Sexta-feira, 16 de janeiro de 2026 - 12h45

Ele era
mau e batia nela. Tinha dado graças a Deus o dia que se enrabichou por uma
piriguete e foi embora morar com ela na cidade. Não tinha filhos. Vivia sozinha
naquele sítio distante, cuidando da roça. Trabalhava de sol a sol, tinha as
mãos calejadas. Mas, com o passar do tempo, a solidão doendo, começou a sentir
falta do companheiro, do aconchego, e dos carinhos da cama que não tinha mais.
As insônias eram frequentes, ficava rolando na cama com o travesseiro entre as
coxas. Via o dia clarear. Ainda era jovem, apesar de maltratada. Os dias se
passaram, meses e anos. Já estava até conformada, aceitando a solidão. Afinal,
pensava, estava bem melhor assim, pois não tinha que aturar os desaforos e as
surras que deixavam seu corpo cheio de dor e hematomas. Nesse dia, tinha
chegado da roça e se preparava para o jantar quando, ao olhar pela janela, viu
entrando na porteira do seu sítio, montado a cavalo, aquela fi gura que muito
conhecia. Sim, não tinha dúvida, era ele, o Valadão. Aproximou-se, desceu da
montaria e amarrou a corda do cabresto na arvore mais próxima. Estava sujo, com
a barba por fazer a dias, e usava um chapéu amarrotado, de abas grandes. Entrou
e foi logo pedindo desculpas, estava arrependido. Aquela vagabunda da piriguete
não era a mulher que ele pensava. Maria ficou assustada e desconfiada com
aquela mudança e arrependimento. Disse a Maria que agora ele seria outra
pessoa. Iria ajudá-la na roça e até nos serviços da casa. E afinal, carente e
cheia de tanta solidão, acabou aceitando de volta o Valadão. No início até que
cumpriu sua palavra, ajudando-a na roça. Mas, aos poucos, voltou a beber e
passava os dias deitado na rede armada na varanda e bebendo cachaça. Maria já
estava amargamente arrependida de ter aceito de volta aquele traste,
principalmente porque tudo voltou a ser como antes. Voltou também a bater nela.
Quando não queria ou não podia ir para cama com ele era mais um estupro e mais
uma surra que levava. Às vezes ficava tão machucada que não conseguia
levantar-se no dia seguinte para ir trabalhar na roça. Não sabia mais o que
fazer!... Nesse dia estava bem machucada e cheia de hematomas, mas mesmo assim
conseguiu levantar-se para trabalhar na roça, de sol a sol. Já era quase noite
quando voltou para casa. Mal chegou e o Valadão foi logo gritando:
— Ô
infeliz, vê se apressa logo esse jantar que estou morrendo de fome! Ou quer levar outra surra? —Já vou
preparar tudo, Valadão! Tenha um pouco de paciência, home! Ele estava
visivelmente bêbado. E quando fi cava assim, tornava-se mais agressivo e
violento. Calada e tremendo de medo, foi para a cozinha. Esquentou rapidamente
uma sopa de carne com legumes que já estava pronta.
— Maria,
filha d’uma égua! Cadê a porra dessa comida? Acho que tu tá querendo levar
outra peia, né?
— Doutô
Delegado, eu juro pro senhor que quando eu levei o prato de sopa ele tava
sentado na cama e eu tremia mais que vara verde. Mandou que eu puxasse suas
botas sujas de barro, o que eu fiz prontamente. A seguir dei seu prato de sopa
bem quentinha. Ele tomou umas duas colheradas, cuspiu pro lado e atirou o prato
na parede espatifando e derramando tudo! — Sua filha da puta! Isso é comida que
tu sirva pro teu macho? Trata de trazer outra comida pra mim agora senão tu vai
apanhar de cinturão, sua vagabunda!
— Calma,
Valadão, eu vou trazer outra comida em outro prato. — Eu juro pro senhor, Seu
Delegado, quando eu voltei com o outro prato, ele tava deitado na cama de peito
pra cima, dormindo, roncando alto e espumando pelo canto da boca de tão bêbado!
Aí então, peguei a minha trouxinha de roupa e piquei a mula, andei a noite
inteirinha sem parar pra chegar até aqui. Tenho certeza que se ele acordasse,
dessa vez ia me matar. E agora, o que qu’eu faço doutô?
Terça-feira, 10 de março de 2026 | Porto Velho (RO)
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