Quinta-feira, 31 de março de 2011 - 15h53
Paulo Cordeiro Saldanha*
Para compensar a quantidade de carroças puxadas por bois ou por burros, com as quais os serviços de carga e descarga no porto do SNG e na plataforma da Estrada de Ferro, a cidade, já nos anos 40 viu Dom Rey trazer um caminhão Chevrolet Tigre.
Com aquele veículo Dom Rey conduzia materiais de construção, carteiras para o colégio, gêneros ou levava as alunas para passeios, em que pese a reduzida quantidade de estradas, que um dia seriam abertas.
Durante muitos anos foi o único equipamento rodante, movido a combustível, a percorrer nossas avenidas.
Nesse tempo as bicicletas davam o rumo da riqueza de quem a possuísse. Apenas os mais abastados tinham condição de comprá-las.
Cheguei a conhecer as “bike” Raleigh tão famosas quanto cobiçadas. Algumas vinham com dínamo que, encostado numa das rodas, acendia o farol. Buzina, espelhos e equipamento para garupa (bagageiro) eram apetrechos desejados.
Possuir uma bicicleta sinalizava bom status financeiro. Tê-la, elevava a auto-estima e representava o sonho de consumo de muitos meninos.
Lá pelas tantas o Hegel Morhy, Ex-deputado quando território, filho do comerciante Omar Morhy, bancário e executivo dos melhores que conheci, adquiriu uma motocicleta.
E a cidade passou a contar com dois veículos movidos a motor e com alguns cavalos de força a impulsioná-los: Dom Rey com o seu caminhão Chevrolet Tigre e o Hegel Morhy com a sua cobiçada motocicleta.
Um dia, em função do “excesso” de avenidas e, ante a “falta de espaço”, os únicos veículos chegados a nossa urbe bateram de frente. Acidente sem precedentes! Dom Rey com as mãos na cabeça e o Hegel no chão, gemendo de dor.
Sem sinaleiros, sem placas e, apesar da destreza dos pilotos, a nossa pequena Guajará descobriu-se preocupada com tamanha violência no “intenso” trânsito local.
Até que o Hegel, ajudado pela população que correu para a esquina aonde o acidente acontecera, foi levantando-se, enquanto Dom Rey, recuperando-se do susto, foi examinando a vítima.
A surpresa do caso fora maior do que os resultados observados. O Hegel, graças a Deus, ficara tonto, e luxara uma das pernas, mas não precisaria ser internado no Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, construído pelo então Bispo do município.
Porém, antes da chegada dos primeiros Jeep e das primeiras camionetes Rural Willys, meu Tio João Saldanha, adquiriu o primeiro automóvel de luxo que a cidade viu chegar. Era um Skoda, produzido na Tchecoslováquia, que já chegava vencido pelo tempo, exausto, tossindo e fumegando, pois era do último tipo.
Estávamos em 1957 e o carro era do último tipo, porém do ano de 1948. As portas abriam ao contrário do que hoje se vê. Uma manivela colocava-o em funcionamento. Já se percebia o cheiro forte de coisa ultrapassada. Naquele tempo já tinham pessoas rindo da patética figura do Skoda do meu Tio.
Aqueles risos o deixavam com raiva e, entre os dentes, xingava o transeunte que debochava, tripudiava do seu veículo, que, um dia, qual mocinha, tivera seus dias de glória, beleza e afirmação.
Passaram-se os anos, o Skoda envelheceu mais ainda. Eu, já rapaz, o recuperei parcialmente e passei a trafegar nas avenidas, com ele, acolitado pelo Delny Cavalcante, Paulo Cruz, Diniz e Antônio Nogueira com o cuidado de levar dentro do automóvel, num balde, a água salvadora contra o aquecimento do motor, pois o reservatório, não segurava a água muito tempo, uma vez que, bastante furado, perdia todo o armazenamento do líquido precioso.
Em 1966 lembro que o Edmar Lima Vieira, meu querido Chefe viajou para a Inglaterra (tempo de Copa do Mundo) e o Skoda foi utilizado para levar e buscar no colégio o seu filho Beto, que, menino, se deliciava com aquele transporte, ante as risadas que provocava nos demais alunos.
Lá pelas tantas, num dos nossos passeios pelas ruas, vimos a nos perseguir o Delegado da época, o educadíssimo Aguinaldo Evangelista, já montado na sua “possante” Lambreta eis que, desejando nos parar e aplicar implacável multa, faz sinal indicando um necessário estacionamento da nossa Nave, visando a oficial e inexorável revista.
O inusitado aconteceu: a lambreta sem freios não permitiu a parada da Autoridade. Nós, rindo, de maneira presunçosa seguimos em frente, tripudiando da falta de manutenção de um dos veículos em uso na Delegacia.
E a nossa indisciplina, por transitar com um veículo já velhinho, depauperado, carcomido, quase vencido pelo tempo, acabou sendo perdoada, como perdoado foi o abalroamento do Chevrolet Tigre de Dom Rey com a motocicleta do Hegel Morhy...
*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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Fonte: Paulo Cordeiro Saldanha
*Membro Fundador da Academia Guajaramirense de Letras-AGL e Membro Efetivo da Academia de Letras de Rondônia-ACLER.
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