de fato somos: consciências que habitam um corpo finito com validade variável. E essas consciências se relacionam umas com as outras, de acordo com regras criadas pela coletividade. Comumente, essas consciências esquecem-se de que o corpo que habitam vai morrer e exercitam a arrogância e outros defeitos que carregam em sua personalidade (e quantos defeitos temos!); frequentemente, essas consciências armazenam em sua memória mágoas terríveis, sentimentos que produzem danos à sua afetividade e ao seu corpo físico. Essas consciências habitam o mesmo planeta; porém, de acordo com as regras sociais (regras que criaram) vivem num mundo plural, mundos muito diferentes.

Dois fatos, porém, igualam todas as consciências, lembrando-as de que são regidas por uma lei maior: o Nascimento e a Morte. Todos nascemos de uma mulher e, um dia, vamos morrer; neste quesito em nada nos diferenciamos dos outros animais; todos nascem de uma fêmea e igualmente morrem. Se conseguirmos chegar à velhice, preservados da demência, assistiremos a nossa própria decadência física e a decadência de nossos contemporâneos, algo nada bonito de se ver ou viver. Mas e as flores, os pássaros e as borboletas, a fauna e a flora, os mares, as fontes e os caudalosos rios? E o céu de veludo negro sobre o qual resplandecem a lua e as estrelas? E o brilho do sol nascendo no infinito azul do céu e se pondo ao fim do dia? E o odor maravilhoso dos alimentos, as frutas, o pão, o café quentinho, a família e os amigos? E a música, a poesia, a dança, as artes plásticas, o teatro, o cinema, enfim, a arte que nos encanta a alma?

Assim é a vida, tristezas e alegrias. Dualidade complexa. Assim funciona a Lei Maior. De nada adianta questioná-la ou tentar explicá-la racionalmente à luz das inúmeras religiões, não há unanimidade nesse aspecto. Portanto, o melhor a fazer é ouvirmos nossa própria consciência, partícula de Outra, grandiosa, a quem chamamos Deus.

Se estivermos atentos, perceberemos que ela nos diz para vivermos um dia de cada vez, aproveitando cada nascer do sol e contemplando cada anoitecer, de preferência em paz com nós mesmos e com o próximo. Afinal, podemos não estar mais aqui daqui a pouco, ao próximo toque do telefone...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Mais Sobre Sandra Castiel

Dr. Paulo Gondim: Missão de Vida

Dr. Paulo Gondim: Missão de Vida

Em meio à insegurança que temos vivido pela pandemia que assola o mundo, ponho-me a pensar nas demais doenças com as quais as populações convivem e

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia -  Parte II

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia - Parte II

   A proposta deste trabalho é revelar ao público-leitor a beleza da poesia produzida pelos poetas que aqui vivem. Estamos falando sobre pessoas apa

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia -  Parte I

Ensaios Literários sobre Poetas de Rondônia - Parte I

Descobri o amor pela poesia, ainda criança, no Grupo Escolar Barão do Solimões, em Porto Velho. Naquela época, os livros de leitura eram obrigatório

Neste último dia do ano! ...

Neste último dia do ano! ...

Último dia do ano: comemorações, fogos, champanhe, ceia, abraços, troca de votos de saúde, alegrias, prosperidade para o novo ano. Isto é tão humano