Sábado, 7 de fevereiro de 2026 - 09h15

Estive
presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo
Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa comandada pelo Padre
William, celebrante que assumia a administração da Diocese.
Esta igrejinha
entre 1924 e 1926 meu tio-avô, o saudoso coronel Paulo Cordeiro da Cruz
Saldanha, apoiado por diversas famílias guajaramirenses, notadamente pelas
senhoras dona Emilia Bringel Guerra (carinhosamente chamada de dona Pretinha) e
Luzia Martins conhecida como dona Sinhá Martins lançaram as bases para a sua
construção, desde o levantamento financeiro passando pelos alicerces, a colocação
dos tijolos sobre a argamassa, cujos pedreiros alinhavam, aprumavam e nivelavam
cada unidade de barro, erguendo as paredes até que chegasse o instante para a cobertura
e pintura, e depois, o da sua conclusão;
Esta igrejinha ainda ostenta
imediatamente atrás da sua torre, esta edificada por Dom Francisco Xavier Rey,
a Cruz implantada pelo coronel, meu parente citado.
Tenho pela Igrejinha um carinho
espiritual tão forte, que me comove quando adentro no seu interior...
Nesta Igrejinha, minha mãe, como uma
das primeiras alunas do Colégio que preparava as primeiras professoras (Estela
Madeira, Antônia Quintão, Paula Gomes e Mita Cordeiro) assistia a Santas
Missas, comungou, cantou cânticos católicos, tornou-se Membro da Comunidade das
Filhas de Maria;
E nesta igrejinha meus pais se casaram e
integraram o grupamento religioso do Sagrado Coração de Jesus.
Nesta igrejinha fiz a primeira
comunhão, fui Crismado, tornei-me Cruzado, Cavaleiro de Cristo, ajudei diversos
padres na celebração da Santa Missa, inclusive fui coroinha de Dom Rey, o
abençoado primeiro Bispo de Guajará-Mirim.
Aqui nesta Igrejinha eu me casei!
E nesta Igrejinha meu primeiro neto
foi batizado!
Daí a imensa referência que ela traduz
para mim e diante da intensa gratidão que eclode na memória do meu coração...
Poucas pessoas sabem, mas os sinos
registram no seu dorso, na sua superfície, os nomes das famílias de Manoel
Boucinhas de Menezes, Clóvis Ewerton, Coronel Cesário e coronel Paulo Saldanha,
como os seus doadores.
Desta Igrejinha tenho gravado no meu
cérebro o bater do seu relógio, sinalizando as horas ou os sinos dobrando,
anunciando as Missas, as Novenas, as Procissões, ou balando a dor, anunciando a
partida de alguém no rumo da eternidade... E as perguntas surgiam: Por quem os
sinos dobram? –Eles dobram por ti, seja
você católico ou não!
O relógio da Igrejinha ia sinalizando
o nosso tempo! Os sinos badalavam o horário, na cadência e no ritmo devidos,
que transcorria célere em direção à vida. Ou à morte! Ao chamamento da Missa,
da Novena, da Procissão ou ao velório de alguém.
O tinir do badalo no sino ou
significava o alerta do tempo ao compromisso religioso ou ao pranto!
A cidade comovida ouvia o seu badalar
tonitruante e se questionava através dos seus habitantes, que mensagem de
angústia ele traduzia? Quem havia morrido, qual a família enlutada? Quando
aquele sinal pranteava a dor.
O certo é que o sino da
Igrejinha simbolizava através do seu sentir o poder de informação que ele
enfeixava como mensageiro de boa ou de má noticia. Era um instrumento de
integração, pois ao seu “grito de guerra ou de alerta” a cidade caminhava em
direção à Praça Mário Correia, onde se celebravam os eventos ou onde se
recolhiam os detalhes divulgados segundo o que traduzia o seu bater.
E uma saudade bate forte! Se acalenta,
ela também nos inspira! As saudades que me envolvem são as mesmas que invoco
para dividir neste instante com eventuais leitores, porque são lembranças de um
tempo que, eu sei, não volta mais.
Por outro lado, o sino emudeceu!
calou-se! Na região não existe um profissional que possa fazê-lo “cantar”. A
Cúria tenta contratar um especialista, um técnico de sinos e relógios
monumentais.
Atualmente, puxado por cordas os sinos
já enviam novamente pequenas notificações... mas, não remete suas mensagens
como antigamente, nem demonstra a ansiedade pela marcação das horas. Mantém-se
silente, parecendo um observador privilegiado da Paróquia, pensativo e
esperançoso...
O relógio das Igrejas desceu primeiro
para as paredes das casas, para a algibeira (bolso que faz parte integrante da
roupa), depois para os pulsos dos homens e mulheres. Hoje está inclusive
incorporado aos celulares e computadores...
