Porto Velho (RO) terça-feira, 18 de junho de 2019
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Gente de Opinião

Paulo Saldanha

O mundo gira... e como gira!



Faça de conta que esta narrativa tenha acontecido aqui em Guajará-Mirim, no fim dos anos 50, começo dos 60. É evidente que os nomes são fictícios.

Era apaixonado por Alaíde, linda, alta e branca, mas Nelson casou-se com Izabel, também bonita, rica e arrogante. Alaíde tinha um porte de nobreza que lhe ampliava a formosura, notadamente quando andava toda garbosa nas avenidas da pequena cidade, naqueles tempos de outrora. Ao desfilar na sua bicicleta, chamava os olhares e atraía para si a cobiça do clube masculino da urbe, inclusive dos casados. Nem ligava para as invejosas de então...

Ocorreu que Izabel articulou uma situação que criou uma dúvida no homem por ela escolhido, sabendo que este estava envolvido na afeição que devotava à sua adversária. Inventou uma historia falaciosa na qual o seu preferido acreditou, o que levou ao fim do namoro entre Nelson e Alaíde. Izabel, ladina, sorriu por dentro e avançou suas garras em direção ao rapaz bonito em quem lançara suas expectativas casadoiras.

A moça aviltada ainda tentou demonstrar, em vão, que nenhum deslize fora por ela cometido. Ele, vendado, passou a nutrir mágoa e decepção contra o amor de sua vida, posto ter sido conduzido a acreditar numa torpeza ensaiada que jamais existira, na realidade.

Interesse financeiro foi a sua outra opção. Mas o coração, esse sim, pertenceria a Alaíde.

Nelson optou pela riqueza e poder, e não pelo sentimento que nutria por Alaíde.

Com um cargo numa das empresas da família da mulher, começou uma emblemática trajetória como neo-empresário de plantão. Transferira residência para São Paulo.

Alaíde, de personalidade forte, bastante decepcionada, amargurou um exílio na própria casa e fechou-se para novos amores. Nunca mais namorou e nem mesmo flertou com algum rapaz da sua cidade.

Com o sentimento comprado, um casamento de conveniência foi tramado. Tempos depois, Nelson passou a definhar sua antiga alegria, como se estivesse doente. Trancou a vida e o casamento também mirrou, murchou como secam as árvores, as plantas, as flores sem água e sem adubo.

A frivolidade de Izabel parecia não ter fim! O fracasso de seu casamento ela sabia dissimular com o talentode que se valia para fingir. Afinal, era mulher hipócrita e enganadora.

Quando ia à capital, lá se encontrava com um amante misterioso, mas não admitiria a separação. E vivia uma vida dupla, pensando que ela jamais seria reconhecida por alguém no local.

Nesse interregno, Nelson descobrira a artificialidade do macabro cenário que o enredou, e foi se afastando da megera, sua consorte pela lei de Deus e dos homens. Mas já era tarde! Pelo menos pensava assim...

E nos seus instantes de solidão, sonhava com a namorada que sabia solteira e magoada!

A lei do retorno não se esquecera de Izabel. Um dia adoeceu e não teve dinheiro que a salvasse. Também foi murchando, murchando, sua pele ficou macerada e dores, violentas dores, ampliaram o sofrimento em face da doença adquirida. Fora punida, e a morte lhe chegou como quem chega do nada.

Viúvo, Nelson, confessando-se saudoso, retornou à pequena Guajará. E as dores acumuladas geraram recordações, mas tantas, que seus olhos marejaram ali nas margens do Mamoré. E foram tantas lágrimas que até pareceram maiores na quantidade do que daquelas águas que à sua frente se movimentavam no caudaloso rio.

Com os cabelos em desalinho e já prateados em face do avançar da idade, retornando lá do porto oficial, ia ele caminhando pela Praça Mário Correia quando a viu passar, já balzaquiana, mas nem por isso menos bela. Olharam-se entre surpresos, perplexos e admirados, cada um à sua maneira, e se cumprimentaram meio incrédulos. Segundos que pareceram eternos! De repente um sorriso brotou nos lábios de ambos, se olharam bem no fundo dos olhos e suas almas se tocaram.

Suas pupilas se reacenderam. E ambos, inexplicavelmente, choraram e se abraçaram, ele pedindo perdão; ela, espírito elevado e superior, perdoando...

E desse dia em diante a música Valsinha, do Chico Buarque e Vinicius de Morais, raiou intensa, aqui na cidade lindeira, pois aqueles dois viveram como nela descrito:“ ...e cheios de ternura e graça / Foram para a praça e começaram a se abraçar / E ali dançaram tanta dança / Que a vizinhança toda despertou / E foi tanta felicidade / Que toda a cidade se iluminou / E foram tantos beijos loucos / Tantos gritos roucos como não se ouvia mais / Que o mundo compreendeu / E o dia amanheceu em paz”...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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