Sexta-feira, 2 de janeiro de 2026 - 07h25

Sua igreja era pequenina, mas muito bem organizada. As beatas cuidavam para que tudo estivesse sempre impecavelmente limpo. O altar, as hóstias, o vinho do padre, a taça e o lenço de linho branco puro e engomado. Nada a perturbar a sua cabeça, a não ser aquele sacristão que sua paróquia herdara de outros tempos que não eram seus. Chamava-se Astrobelo, mas os devotos o conheciam como Beleza. Com a rotina das missas e outros eventos religiosos, o Padre Salviano não tinha muito tempo para as coisas domésticas da igreja. Mas certo dia chegou no frigobar do altar e encontrou sua garrafa de vinho quase vazia. Chamou o Beleza e o questionou pelo seu vinho que estava quase no final.
--Não sei de nada não Seu Padre. Minha função aqui é tocar o sino e ajudar o senhor na missa.
O tempo foi passando e cada vez mais o Padre Salviano estava desconfiado daquele sacristão. Nas festas da igreja, muitas beatas traziam vinho como presente para ele. Guardava tudo no armário que ficava em sua residência, num compartimento anexo à igreja. Ganhava também doces e chocolates. Tudo ia sumindo aos poucos sem que ele tivesse consumido. Chamou novamente o sacristão:
--Não sei de nada não Seu padre. Acho que o senhor deveria se preocupar com os ratos que sempre vejo se escondendo por baixo daquele armário.
Mas o Padre Salviano ficava cada vez mais desconfiado. Até que um dia, ao ir buscar seu vinho para a missa de domingo, a garrafa do vinho que abrira naquela semana, estava quase vazia. Ficou a pensar como poderia desmascarar aquele sacristão. Pensou primeiro leva-lo ao confessionário e dar o xeque-mate. Porém isso não seria aceitável de sua parte. Também não seria religiosamente correto, além de que a mentira poderia ser a defesa daquele larápio. Pensou, pensou até que chegou a uma conclusão. Ouvira falar de uma medicação chamada Gutalax. Era um poderoso laxante, ida ao sanitário garantida. Seu efeito era muito rápido e não tinha efeitos colaterais. Poderia comprar nas farmácias, sem receita médica. Foi o que fez: comprou 3 unidades, apresentação em gotas. Abriu uma garrafa de vinho, despejou ali todo o conteúdo dos 3 vidros do Gutalax. Deixou no mesmo lugar de sempre. Como já era sábado à noite, tudo iria acontecer na missa das oito no domingo. Não deu outra: a missa começou e lá estava o sacristão esperando o momento de ajudar o padre a distribuir as hóstias, de boca-em-boca. O Padre Salviano começou a ficar decepcionado com sua estratégia, ou então ele não bebera o vinho. Fez o sermão, ouviu os louvores dos cânticos, benzeu as hóstias e foi até aos fiéis que estavam postados ajoelhados, de olhos fechados e com bocas abertas. O sacerdote ainda conseguiu entregar a primeira hóstia com a ajuda do sacristão, entretanto, quando olhou para o lado, viu o sacristão parado, pálido e com as pernas cruzadas, sem conseguir andar.
— Vamos lá, Beleza! Os fiéis estão esperando.
Não deu tempo pra mais nada! O Beleza deixou cair no chão a vasilha dourada das hóstias, virou-se para o altar e saiu em desabalada carreira, deixando um rastro de fezes líquidas, que escorria por suas pernas e lhe molhava as calças. O Padre Salviano ficou perplexo, e suspendeu a comunhão. Ligou urgente para o SAMU, que não demorou a chegar.
— O que aconteceu, Padre?
O sacristão passou mal. Acho que deve ter comido ou bebido alguma coisa estragada!
— Vamos levá-lo para a UPA com urgência — disse o médico da equipe de atendimento.
— Concordo, mas antes, deem um banho frio nesse vagabundo — disse o sacerdote em tom de galhofa.
Os paramédicos se entreolharam, mas não entenderam porque o Padre Salviano estava com tanta raiva daquele pobre sacristão.
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