Domingo, 4 de janeiro de 2026 - 13h24

Tudo pode acontecer numa
delegacia, principalmente quando é uma delegacia do interior. O delegado Homero
ficou perplexo quando chegou a sua delegacia naquela manhã. Havia uma situação
inédita esperando por sua decisão: dois desafetos haviam sido presos, foram as
vias fato e conduzidos a sua delegacia por um motivo absolutamente insólido:
uma pedra. A princípio achou que fosse uma pedra preciosa ou semipreciosa, que
pudesse ter algum valor de mercado. Mas não. Era uma dessas pedras comuns,
chamadas de pedras-jacaré, usadas para construir baldrames de casas de
alvenaria. E ainda estava suja, com alguns pedaços de terra agregados. Certo
que aquele seu plantão seria mais um cheio de casos escabrosos, mandou que
fossem buscar um dos brigões que estava detido.
--Como é o seu nome?
–perguntou o delegado.
Todo vestido de branco, calças
e camisas folgadas e um colar comprido de conchas, sentou-se calmamente a sua
frente e respondeu:
-- Sou Manelzinho de Orixá,
doutor.
--O senhor quer me explicar
que estória é essa de brigar por causa de uma pedra? O senhor quase matou o seu
desafeto!
--Ele não vale nada, doutor! É
um ladrão vagabundo.
--Calma seu Manelzinho! Não se
esqueça que você está numa delegacia e não pode ficar aí espraguejando e
desrepeitando as pessoas na frente do delegado. Posso deixar vocês dois detidos
por mais tempo.
--Sim senhor doutor. Eu
explico tudo: acontece que o lazarento roubou a pedra Daká que estava sob a
minha responsabilidade e depositada no meu congá.
--O senhor quer me explicar
que pedra é essa?
--Pois não doutor: a pedra Daká
é uma pedra que confere poderes as pessoas para se tornarem Pais-de-Santo, ou
seja, de abrir seus próprios terreiros, desde que sejam médiuns, é claro.
Acontece que esse poder só pode ser dado, seguindo todo um ritual. E esse
ritual prevê que uma pedra seja depositada no congá de um pai-de-santo
reconhecido pela comunidade umbandista. Essa pedra fica ali no congá deposita
por prazo indeterminado, até que o Pai-de-Santo responsável receba a mensagem
para liberar tal pedra. Assim sendo, o novo Pai-de-Santo recebe a sua pedra e
com ela está autorizado a abrir seu próprio congá, a praticar e presidir todos
os atos e rituais umbandistas. Acontece, doutor, que essa pedra já estava no
meu congá a quase um ano, porém eu não tinha recebido ainda a instrução do meu
santo para entregar essa pedra a ele. O lazarento aproveitou-se da minha
ausência, e como a casa estava toda fechada e sem ninguém, arrombou uma das
minhas janelas, entrou em casa e roubou a pedra. Como eu já desconfiava desse
elemento, fui atrás, botei o cavalo em cima e ele confessou o roubo. Aí eu
perdi a cabeça e dei umas porradas nele. Mas como o senhor tá vendo, ele
mereceu.
O delegado
chamou seu ajudante Moi, pediu que levasse o seu Manelzinho de Orixá de volta
pra cela e trouxesse o outro brigão da pedra.
Entrou na
sala do delegado um elemento com andar e voz de malandro, camiseta regata e
boné virado pra trás.
--Pronto,
Chefia. As suas ordens!
O hálito era de pura cachaça.
--Seu nome por favor.
--Alcides do Tarô, mais
conhecido como Alcidinho.
--Pode contar sua estória seu
Alcidinho.
-Vai fazer mais de ano que eu
tô tentando pegar minha pedra Daká. Mas o infeliz do Manelzinho tá me matando
na canseira. Querendo me fazer de trouxa, doutor. Já fui várias vezes a sua
casa, mas ele só promete e não me atende. Não quer liberar a minha pedra. Acho
que ele tem medo da concorrência, sabe? Não quer que eu tenha meu próprio
terreiro. Fica com essa estória que ainda não recebeu instrução pra me liberar
e nada. Mas na última vez que eu fui a sua casa, vi que não tinha ninguém e
entrei por uma janela que estava só na tranca. Peguei a minha pedra Daká e fui
embora. Não mexi em mais nada, juro pro senhor doutor. Só quero o que é meu. E
essa pedra é minha! É através dela e de seus poderes que vou poder trabalhar no
que é meu!...
O
delegado Homero mandou chamar o Manelzinho de Orixá e frente a frente com o
Alcides do Tarô disse:
--Olha
aqui vocês dois. Não vou mais continuar com essa conversa de doido. Também não
vou manter vocês aqui presos por causa de uma pedra que não tem nenhum valor de
mercado, portanto não configura crime no Código Penal Brasileiro. Mas eu juro
que caso vocês voltem a brigar ou a se xingar por causa dessa pedra, eu vou
prender os dois por tempo indeterminado.
-- Moi,
pode soltar esses dois, porém antes mande assinem o BO (Boletim de Ocorrência)
bem como os seus respectivos depoimentos.
Quando já ia
saindo, o Alcides do Tarô perguntou:
--Doutor, eu
vou poder levar a minha Pedra Daká?
-- Claro que
não! Eu vou ficar com ela. É a prova que ainda tem gente capaz de brigar e até
se matar por causa de uma pedra sem nenhum valor. Vá-se embora daqui seu
Alcides, antes que eu me arrependa.
Passados
alguns minutos olhando para aquela pedra, o delegado Homero chamou o Moi,
mandou buscar aquela marreta pesada que tinha sido apreendida na sua delegacia,
fruto de um homicídio frustrado, levou a
pedra lá pros fundos da delegacia, e espatifou a pedra Daká sobre o solo.
-- Se pensam
que acredito nessas estórias estão muito enganados. Já perdi muito tempo com
essa pedra! – resmungou enfezado o delegado.
No dia
seguinte, o Moi chegou com a notícia que estava estampada nos Jornais:
"Delegado de Polícia capotou sozinho em seu carro de forma inexplicável.
Sua caminhonete particular pegou fogo, teve perda total, mas felizmente o
policial sobreviveu. Agora terá que ficar
por algum tempo fora de combate".
Terça-feira, 6 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)
Sua igreja era pequenina, mas muito bem organizada. As beatas cuidavam para que tudo estivesse sempre impecavelmente limpo. O altar,

Ele se acordou e não sabia onde estava. Mas tinha certeza que não era no seu apartamento. Ao seu lado, ainda roncando, havia uma mulher — pela maquia

Grandes carnavais em Porto Velho
O cheiro do lança perfume exalava e podíamos sentir aquele aroma a distância dos clubes. O som das bandas musicais com os sopros dos metais também s

Depois de uma quarentena cruel e monótona, o idoso já se encontra no seu limite físico e mental
Terça-feira, 6 de janeiro de 2026 | Porto Velho (RO)