Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Paulo Saldanha

O Estatuto que contém avanços é o mesmo que criou constrangimentos


           

A Constituição Brasileira no artigo 227, também assegura a proteção integral à criança e ao adolescente: "É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão."

            Desculpem-me pelo atrevimento, mas vou transitar por outra seara, invocando Rui Barbosa: “Há tantos burros mandando em homens de inteligência, que, às vezes, fico pensando que a burrice é uma ciência”. E vou tentar me justificar, valendo-me do Estatuto da Criança e do Adolescente, instrumento sancionado por Fernando Collor, acolitado pelos Ministros Bernardo Cabral, Carlos Chiarelli, Antônio Magri e Margarida Procópio, personalidades reconhecidas como inteligentes e de notável saber, tanto que chegaram à cúpula do poder. Por outro lado, nem isso é vantagem, porque outros sabidamente ignorantes, espertos e medíocres também montaram estruturas eivadas de vícios daqueles mais intoleráveis, lá no Planalto.

            Todavia, se desejo reconhecer o avanço que esse Estatuto trouxe para as novas gerações em termos de conquistas e proteção, de certa forma o mesmo também trouxe atraso, pois acabou surrupiando do adolescente o direito ao trabalho, este como ordenador de conduta edificadora e que permitia adquirir aprendizado, disciplina, respeito à hierarquia e sua valorização pessoal como elemento garantidor de dignidade humana, até porque sempre terá que ser remunerado.

            E não me venham sociólogos e/ou os psicólogos arautos de uma falsa moralidade com as horrendas chorumelas de sempre... “A criança e o adolescente têm os mesmos direitos que uma pessoa adulta e, além disso, têm alguns direitos especiais, por estarem em desenvolvimento físico, psicológico, moral e social.” E eu pergunto: por que não ter direito ao trabalho diário de, ao menos, 4 horas? Isso poderia se dar sem prejuízo do compromisso de estudar e evoluir, ao tempo em que desenvolveriam suas aptidões e com a descoberta dos seus talentos através do trabalho bem orientado. Interagiriam com pessoas, conheceriam os trâmites da compra e venda, entenderiam o planejamento e a visão de futuro, seus direitos e suas obrigações, o comando e a hierarquia, as relações públicas e humanas, a socialização, as amizades e as diferenças.

            Através de supervisão competente (há normativos) o jovem poderia ter assegurado o direito a estágios! Tudo bem. E para o jovem ansioso por idêntica valorização, mas que não tem acesso ao estágio? Como esse cidadão pode ficar?

            Como esse jovem tem sonhos, aspirações, desejos de consumo (muitas vezes, tão pequenos) e expectativas, esse pequeno ser fica marginalizado porque existe uma lei absurda que o proíbe de trabalhar e ainda pune o empreendedor que o empregar, ao oferecer-lhe uma ocupação ainda que por apenas 4 horas diárias, sem privá-lo do necessário horário escolar.

            E então, ante a falta de opções, centenas e centenas de adolescentes são abraçados pelo tráfico de drogas (que o emprega sem pedir currículo), pela marginalidade que corrompe os valores morais, mas lhe dá ganhos estratosféricos, porque o Estado, por uma lei cerceadora, lhe veda a chance de ter ganhos financeiros pelo bom caminho, talvez por miopia dos governantes, talvez por burrice desses, abrindo aos jovens uma porteira para a contravenção e para o crime. Uma trajetória muitas vezes sem volta... Que pena! Afinal, a teoria é uma, a prática é bem outra...

            E o pior é que a lógica do garoto é bem forte:

“-Moço, eu tinha um emprego; obrigaram o patrão a me demitir, ele, que tão bem me acolhia; ameaçaram ele de prisão e o puniram severamente. Naquele tempo eu ainda estudava... fui para outro emprego, acontecendo o mesmo, aí, seu moço, saí da escola, vim vender droga. Me pagam bem e o Governo não me atrapalha... E estou ganhando um bom dinheiro. Já tenho meu tênis, um bom celular, vou ao shopping ver os filmes e como sanduíche do Bob’s. O Governo só atrapalhava a minha vida quando eu estudava e tinha um trabalho honesto... Agora, não!”

            Ao jovem “estragado” por uma legislação equivocada, para matar, traficar e roubar não há empecilhos, haja vista a falência do sistema de segurança. Trabalhar, ganhando seus honestos rendimentos e estudar, não pode...

            Que futuro esplendoroso uma lei burra assegura aos jovens do nosso país!...

            Vamos, deputados e senadores honestos! Façam projetos de lei que realmente protejam as crianças e os adolescentes que ainda não foram vítimas desse tresloucado Estatuto, esse ECA maluco, como malucos foram aqueles que o conceberam com essa dissonância !

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoQuarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda

        Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Os 100 anos da igrejinha

Os 100 anos da igrejinha

         Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

História e Ficção: Paulo Saldanha lança em Porto Velho seu livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim

Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof

Gente de Opinião Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)