Sexta-feira, 9 de janeiro de 2026 - 15h12

"Na Amazônia o
homem trabalha para escravizar-se"
(Euclides da Cunha)
Essa figura
caricata aparece no cenário do ciclo da borracha, povoando predominantemente a
região norte do País, mas tendo como matriz principal os seringais do Acre.
Tinham quase sempre o mesmo perfil: eram homens rudes, brutos, esbanjadores,
autoritários, sem estudo, e muito ambiciosos. Apesar disso, no fundo, alguns
deles ainda eram capazes de atos de bondade.
O ciclo da borracha aconteceu mais ou
menos entre os anos de 1876 a 1926 , e se caracterizava pelos altos preços da
borracha nas bolsas de europeias. A Amazônia, com a maior floresta do planeta e
clima tropical, dispunha das condições ideais onde floresciam imensos seringais
da hevea brasiliensis. A produção da
borracha brasileira atinge seu auge até que teve sementes e mudas da hevea
surrupiadas com a complacência dos próprios brasileiros, e levadas para Londres
pelo inglês Henry A.
Wickmam, onde
iriam florescem no jardim botânico de Kew Garden, de Londres, antes de serem
levadas para o plantio ordenado em Singapura e na Malásia, segundo os fatos
relatados no magistral romance de Claudio de Araújo Lima, intitulado Coronéis
de Barranco. A chamada belle époque dos seringalistas, sem que eles percebessem,
estava com seus dias contados. Mesmo assim, continuavam a esbanjar dinheiro nas
pensões de Manaus e Belém, fumando charutos cubanos, sem se aperceber do risco
fatal que seus negócios iriam enfrentar. Já em 1914, a produção da borracha
oriental supera a brasileira, coincidindo com o início da Primeira Guerra
Mundial. A borracha brasileira perde o valor drasticamente, sendo que nesse ano
a sua produção não passou das 36 mil toneladas, contra 150 mil toneladas da
borracha oriental. O declínio e o fim desse ciclo estavam estabelecidos. Coronel Joventino Florêncio,
natural de Alagoas, era um homem branco, baixo, mas atarracado, e tinha bigode
grosso. Usava um chapéu com abas grandes que fazia sua cabeça parecer pequena
para o corpo. Tinha a voz branda, falava baixo. Casado, com seis filhos, sendo quatro meninos e duas
meninas. Dona Inês, sua esposa, também alagoana, era uma companheira dedicada:
cuidava dos filhos e fazia-lhe todos os gostos. Homem rude, ambicioso e
ignorante, cujo perfil o credenciava como coronel de barranco. Morava em Porto
Velho, mas seu seringal ficava no Vale do Guaporé, estendendo-se por mais de
quatro mil hectares de terras, cuja produção de borracha rendia o suficiente
para dar- lhe uma vida de esbanjador. Cobria sua esposa de joias de ouro de 18
quilates, dando-lhe presentes todas as vezes que viajava para Manaus ou Belém,
com a finalidade de fechar grandes contratos de venda de borracha e comprar
mercadorias para seu armazém no seringal. Nessas viagens, que demoravam cerca
de dois meses, Joventino gostava de vestir-se com ternos de linho puro, bem
engomados, calças vincadas e gravatinhas tipo borboleta de bolinhas. Tinha uma coleção de diversas
cores. Gostava também de usar sapatos mocassim, de pelica. Os perfumes de sua
preferência eram os franceses. Bebia whisky, champanhe e licores também
importados. Costumava frequentar as melhores pensões de mulheres em Manaus
e Belém.
Numa dessas suas viagens, arrumou um xodó com uma paraense morena, de
coxas grossas, que fazia ponto na
Travessa 1º de março. Quase não voltou mais para o seringal!... Onde chegava
era tratado com todas as honras pelas donas dos bordéis. Pagava bebida para todas as mulheres que
sentavam em sua mesa. Porém, tinha as suas preferidas. Baforando charutos
cubanos, deixava os ambientes esfumaçados, como o rastro de um esbanjador.
Pagava muito bem todas as prostitutas que com ele deitavam: dava presentes
valiosos para elas e para as cafetinas que lhe traziam as meninas mais novas e
mais recentemente chegadas ao lupanar. Com
o coronel Joventino não tinha tempo ruim! – diziam as cafetinas,
estimulando as meninas e ficarem com ele. Deixava saudade e também muito
dinheiro quando tinha que voltar para o seringal. Mas tinha a certeza que seu
gerente lá estava, tomando conta de todo aquele seu império, e que seu problema
não era dinheiro. A borracha produzida nas suas terras eram da melhor
qualidade. Tinha comprador certo no exterior. Seus duzentos seringueiros
trabalhando nas mais distantes e espalhadas colocações, produziam o suficiente
para que ele pudesse se divertir com aquelas jovens fogosas. Enfim, nesse
contexto não tinha nenhum problema que
pudesse afligi-lo ou tirar o seu sono. Sua mulher Inês, como sempre, dedicada,
tomando conta da casa e dos seus filhos. E nada lhe faltava. Todos na cidade a
respeitavam — afinal, era a mulher do coronel Joventino, o todo poderoso do
lugar. Portanto, nada tinha que lhe pudesse afligir.
