Domingo, 9 de junho de 2013 - 09h44
A Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, foi entregue à população de então pelo meu saudoso tio-avô, o Coronel Paulo Cordeiro da Cruz Saldanha, possivelmente em 1926. Hoje carinhosamente denominada “Igrejinha”, é uma preciosidade, uma relíquia.
Para nós guajaramirenses, que procuramos conhecer a sua história, ela parece ser ainda hoje o coração pulsante de seu idealizador e ampliador, Dom Francisco Xavier Rey, primeiro bispo prelado da atual Diocese de Guajará-Mirim, cuja jurisdição eclesial se estende até ao Alto Guaporé, lá na divisa com o Estado de Mato Grosso.
A sua inauguração, não mais como Capela, mas como pequeno santuário, segundo contam os mais antigos, foi um acontecimento rico de momentos de alegria e muita emoção, desde a celebração da Missa Solene ritualisticamente conduzida, até a entusiástica participação de autoridades em oratórias próprias nesses eventos.
Para a época, a visão era faustosa! A gente de fé via com orgulho que a antiga capelinha crescera, agigantara-se, se tornara de fato uma igreja, com adro, coro e sinos, sem falar da torre e do transepto que lhe davam contornos definitivos de um templo católico.
Nesse dia houve até quermesse – festa ao ar livre – muito comum em povoados da Amazônia e teve de tudo: pato no tucupi, espetinhos de churrasco. Galinha assada com farofa, pasteis, saltenhas, bolos e doces, aluá e refrescos artesanais. Até mesmo a “chicha morada” foi oferecida por damas naturais da vizinha Bolívia, já radicadas no lugar.
No cotidiano da Igreja, devido à seriedade de Dom Rey, cioso de seu ministério pastoral e da formação de seus auxiliares, deram-se casos interessantes. Eis o primeiro deles: alguém chegava para pedir Missa votiva, de ação de graças ou pela segurança do falecido no Além, dizendo:
– Quero marcar Missa de lembrança. Como faço... e quanto devo pagar?
E o sacristão, circunspecto e competente, avisava:
– Se for de pessoa morrida em tempo recente, a encomendação pode ser feita dentro dos conformes da Liturgia, como manda o regulamento canônico... Mas, se for reza para gente do passado, morrida no “distancial” de muitos anos, o pedido deve ser feito de corpo presente, com o testemunho de, pelo menos, um parente vivo! A espórtula[1] é espontânea, a partir de 2$000.dois mil réis (?). (o grifo me pertence)
Outro fato tragicômico aconteceu logo após a ampliação da Capela, os sinos foram implantados e o côro instalado, com seus cantores integrantes escolhidos e treinados, tão logo o órgão ficou disponível, quando uma celebração de Missa foi anunciada.
Dom Reysempre separava as crianças dos adultos; todavia, uma mulher de origem boliviana resolveu ficar junto das crianças, na lateral direita, de quem entra naquele espaço, que simboliza o lado direito da Cruz do Cristo. Ela parecia doente; tinha um rosto contrafeito e se mexia, se abanava, parecia sentir grandes dores.
Fora convidada a transferir-se para o lugar dos adultos e ela nada! Mantinha-se irredutível! Quando ia começar a celebração, eis que, gritando de dor, vai levantando a perna, –por baixo não devia ter “calçola”... naquele tempo as sensuais calcinhas não eram produzidas– e, pulando por cima da cabeça dos meninos e meninas, por sobre elas vai derrubando aquela melequeira toda, gritando ARREDA! ARREDA! decorrente de uma disenteria que lhe vinha causando um desconforto e que a fez derramar todo aquele fétido produto nas costas e nas cabeças das crianças que abriram o berreiro.
No caminho, por onde ela passava, um rastro amarelado escuro a denunciava, o que vigorosos sons que expelia e o mau cheiro já confirmavam. Ela correu para o lado e se agachou distante uns 30 metros da nave, por trás de uns bambus, deixando apenas a cabeça à mostra...
Até Dom Rey, entre surpreso, contrariado e raivoso, acabou rindo e suspendeu o inicio da Santa Missa enquanto a Igreja e os bancos fossem limpos e as crianças devidamente asseadas.
Um tipo gozador e sarcástico, ao lado do famoso Capitão Alípio, do alto da sua sabedoria, exclamou: “O mel desceu, mas o bagaço ficou!”
Cena hilária! Alguém daria dinheiro para não perder aquele momento, visando a documentá-lo num texto. Escrevo as últimas linhas rindoàs escâncaras desse episódio, creio acontecido lá por voltas de 1938 ou 1939. Eu nem pensava em nascer. Mas que, para constar, pedindo desculpas, o registrei.
[1] Espórtulassão os valores cobrados pela Igreja quando esta ministra alguns Sacramentos (Batismo, Crisma e Matrimônio), especialmente donativos. (Fonte www.cancaonova.com).
Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)
CRÔNICAS GUAJARAMIRENSES - Jorge Teixeira, um Nome, Uma Lenda, Uma Legenda
Hoje, dia primeiro de junho, qual Sinuhe, personagem de Mika Waltari, autor de “O Egípcio”, escrevo daqui, quase do barranco do rio Mamoré,

Estive presente na celebração dos 100 anos da Igrejinha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. E me comovi por diversas vezes na Santa Missa co

O escritor Paulo Cordeiro Saldanha lança em Porto Velho o livro “Entre Brancos e Originários – A Ferrovia de Deus”. O evento será realizado na próxi

Crônicas Guajaramirenses - Desrespeito ao Calendário Cultural de Guajará Mirim
Nós, os Guajaramirenses deste tempo, temos muito a agradecer ao Governador Marcos Rocha e sua briosa equipe! Inclusive por merecermos a atuação prof
Quarta-feira, 3 de junho de 2026 | Porto Velho (RO)