Quinta-feira, 16 de junho de 2016 - 15h02
Já tive perdas que me revoltaram e me tornaram muito infeliz. Primeiro minha mãe, aos 37 anos, o que muito afetou, quase me traumatizando; depois, meu tio João, um ídolo; anos depois, minha avó Bernarda me encheu de melancolia, enlutando-me; até que, num primeiro de maio, no ano de 2000, Dia do Trabalho, meu pai, Paulo Saldanha Sobrinho, deixava este vale de lágrimas, fazendo-me chorar copiosamente como das vezes anteriores.
Outros desaparecimentos trouxeram amarguras ao meu coração pelas precoces partidas de amigos e parentes próximos.
No Dia dos Namorados, domingo, dia 12 passado, uma dor aniquiladora, intensa, sem precedentes, enodoou a existência de toda a minha família. Nosso segundo filho, após três paradas cardíacas, foi para o andar de cima, quando a esperança era o único sonho pelo qual as nossas orações ansiavam.
Na cronologia da vida, quando se pensa na morte, a sequência lógica nos induz a crer que o filho, ou os filhos, sepultem os pais. É o natural na trajetória dos seres, principalmente dos humanos.
Foi quebrada essa lógica, no meu caso e no de minha mulher. Pancada das mais fortes, jamais imaginada por mim, que penso e tento filosofar sobre a morte.
Diz um provérbio árabe: “queres viver muito, pensa na morte...”
E eu, que penso nela, me distraí e fui surpreendido no outono da minha existência por uma dor tão grande como se fosse um aborto a ferro em brasa, sem anestesia, sem aviso prévio; enfim, sem que uma preparação psicológica fosse antecedida, paralisando na minha trajetória a expectativa que eu e a esposa tínhamos de continuar convivendo com os quatro filhos abençoados com que Deus nos premiou a vida. Ficaram os três, Audrey, Dayan e Dayanne. Um dos endereços eletrônicos dentre os meus contatos, o e-mail dele, ficará inerte... Que pena! A troca de correspondência se dará no plano mental, pelas saudades que já estamos a sentir.
E agora os dias vão se passando, sem que eu deixe de questionar: foi uma punição em face dos meus defeitos ainda não exorcizados? Ou pelos erros por mim cometidos – jamais por dolo –, talvez por inadvertência ou equívocos de avaliação?
Sou alertado através das mensagens afetuosas que recebo via WhatsApp ou e-mails a aceitar os desígnios divinos. Adianto que nenhuma repugnância ao trágico deslinde me invade; sou temente a Deus e vejo que toda a família, em nome da racionalidade e espiritualidade, também pensa assim. Achamo-nos sob forte impacto, porém resignados, pois imaginamos que, com essa reação, contribuímos para a paz no descansar eterno de nosso filho Delman Cavalcante Saldanha (foto acima).
Na nossa análise, fincada na crença cristã e nos valores que elegemos como verdadeiros, se por um lado o nosso sofrimento tem sido doído por demais, temos a consciência de que temos que aguardar a passagem do tempo que transformará a dor de agora em um outro sentimento mais brando, o que nos levará aos momentos das saudades e das boas lembranças por termos vivido 44 anos ao lado dele - ainda que eventualmente estivéssemos distantes pelos quilômetros a nos separar no plano geográfico -, posto que somos uma família que aprecia viver uns próximos dos outros, porque nos queremos bem e nos admiramos reciprocamente.
Embora a música do Peninha trate de outro tipo de amor, vejo que cabe se adaptarmos para a precoce partida do nosso Delman: “Mas não tem revolta não / Eu só quero que você se encontre / Ter saudade até que é bom / É melhor que caminhar vazio / A esperança é um dom / Que eu tenho em mim (eu tenho sim) / Não tem desespero não / Pois o Cristo nos ensinou milhões de coisas / Tenho um sonho em minhas mãos / Amanhã será um novo dia / Certamente eu vou ser mais feliz...”
E eu, que penso na morte, dela não tenho medo. Tenho é pavor! Pois ela traduz tanto sofrimento, tanta dor tão imensa, que, quando chegar a hora incerta da minha ida, pretendo inclusive fugir do meu próprio velório...
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