Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Paulo Saldanha

Um dia lá no Clipper de Guajará



Parecia que aquele jovem sentado ali à mesa ao lado estava invisível. Todavia, por não ser alienado ouvia tudo o que conversavam ao derredor... Um dia me repassou essa história.

É que alguns seringalistas envolvidos no jogo de dominó com os comerciantes maiores do pedaço nem se davam conta da presença dele e discutiam temas familiares.

Tibério tinha ouvidos de tuberculoso e era um observador atento!

Eu mesmo concordei com ele sobre a intensidade de valor que todos davam ao Clipper, um lugar quase sagrado para onde convergiam ao final das tardes os empresários da localidade: gregos, nordestinos e libaneses, principalmente.

Esse empreendimento, o Clipper, vendia cervejas geladas, bebidas quentes - inclusive o famoso rabo de galo (vermute com cachaça) - saltenhas, croquetes, pastéis, chicletes, balas (bombons) e toda sorte de quinquilharias: lanternas, cigarros, fósforos, isqueiros, pilhas, agulhas, clipes, lápis, etc.

O Clipper –os antigos recordam– ficava bem no meio da Avenida Presidente Dutra, na confluência com a Avenida Mendonça Lima. Num dos lados, a Casa Dias, do Walter Dias, depois Casa Talamás; no lado oposto a loja do Milton Santos.

Enquanto as partidas se sucediam, os assistentes - pequena platéia - mantinham-se em pé sorvendo o rabo de galo ou, para os menos favorecidos nas finanças, a velha Cocal cansada de guerra. A Cocal era, para alguns destemidos, servida pura, purinha da silva, o que acabava por arrebentar os peitos dos menos avisados, enfim suavizada se viesse acompanhada pelo vermute.

E as pedras dos dominós eram lançadas sobre a mesa com a veemência dos obstinados, multiplicando os sons no derredor daquele abençoado lugar de saudosa lembrança. Ainda hoje me lembro das batidas estridentes das pedras contra a mesa, com as quais os “dominozeiros” se valiam para consagrar pontos naquele tipo de disputa em que aos perdedores cabia o pagamento pelas cervejas consumidas pelos participantes.

Vai daí que um pequeno número de seringalistas, após verem seus competidores retirarem-se em direção às casas respectivas, ficou proseando sobre os desencantos com o casamento. Lamúrias vieram e lamúrias foram lançadas em desabafo.

–Minha mulher anda muito chata e gastadeira...

–Pois a minha, além de chata, virou resmungona. Parece estar sempre de mau humor!

–E a minha, meus amigos, zela do cabelo e das unhas melhor do que o cuidado que deveria devotar aos filhos...

E Wilmar Feira de Santana, o mais velho do grupo, ouvia em silêncio aqueles desabafos, sem tirar partido, enquanto lia o Almanaque Capivarol.

Anastácio Negromonte arriscou defender as mulheres, mostrando o lado bom da esposa - para ele, santa e imaculada mulher.

–Você fala assim porque não se casou com Soila Gertrudes Velásquez, nobre amigo. Essa minha companheira é “virada no cão”!

–Você elogia porque não vive no mesmo teto que Efigência Borba de Cintra, meu verdadeiro carma - assinalou Soriano Militino de Cintra.

Foi aí que Wilmar, comerciante e filósofo de plantão, desejando livrar-se de tantas lamentações, explodiu:

–‘Ocês’ tudo são ‘culpado’! É a lei do retorno, meus ‘amigo’. ‘Ocês’ tão pagando porque obraram muito mal com suas ‘mulher’...

–Como nós?  - quase que em uníssono os seringalistas presentes se manifestaram, questionando.

–É que ‘ocês’ fizeram a felicidade das ‘esposa’, deixando elas sentirem prazer na hora do sexo... Comigo, não! Nesses 50 anos de meu casamento, quando vejo que a Maura Beatriz vai caminhando para ‘revirá’ os ‘olhinho’, eu puxo e repuxo e não deixo ela chegar lá...

Todos ficaram incrédulos e questionadores. Arrependeram-se de ter praticado tanto bem...

–‘Muié’ satisfeita cria asas porque se fortalece em cima do prazer carnal com que nós ‘homi’ lhes favorecemos.

E Maura Beatriz, a dócil esposa de Wilmar, continuou calada, disciplinada e infeliz até o final de seus dias.

E o pior é que o jovem ouvinte daquela história toda vez que via dona Maura Beatriz transitando pelo comércio da cidade a enxergava como uma pudica, mas mal amada mulher do pedaço. Bonita e bem feita de corpo atiçava as fantasias de Tibério que me afirmou:

—Nunca tentei, mas aquela dona Maura Beatriz merecia ser osculada com “paixão devoradora”...

               O chauvinismo ainda era desconhecido, mas o machismo de Wilmar Feira de Santana marcou Tibério de tal maneira que, ao contrário, fez nascer nos seus sentimentos de homem a sensibilidade que, para ele, elevava templos às mulheres, posto as reconhecer como o mais perfeito dos ideais, razão de sempre as colocar no pedestal mais alto, simbolizando um altar.

 Palavras para reflexão!

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

        Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Os 100 anos da igrejinha

Os 100 anos da igrejinha

         Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof

Gente de Opinião Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)