Porto Velho (RO) quinta-feira, 27 de junho de 2019
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Gente de Opinião

Paulo Saldanha

Não, nada é mais como na época de nossos pais


 

Na pobreza retratada em face da dor pela perda do “setentão” Belchior fui chorar na letra e na música “como nossos pais” e fiquei mais entristecido ainda.

Afinal, tenho os mesmos 70 anos dele que, na canção, fez-me viajar para os anos 60 e 70 da nossa geração.

E consegui enxergar que muita coisa mudou de lá para cá; naquela época já beijávamos em público a nossa menina, mas respeitávamos os nossos mestres. A ele rendíamos nossas homenagens e consideração, tanto que, ao adentrarem na sala de aula, nos levantávamos e só sentávamos depois de devidamente autorizados.

Hoje mudou, tudo mudou!... Há violência contra os mestres, professores agredidos e violentados na sua autoridade por alunos e por muitos pais.

Valorizávamos a letra de uma canção, desde que tivesse começo, meio e fim... A leitura era estimulada dentro dos nossos lares porque reconhecíamos que “viver é melhor que sonhar” e que “o amor é uma coisa boa, e que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa”.

A pátria – nós aprendemos logo, logo – era para ser a nossa segunda referência, depois do lar e da família. Em seguida, aos Mestres todo o nosso carinho! Os quatro hinos oficiais brasileiros eram o marco para que jamais sinal algum fosse fechado para nós, posto que não havia perigo nas nossas esquinas, até porque as forças armadas estavam alertas...

Havia um fervor dentro das nossas almas, quando olhando o pavilhão maior entoávamos o Hino Nacional e o da Independência e nos emocionávamos com os Hinos à Bandeira e à Proclamação da República porquanto a liberdade abria as asas sobre nós, jovens que recebíamos os impulsos do progresso e do desenvolvimento, sem nos envolver com terrorismo, roubos, assaltos, assassinatos e vandalismos.

Nas cidades ou no sertão tinha sido afastada a possibilidade real para o prosperar de uma doutrina vermelha que, se iludiam e se enganavam uns, era repudiada pela maioria absoluta dos filhos de nossos pais. A nossa paixão era um Brasil para brasileiros que pudesse dar oportunidade a todos, principalmente àqueles que, dele saindo, pudessem crescer e se fixar nas metrópoles, sem desejar voltar para o sertão.

E, durante muitos anos, passamos a não ter ferida no nosso coração...

Fomos percebendo que, “devagar, devagarinho”, os ídolos dos nossos pais eram mantidos como num sacrário dentro das lembranças mais íntimas (Vicente Celestino, Gastão Formenti, Chico Alves, Silvio Caldas, Carlos Galhardo, Dalva de Oliveira, Orlando Silva, Ângela Maria, Nora Ney, Marlene, Emilinha Borba, Inezita Barroso, Izaurinha Garcia, Carmem Miranda, Nelson Gonçalves, Núbia Lafayette, Cauby Peixoto, Agnaldo Rayol, Carlos José, Maísa, Martinho da Vila, etc. etc., mas, outros criativos, como reencarnações de divindades foram surgindo; “de repente, não mais que de repente” (Roberto Carlos, Chico Buarque de Holanda, Elis Regina, Wanderleia, Ronnie Von, Martinha, Jerry Adriany, Antônio Marcos, Agnaldo Timóteo, Jessé, Altemar Dutra, Fagner, e até você, Belchior, e se mantiveram na memória, negando a frase “de que depois deles não apareceu mais ninguém” e, então, “pra não dizer que não falei das flores” eis que, como se numa praça virtual da apoteose, outros passaram a desfilar como ídolos de várias gerações, inclusive Fafá de Belém, Elba Ramalho, Zizi Possi, Leonardo, Zezé de Camargo e Luciano, Moraes Moreira, Ivete Sangalo, Mônica Salmaso, etc, etc, etc, permanecendo como nossa riqueza maior, perenes e eternos.

Afinal, os populares de hoje, um dia virarão clássicos...

E “na parede da memória há uma lembrança que mais dói”, quando desolado vejo que a nação perdeu a sua própria memória, os valores se inverteram, o ter vale mais que o ser, o respeito aos mais velhos se envergonhou, as nulidades e a ausência do mérito prosperaram, o poder de 1985 em diante agigantou-se nas mãos dos maus, muitos desanimaram-se da virtude, passaram a rir da honra, tripudiaram dos predicados da honestidade, acabando por ir, nos gabinetes e nos plenários públicos, gargalhar das próprias torpezas, enlameando seus mandatos e suas trajetórias como homens e mulheres, como chefes ou filhos de família e como cidadãos...

“Minha dor é perceber”, todavia, que “apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”; assim, parte desta atual geração, notadamente muitos dos homens públicos, nascidos para a política, depois do que costumam chamar de período ditatorial – que outros o reconhecem como revolucionário – a mendicância moral tomou conta da vida nacional e, ironicamente, é aplaudida a partir dos palcos brasileiros... Ou será “que eu tô por fora ou então que eu tô inventando?”

Eu sei, Belchior, que sou um tanto saudosista e você me dirá que eu “amo o passado”, mas, irrequietamente esperançoso vejo que “o novo sempre vem” e que “uma nova consciência” eclodirá através de uma “juventude que, guardada por Deus, não ficará em casa contando o vil metal”, mas emergirá idealista e comprometida com a grandeza espiritual refletida nas “bem-aventuranças”, que consagrem o amor e o nacionalismo virtuosos, únicos caminhos a serem trilhados como exigência da ética e da moral mais exacerbadas.

Só assim viveremos realmente dentro dos princípios transferidos pela maioria das famílias que eram formadas e viviam como nossos pais.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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