Sábado, 15 de outubro de 2016 - 08h20
O Paulo Cruz me provoca com o mote “por onde anda minha saudade”. E eu respondo: anda aqui, caríssimo amiguinho. Hoje, assim como ontem, continuará amanhã sempre que recordo da nossa juventude, que jamais foi transviada e sim responsável, idealista, politizada e bem humorada.
As saudades batem forte quando recordo de pessoas e de “causos”. Pessoas, por exemplo, como Quintino Augusto de Oliveira - que o município de Guajará-Mirim esqueceu de valorizar - além de outros como o Toríbio Villar, que ganhou de mim, pelo menos, duas crônicas, reconhecendo-lhe a qualidade moral, cidadã e empresarial, como filho e habitante deste abençoado lugar.
Já escrevi sobre o Toríbio Villar, possuidor de uma personalidade inteligente e sagaz, um talentoso homem de negócios. Um cidadão, pode-se dizer, adiante do seu tempo. Trouxe o primeiro ônibus para o município e abriu uma linha Guajará-Mirim/Iata.
Esse “menino prodígio” era afilhado de meu tio-avô, o coronel Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha, que lhe deu o primeiro emprego, estimulando-o a ser o homem vencedor que foi como funcionário da então Guaporé Rubber Company e, depois, empresário revolucionário, intrépido e criativo.
O Paulinho Cruz, também saudosista e prestando uma reverência ao Toríbio, recorda de fatos que eu, agradecendo-lhe pela oportunidade, passarei a relatar. Eis sua narrativa:
“Toríbio era uma pessoa de raros conhecimentos (fazia cálculos de cabeça mais rápido do que o Estácio Lopes Gusmão, outro talento de geração mais recente, alcançava na velha e saudosa calculadora mecânica Facit). Estácio nunca lhe ganhou uma!
Ele tinha diversas manias (hoje, para os modernos, “TOC”). Não saía de casa com o pé esquerdo de jeito nenhum, além de costumar fazer as recomendações de praxe aos familiares, a saber: ‘Angelina (esposa), cuida de Titito; Titito, de Maria; Maria, de Lucas; Lucas, de Margarida; Margarida, de Terezita; e FORTUNATO (cão de guarda da casa) cuida da família inteira’.
Só depois de cumprido esse ritual da despedida iniciava a caminhada. Se por acaso houvesse engano e a marcha fosse rompida com o pé esquerdo, “estornava” todas as ações encetadas, tornando-as sem efeito e recomeçava mediante um novo cerimonial, dessa feita com redobrada concentração.
Fortunato, o cão, seu velho e fiel escudeiro, que o Toríbio imaginava estivesse zelando de toda a família, também se arvorava no direito de proteger as mercadorias, pois na residência dos Villar também funcionava uma padaria. Os sacos de farinha de trigo –americana - eram estocados nos espaços disponíveis, e Fortunato não se fazia de rogado. Como tinha de cuidar de tudo na residência/comércio (quando não estava roncando), aliava o “árduo trabalho” ao seu bem estar pessoal. Dormia refestelado feito um príncipe sobre os sacos de trigo, sem ninguém a importuná-lo.
Imagino quantos pães foram feitos com a tal farinha americana –devidamente “batizada”– posto manipulada (penso eu) tendo como ingredientes a urina e outros dejetos “temperos” oriundos do Fortunato, que normalmente dormia 25 horas por dia...
Fortunato era um ‘gentleman’: nunca se soube de alguém que tivesse sido por ele importunado.
Bonachão era o Fortunato! Malandrinho, adorava pão com leite. Lambia os beiços após ser servido. Repudiava café e celebrava as famosas paridas que atendem pelo nome de rabanadas. Bom gosto para a gastronomia ele tinha! E muito!
Toríbio, dentre as diversas ‘manias’, só contava dinheiro com as cédulas totalmente abertas. Se o pacote de cédulas lhe fosse apresentado dobrado ao meio, não tinha dúvidas: contava de um lado, e após, do outro. Justificava o procedimento pelo fato de ter, um dia, identificado uma nota incluída dolosamente por alguém, manipulada apenas com a metade; se manuseada no lado dobrado é óbvio que tinha uma cédula a mais, erro que identificava ao contar do outro lado, pois ali poderia estar uma cédula a menos...”
Uma de suas características era vestir-se totalmente de branco, o que lhe assentava bem por ter uma cabeleira bem branquinha, apesar de exibir um aspecto bem jovial, aliado ao seu permanente bom humor. O cinto era instalado bem acima do umbigo de uma proeminente pança adquirida. A todos tratava com refinada educação e muita simpatia. Era muito querido por todos que, como eu e o Paulo Cruz, privaram de sua amizade, apesar da diferença de idade que nos separava.
As histórias de Toríbio dariam um excelente livro de contos, tantos os ‘causos’ e tantos exemplos legou à vida guajaramirense.
Entretanto, recordar do Fortunato, tranqüilo, de bem com a vida, rechonchudo, indolente - para não dizer preguiçoso - e glutão é intensamente salutar, porque representa ganhar uma fortuna na seara espiritual por conta das nossas recordações sempre recheadas de bom humor...
Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda
Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim
Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof
Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)