Porém, esse equipamento “que diz as horas”,
na cadência do tempo a velocidade de agora parece voar mais célere na busca
desenfreada do homem moderno em direção ao seu próprio desgaste, à guisa de que
obter conquistas materiais é o seu apanágio, é o seu foco principal.
Ledo engano! Poderá ser a antecipação
do seu próprio fim!
Aqui em frente da Praça Mário Correa,
eis o meu lugar santificado! Meu canto de paz, meu espaço de luz! Minha ilha
particular cercada de bênçãos por todos os lados: A Igrejinha do Perpétuo
Socorro – sempre me pareceu a extensão do lar onde fui criado. Ou, ao contrário, o lar onde fui criado
terá sido a extensão da Igrejinha do Perpétuo Socorro?
No outro dia, senti inevitável vontade
e retornei. Ao adentrar fiz a genuflexão, o sinal da Cruz e olhei à direita.
Uma escada se quisesse, me levaria ao Coro e, depois, a altura dos sinos. Nem
precisei ir lá; fiquei ali e acabei sentindo o cheiro da umidade que se
aspirava ao subir aqueles degraus em direção às estruturas que moviam os
relógios e badalavam os sinos.
Uma atmosfera me envolveu e até
parecia que alguém, como se um guia católico fosse, me acompanhava em direção ao
centro da igrejinha.
Parei. Estava só?
Olhei para o Altar que sempre me foi
tão familiar e imaginei que alguém com barba e bem paramentado me dizia “O senhor
esteja convosco”. Era uma frase específica, especial, única, dita para mim!
Quanta pretensão! Dom Rey, tão
liturgicamente voltado para a cerimônia, estava sisudo, mas sorriu ao me olhar.
Baixei a cabeça de forma reverente e uma alegria iluminou o seu rosto, já
marcado pelo tempo.
Sentei num dos bancos próximo dos
confessionários e me imaginei ouvindo “Coração Santo” e olhei mais para o lado
e vi tão nítido o Órgão e, atrás dele, parecia que a professora Carmem Carvalho
tocava e cantava inebriada com fervor angelical.
Precipitação, decorrente da minha
ansiedade! Meu Deus, como às vezes a minha imaginação é fértil! Pisei no chão,
voltei ao planeta Terra, não sem antes ver que a Irmã Agostinho me dava um
tchauzinho com aquele sorriso encantador, como que apoiando a aquela visita
sentimental, mas que, em suma, refletia uma atitude derivada de uma necessidade
espiritual.
“Eu procurava me avistar com Deus!
“Entrei. Um gênio carinhoso e amigo, o fantasma talvez do amor materno,
tomou-me as mãos, olhou-me grave e terno, e, passo a passo, caminhou comigo”...
Ajoelhei-me e procurei me
concentrar. Alguém passando por mim bateu no meu ombro e foi em direção à
sacristia, levantei os olhos e respondi com um aceno. Padre Elias estava de bom
humor! Ao saber que eu me encontrava no local, o Padre Hugolino colocou a
cabeça para fora do confessionário e me abençoou. Nem me deu penitência alguma!
A Irmã San Rafael, a Vovó-Freira, Irmã
Noelah, as irmãs Emília, Maria Antonieta, Maria José, Celeste e Ruth,
intercederam por mim e o sacerdote me liberou da confissão no pressuposto de
que eu já me arrependera sinceramente dos pecados cometidos...
E, de lambuja, perdoou-me pelas
futuras pequenas transgressões a serem praticadas. Fiquei com saldo credor! Que
bom! Posso pecar à vontade! Mas, eu sei, nada justifica a fraqueza. –Seja
homem, cara! O então Padre José Vieira Lima me alertava... Por sua firmeza,
cultura e dedicação virou Bispo e vive em Cáceres.
Do alto da imagem de Nossa Senhora do
Perpétuo Socorro imaginei ter visto saindo da mão direita da Mãe Santíssima uma
luz tão forte caminhar na minha direção. A paz de Deus me confortou! Fechei os
olhos e me senti fortalecido!
Parecia que, ao voltar no tempo, eu
cheguei a ver as filhas de Maria, o grupo do Sagrado Coração de Jesus e outros
católicos, tão contritos, fazer suas preces, seus pedidos, através das orações
que aqueles dirigiam fervorosamente ao Criador.
Outros, segundo a minha virtual
observação, apenas agradeciam pelas bênçãos recolhidas! Os homens, eu pensava,
precisam de Deus em suas vidas para lhes irrigar a trajetória que poderia ser
tão angustiante não fosse a esperança, nutrida na fé, que alimenta a alma de
cada um.
E, assim “em que da luz noturna à
claridade, uma ilusão gemia em cada canto e chorava em cada canto uma
saudade”... aqui dentro, aqui dentro da Igrejinha.
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