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Gente de Opinião

Paulo Saldanha

Sei que vou morrer, não sei o dia...


 
Por Paulo Cordeiro Saldanha*

“Sei que vou morrer, não sei o dia... levarei saudades da Maria; sei que vou morrer, não sei a hora... levarei saudades da Aurora”. São versos do Ataulfo Alves e traduzem a verdade crua – quase tormento – que marca a vida dos humanos: não saberem o dia da partida para a outra esfera.

Para não fugir a regra, tenho também as minhas preocupações nesse terreno. Todavia, meus medos já foram bem maiores.

É que meus temores passavam por morrer cedo demais e deixar uma família com crianças muito pequenas, indefesas, despreparadas para enfrentar o cotidiano e as dificuldades que fossem surgindo.

Hoje, Pai de filhos adultos, essa angústia desapareceu. Mas há lampejos de lamentos a vislumbrar. Por exemplo, deixar os netos sem que os tenha curtido o suficiente, e, assim, levar para a outra dimensão (?) as lembranças e as saudades deles recolhidas.

Não sei onde li, mas há um provérbio árabe que nos leva a seguinte meditação; “queres viver muito, pensa na morte”. E eu penso bastante nela, que já me andou espreitando muito de perto, mas recebeu outras orientações e foi festejar sua macabra obsessão noutra freguesia.

Em tese, desfruto de boa saúde, há quem diga que estou até muito bem para a já ingressada “terceira idade”: pele lisa, lucidez e reflexos bem ativados; mas, mesmo assim, não desgrudo das devidas atenções a representação do esqueleto humano empunhando uma foice.

É como se estivesse com um olho na Missa e outro no sacristão...

Penso que, em relação a ela, a famigerada morte, tenho-a tão  presente que, quando chegar aquele instante incerto, certamente vou ver uma película de toda a minha trajetória neste Vale de Lágrimas. Confesso que, apesar dos equívocos, erros de avaliação, erros diretos e indiretos e os acertos, apesar de tudo, o saldo me será positivo no campo espiritual.

Quando pude fiz o bem; quando não pude, pelo menos tentei, pois a omissão e a negligência para com o irmão próximo ou distante, jamais foram permitidas por mim. Ser solidário, participativo, íntegro e fraterno são ações que sempre procurei desenvolver.

Defeitos? É certo que os possuo. Alguns deles até me despojei, em face do amadurecimento que o tempo nos traz e ainda por conta do aprendizado que a vida me revelou. Mesmo porque tive exemplos positivos recolhidos durante toda a minha existência, dentro da família, no mundo profissional e no modo de vida de tantos seres abençoados com quem me ombreei, convivendo em sociedade.

Recolhi missões profissionais em Mato Grosso, Amazonas, Rondônia, Pará e Roraima, saindo-me vencedor em relação aos desafios enfrentados. Fui um missionário do progresso e do desenvolvimento, nem sempre valorizado na terra que me serviu de berço.

Lá fora, sim!Mesmo porque é certa a afirmação de que “ninguém é profeta na sua terra”

Afinal, quantos e quantos migrantes acabaram sendo aplaudidos aqui em Rondônia, fora do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Tocantins e do Nordeste... lugares em que, se não foram renegados, mas que não encontraram o apoio para lá se fixarem, o que lhes sobrou de incentivo e respaldo para se converterem em vencedores homens e mulheres nestas paragens rondonienses, por eles escolhidas.

Muitos dos quais ajudei a reverenciar nesta abençoada terra, sem discriminá-los e até auxiliando-os na incessante busca de afirmação e reconhecimento.

Ainda bem que escolheram esta região, pois estão ajudando-a a se transformar em celeiro do País, a partir das suas contribuições profissionais, empresariais e políticas, que vão gerando o nosso progresso e o nosso desenvolvimento, que poderiam ser até maiores, se acaso fossem antecedidas do idealismo, seriedade e civismo que, lamentavelmente, faltaram no desempenho de alguns desses.

Assim, pensar na morte é elevar preces à vida e, incluir nos nossos sonhos orações que elevem pedidos ao Criador, para que neste nosso percurso terrestre possamos ser figuras edificantes, estrelas partícipes da bem-aventurança, anjos na produção de generosidade e amor ao próximo, virtudes que poderão nos alçar, quando da nossa partida –nessa data incerta– para um lugar de muita luz, numa das moradas do nosso Senhor.

*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.


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Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha
*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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