Porto Velho (RO) sábado, 22 de setembro de 2018
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Gente de Opinião

Paulo Saldanha

O SOL VERMELHO



Paulo Cordeiro Saldanha*

Sol de agosto é o mesmo de setembro. Todos os anos, nesses meses, se metamorfoseia na cor. Do amarelo intenso, se transforma no vermelho sofreguidão, pela dor.

Mesmo rimando cor com dor, rima das pobres que simboliza a escassez de vida com que a humanidade vai presenteando as futuras gerações.

Hoje, saí bem cedo e olhei para Leste; uma esfera rubra caminhava na minha direção. Parecia revoltada, decepcionada, bastante amargurada, mesmo!O SOL VERMELHO - Gente de Opinião

Eu encarava o derredor e as árvores me devolviam um olhar de descrença, ante a ausência de umidade que as faziam minguar; olhei para o chão e a terra, antes tão dadivosa, já nem chorava mais, porque estava esturricada por dentro, sem líquidos, mesmo ao amanhecer.

No entorno, os aracoãs silentes não ecoavam os seus cantares, nem os zogui-zoguis, antes tão faceiros, não manifestavam a algazarra com que, quando possível, anunciam a chegada de uma chuva.

Os bicos-de-brasa, nem tchum! Calados estavam, calados permaneceram! Estariam fazendo greve contra os homens de má vontade?

Ali adiante as cotias, em petit comitê avaliavam porquê os ouricury, –cocos base da sua alimentação– estavam tão endurecidos, que, amargos, lhes dificultavam a ingestão e se angustiavam com o fato.

–É a seca, maldição dos humanos, interpretava a Cotia Dasyprocta aguti, quase anciã.

O Tamanduá Bandeira, em tempo de migração, se decepcionava com a magreza das formigas e dos cupins.

–Oh, seca maluca! Vou esperar o inverno para engolir essas criaturas com um pouco mais de carne. Dizia ele com os seus botões.

O pássaro seringueiro vai desafinando porque, como o guardião da floresta, o som mais forte (seu antigo orgulho não lhe pertence); o que o surpreende e o fossiliza é o da motosserra ou do caminhão tronqueiro, que transporta os pedaços dos ninhos, grudados nas forquilhas das árvores sacrificadas. Ninhos mutilados, ovos quebrados que não significam novas vidas embrionárias.

Alguém vai praticando um aborto, ceifando vidas no seu alvorecer. Na vida cidadã, praticar aborto é crime!

Sol de agosto é o mesmo de setembro! Todo o ano, nesses meses, se metamorfoseia na cor. Do amarelo intenso, se transforma no vermelho sofreguidão, pela dor.

Essa a verdade que não muda! Vamos, passo à passo, matando o Planeta.

Mesmo rimando cor com dor, rima das pobres que simboliza a escassez de vida com que a humanidade vai presenteando “henelisticamente” as futuras gerações.

Agora as queimadas não vêm mais só dos céus do Mato Grosso, Goiás, Tocantins, Pará e Rondônia, o País ao lado, a Bolívia, numa vingança sem precedentes, resolveu queimar suas florestas, aqui na fronteira.

E dane-se o meio ambiente!

O gado magro, ossos expostos, caminha cambaleante, ávido por encontrar uma poça d’água, mesmo misturada com a lama, visando adiar a sua agonia, pois o pasto seco, raspado como se fora um corte de cabelo bem rente a pele, já não o alimenta mais.

Até a bicicleta do peão, com seus aros meio tortos, levanta poeira na pequena estrada esburacada, tão seca, mas tão seca, que lembra a quase torrada terra do sertão nordestino.

Só que estamos na Amazônia!...

E os rios? Que fazem praias em lugares antes profundo leito por onde transitava! E, para não dizer que não falei das flores, estas para não murchar, vou regando-as a meu modo, com as réstias de amor e com as bênçãos, verdadeiras preces que ergo pedindo por suas sobrevivências.

E nós, os humanos, ficamos mais lentos; nos movimentamos devagar, caminhando igual a um idoso de adiantada idade, mesmo que sejamos mais novos, com as feições contritas, diante da carência de umidade, nesses meses, com a respiração dificultada na angustiosa ação de aspirar, numa vã tentativa de levar para os pulmões um oxigênio mais puro...

E a danada da fumaça nos impede de ver lá adiante a natureza, antes tão multicolorida, já que aos nossos olhos apenas uma cortina cinzenta, com chuvas de fagulhas se alevanta.

Não há Leis dos homens capazes de me convencer de que matar um animal selvagem, às vezes para saciar a fome mereça punição mais dura, do que infligir pena menor àqueles mal formados que queimam a vida e incendeiam a mata, como se fossem neo Neros de plantão, não mais em Roma, mas na Amazônia que Deus tinha reservado para homens, mulheres e crianças, animais e pássaros, peixes e anfíbios, que viveriam no terceiro milênio na terra de todos nós e dos indivíduos de boa vontade...

*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.

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Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha
*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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