Aliás, quase
nada, pois nas ultimas contratações que fez de seringueiros, vieram alguns que
eram metidos a valentões. Gente do sertão da Paraíba e de Pernambuco, que
chegou a Porto Velho fugindo da seca e precisando de trabalho. Tinha contratado
alguns deles, pois apesar de não terem quase nenhuma experiência na extração e
coleta do látex, pareciam muito interessados em aprender o manuseio e a prática
extrativista da borracha. Além de tudo, eram homens fortes, acostumados às
intempéries da seca do Nordeste. Sua única preocupação com eles é que não
pareciam gostar das normas implantadas nos seringais. Uma delas, por sinal
tendenciosa: as mercadorias necessárias para mantê-los no mato durante o mês,
deveriam ser obrigatoriamente compradas no armazém do seringal, com os preços
exorbitantes que o patrão estipulasse. Justificava a exorbitância dos preços
cobrados alegando que o custo para essas mercadorias chegarem até aquelas
brenhas de mato era muito alto. Além do mais, o patrão tinha que ter uma boa
margem de lucro, pois os seringueiros pagavam essas mercadorias e víveres com
sua produção de borracha – argumentava quando alguém o questionava.
O
coronel sabia que era uma vida difícil para os seringueiros, mas nada podia
fazer, pois entrava nessa labuta quem dela precisava. Já tinha tido alguns
problemas no passado com seringueiros que se revoltavam com as normas do
patrão, mas todos tinham sido devidamente punidos e alguns, os mais rebeldes,
até mesmo castigados violentamente. Jamais aceitava ter sua autoridade
questionada, sequer ameaçada por qualquer um desses arigós sem eira nem beira
que chegavam por aqui precisando da oportunidade que ele lhes dera. Em troca,
queria apenas que fossem respeitadores, honestos e produzissem muita borracha
para o seringal. Não aceitava aqueles que eram solteiros, pois costumavam
arrumar confusão na tentativa de roubar a mulher dos outros. Também não eram
aceitos aqueles que tinham muitos filhos, pois crianças adoeciam e acabavam
morrendo, dando muito trabalho e responsabilidade ao patrão, além de tirar o
seringueiro da sua rotina de produção.
Quando chegava
o final do mês, a maioria ficava sempre devendo, pois sua produção era pífia,
insuficiente para quitar seus débitos no armazém. Assim, o seringueiro ficava
mais tempo no seringal, uma vez que só poderia pedir para sair quando estivesse
sem débitos na casa. Ele, Joventino,
achava isso tudo muito justo, pois afinal, todos podiam comprar os
gêneros que quisessem no seu armazém, que era sempre muito bem sortido.
Numa
de seus retornos ao seringal, o coronel ficou sabendo que o Abdias, um dos
novatos que contratara, estava praticando furto de borracha, vendendo-a para
invasores clandestinos que passavam periodicamente na sua colocação, distante
dos olhos do coronel. Chamou seu capataz Valadão e o tropeiro Josias, homens de
sua confiança, mandou que fossem de surpresa até a colocação do Abdias,
checassem tudo, trouxessem toda a sua produção de borracha, e caso ele se
metesse a besta, dessem uma pisa nele.
Podiam dizer que foi o coronel que mandou e que, caso ele continuasse a furtar
a borracha, não iria viver para apanhar outra surra. Assim foi feito: trouxeram
toda a produção e deixaram o pobre Abdias todo moído de chutes e pontapés.
—Isso é pra
você aprender a não roubar mais o patrão, seu nêgo vagabundo! – dizia o
Valadão, chutando as costelas do pobre homem. Passaram-se semanas, e o coronel sempre de
olho nos seringueiros que queriam dar
uma de espertos, ameaçando sua autoridade e tentando fazê-lo de bobo.
Cumprindo
sua rotina matinal, Joventino acordou 5h30 da manhã, tomou seu café puro com
farofa de charque, comeu algumas broas com ovos mexidos preparados a seu gosto
pela cozinheira da fazenda, e foi para o armazém conferir os estoques de
mercadorias, bem como o livro de contabilidade onde eram registrados todos os
movimentos de caixa de cada seringueiro, e também a receita dos contratos de venda. Analisou
todos os empréstimos feitos no Banco da Amazônia nos últimos anos. Pela primeira
vez em toda sua vida no ciclo da
borracha, teve uma sensação de que os negócios do seringal não iam tão bem. O preço da borracha
brasileira começava a despencar!... Lá pelas 9h, chamou pelo Valadão, mas como
não teve resposta, lembrou-se então de tê-lo mandado sair bem cedo para investigar
e dar umas porradas em outro seringueiro que estaria também roubando a produção
para vendê-la a clandestinos. Tomou um suco de carambola que estava na jarra em
sua mesa e saiu do armazém, rumo ao seu barracão. Ao sair, ouviu o piado de uma
inhambu, e pelo que conhecia, era uma inhambu azul. E ele sempre gostou muito
de comer inhambu ao molho pardo, prato que sua cozinheira preparava como
ninguém. Voltou ao armazém, pegou uma espingarda 20, vários cartuchos, e saiu
atrás daquele piado da inhambu. Andou naquela vereda próximo ao barracão,
depois foi entrando no matagal até chegar próximo ao rio. O piado da inhambu
foi ficando mais forte até que, de súbito, surgiu em sua frente o nêgo Abdias,
que não deu tempo nem chance para o coronel atirar. Puxou primeiro o gatilho de
sua espingarda e uma lingueta de fogo saiu do cano da arma, ao mesmo tempo que
na camisa branca do coronel, uma enorme mancha de sangue surgiu no buraco que
se formou em seu peito. A seguir o nêgo Abdias aproximou-se do coronel moribundo,
que arfava em seus últimos suspiros:
—Morre velho desgraçado! Morre! Isso é pra tu nunca
mais Manda batê em macho!
Ao tempo que chutava o corpo do coronel,
arrastava-o pelo barranco do rio até atirá-lo, sem seguida, ribanceira abaixo.
O sangue ainda esguichando do peito de Juventino manchou as águas barrentas do
rio Mamoré, acabando com mais um
coronel de barranco, que não chegou a ver o irremediável fim do opulento
ciclo da borracha.
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