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Gente de Opinião

Paulo Saldanha

O Beija-flor e o gavião



Aquele beija-flor parecia indócil; seu voo rápido, ora planava, ora voava de ré, percorrendo distâncias numa agilidade que causava inveja aos mortais humanos. Meus olhos eram incapazes de contar a quantidade e intensidade com que batia suas asas. Dizem que chegam a movimentá-las umas 90 vezes por segundo.

Todavia, lá do alto da embaúba o gavião o mirava com fúria sanguinária. Afinal, aquela espécie de predador vinha observando-o e à companheira, da feita que preparavam um ninho. Se os tivesse entre as garras iria lambêr os “beiços” desejando o manjar que se acomodaria no estômago insaciável, naquela pequeníssima casa feita de gravetos.

Como se sabe o gavião é “aviciadinho” em ninhos de outros pássaros, mas não dispensa insetos e pequenas presas como roedores, lagartos, preguiça, macacos, etc. Do alto, acha-se poderoso e, num descuido ataca, pega, mata e come...

Domina com sua imponência todo o território brasileiro e, aqui na fronteira, transforma-se no terror dos galinheiros, posto apreciar pintinhos, mas consome ainda roedores, pombos, pequenas cobras e lagartos. Eu mesmo já vi duas vezes, um gavião com cobras presas às suas garras, mexendo-se, ainda vivas, certamente desesperadas ante a morte iminente.

Muito embora seja ele, o gavião, nos lugares aonde tem o seu habitat, um ator privilegiado na cadeia alimentar, busca comida nos ninhos de outros pássaros, cumprindo, na natureza, relevante papel regulador, uma vez que atua neutralizando o superpovoamento de ratos, por exemplo, e de pombos, mas, caça os passarinhos, inclusive os beija-flores, seu foco alimentício próprio, mas teme os bem-te-vis e as tesourinhas que sobre eles avançam, com ânimo vingador. E o “seu” gavião, tão petulante e pedante, foge em desabalado voo, tão amedrontado...

Na vida nos defrontamos com homens gaviões e seres humanos beija-flores. Uns, egoístas, traiçoeiros, covardes e recalcados; outros, altruístas, íntegros, afetuosos e solidários...

Estudos dão conta de que o beija-flor é endêmico na Sul América, onde cerca de 320 espécies são catalogadas, metade delas aqui no Brasil. Plumagem colorida, tendo o bico alongado (com isso retira o néctar das flores com maior desenvoltura); tem ele uma visão aguçada.

É pequena ave, no máximo possuirá 58 milímetros de comprimento. Há quem diga que, eventualmente serão encontrados (embora raros), beija-flores gigantes, com habitat especifico na América do Sul, podendo atingir os 20 centímetros de comprimento; todavia, são aves detentoras de predicados tais, como voar para trás e executar manobras consideradas verdadeiros malabarismos, não possíveis noutros pássaros.

Possivelmente por inveja, ante a ausência de virtudes que sobram nos beija-flores, o gavião tenta atropelar a existência deles (os beija-flores), afinal não possui as habilidades em voo, ainda mais porque aqueles vivem entre néctar saboreando uma doçura de vida, o que violenta e amargura a trajetória da ave maior, nutrindo-a com ódio ensandecido e mórbido, pois vegeta noutro cenário, bem mais árido.

Enquanto o beija-flor vive entre flores, o gavião vicejará entre estruturas que virarão carcaças... Enquanto o gavião é meio ermitão, turrão e amuado até que lhe chegue o período do acasalamento, o beija-flor, alegre e sociável entre seus pares, embora monogâmico, conquista o seu par, cabendo a fêmea construir o ninho, chocar os ovos e alimentar a descendência.

Outro fator que alimenta o seu ódio contra o beija-flor –imaginação minha– se traduz no recalque que o leva a fazer sexo com a fêmea somente depois de 365 dias (ou mais) do nascimento do(s) filhote(s). Enquanto isso o beija-flor vai conquistando as fêmeas que lhe queiram dar bola... Sedução à parte, um é gentil, romântico e cavalheiro; o outro, embrutecido, cabotino, frio, maquiavélico e egoísta.

Sem desejar ser discriminador ficarei sempre do lado do beija-flor, pois, naquela história do incêndio na floresta, eu documentei o fato por ter sido testemunha ocular da soberba do gavião que, com a sua visão 8 vezes melhor que a do homem, longe da fumaça e do calor, de cima de uma sumaumeira, pousava inerte, omisso e negligente enquanto a pequena ave, levava no bico a mínima quantidade de água com que imaginava apagar o fogaréu.

É isso aí: na vida nos defrontamos com homens gaviões e seres humanos beija-flores. Uns, egoístas, traiçoeiros, covardes e recalcados; outros, altruístas, íntegros, afetuosos e solidários...

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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